Autor: Cícero Escobar
A ciência não é, seguramente, uma panaceia. Por outro lado, tão pouco é indiferente para com as necessidades humanas. Entretanto, em algumas áreas de pesquisa, sobretudo aquelas com menor consequência prática em curto prazo, críticas seguidas são feitas que concernem à necessidade real de investir tempo e dinheiro.
Argumentos rasteiros do tipo “o que querem esses cientistas estudando Marte? Temos problemas muito piores como o câncer para serem estudados”, ou “eles estão querendo brincar de Deus, devemos impedir investimentos com essas pesquisas”, são comuns de serem encontrados. No primeiro caso, a sentença é notavelmente falaciosa ao ignorar que a pesquisa do câncer recebe atenção exaustiva por
parte de pesquisadores. Também não ponderam que a ciência é um conjunto de varias áreas, e, sendo assim, um acadêmico com formação em astrofísica não tem habilidades práticas para estudar técnicas modernas de cura de doenças complexas, e vice-versa (no sentido da ciência formal: pesquisar, resolver problemas e publicar trabalhos. Isso não significa que ele não possa ser bem informado e ainda ter opiniões que possam ajudar outras áreas. Exemplo dessa incrível versatilidade foi Erwin Schrödinger, que, sendo físico teórico, formulou hipóteses que anos mais tarde ajudariam na descoberta da estrutura do DNA). Já os defensores da segunda afirmação desconhecem o mecanismo da metodologia científica, que, por definição, não se preocupa com a atuação divina.
Muitas vezes algumas pessoas atacam as pesquisas científicas através do argumento financeiro. Não reconhecem, entretanto, que as verbas destinadas a esta atividade não são elevadas. O país que mais investe seu PIB em ciência é a Suécia, e o valor não chega a 4%, sendo que menos de 25% dessa quantia é custeada pelo governo; o restante é financiado por empresas privadas (1). No Brasil a situação é ainda mais dramática; em 2010 o nosso país investiu menos de 1,2% de seu PIB em ciência e tecnologia (2).
Uma interessante comparação pode ser feita com o investimento bélico. Por exemplo, na guerra do Iraque, os Estados Unidos tiveram um gasto mensal de mais de 11 bilhões de dólares (3); além disso, para conduzir a guerra, o mínimo estimado, em média, por mês, foi de 6 bilhões de dólares (4). O telescópio James Webb, sucessor do Hubble, foi estimado em 8,7 bilhões dólares (5). Em outras palavras, um mês de investimento em guerra é quase o suficiente para pagar um dos projetos científicos mais ambiciosos na história da astronomia. Sem entrar no mérito da agenda política dos governos, parece que a questão não é tanto o pouco dinheiro, mas sim como é realizada essa distribuição. O argumento, dito por muitos, que projetos como esse são um desperdício, uma vez que o mundo ainda tem severos problemas, como a fome, acaba perdendo forças. Nesse sentido, a guerra é um dos grandes agentes causadores da fome do planeta (6), e não o investimento em ciência e tecnologia. Ademais, atualmente o gasto global com despesas militares é 55 vezes maior que o gasto com as despesas dos programas espaciais de todos os países do mundo (7). Assim, nota-se que não estamos investindo quantias absurdas em desenvolvimento científico. Read more…