Arquivo para a categoria 'Periódico Bule'

Sistema imune e os micróbios, uma questão de pele.

Autor: Rodrigo Véras

Nós, seres humanos, geralmente nos vemos como indivíduos relativamente isolados do resto da natureza, mas levamos a natureza dentro de nós em um sentido bem literal. Somos na realidade uma grande comunidade de seres vivos cujos limites nem sempre são muito claros. A compreensão de nosso sistema imune e de muitas doenças que o comprometem pode passar por aceitar essa fragmentação de nossa individualidade, o que pode nos trazer informações valiosas sobre doenças como a AIDS.

UResearchBlogging.orgm time de investigadores relatou em um artigo da revista Nature Medicine [1] uma interação tripla que envolve o sistema imunológico, bactérias comensais, que vivem em nossos intestinos, e células do epitélio intestinal que parecem ser essenciais para a função intestinal normal. O estudo tem como autores principais o casal de imunologistas Natalia Shulzhenko e Andrey Morgun [2] e, como autora sênior, a imunologista teórica Polly Matzinger (uma das proponentes do modelo de resposta imune por ativação de sinais de perigo*), líder da Seção de Tolerância e Memória de células T do laboratório de Imunologia Celular e Molecular do National Institute of Allergy and Infectious Diseases (NIAID), apelidado de “Ghost lab”. Os pesquisadores descobriram que quando as células imunes estão ausentes ou não funcionando, as células epiteliais intestinais adotam uma postura defensiva em relação a microbiota residente a despeito da atividade normal do epitélio de absorção de gordura [1,2]. Read more…

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Em defesa da ciência e tecnologia: O porquê de investir em certas pesquisas.

Autor: Cícero Escobar

A ciência não é, seguramente, uma panaceia. Por outro lado, tão pouco é indiferente para com as necessidades humanas. Entretanto, em algumas áreas de pesquisa, sobretudo aquelas com menor consequência prática em curto prazo, críticas seguidas são feitas que concernem à necessidade real de investir tempo e dinheiro.

Argumentos rasteiros do tipo “o que querem esses cientistas estudando Marte? Temos problemas muito piores como o câncer para serem estudados”, ou “eles estão querendo brincar de Deus, devemos impedir investimentos com essas pesquisas”, são comuns de serem encontrados. No primeiro caso, a sentença é notavelmente falaciosa ao ignorar que a pesquisa do câncer recebe atenção exaustiva porparte de pesquisadores. Também não ponderam que a ciência é um conjunto de varias áreas, e, sendo assim, um acadêmico com formação em astrofísica não tem habilidades práticas para estudar técnicas modernas de cura de doenças complexas, e vice-versa (no sentido da ciência formal: pesquisar, resolver problemas e publicar trabalhos. Isso não significa que ele não possa ser bem informado e ainda ter opiniões que possam ajudar outras áreas. Exemplo dessa incrível versatilidade foi Erwin Schrödinger, que, sendo físico teórico, formulou hipóteses que anos mais tarde ajudariam na descoberta da estrutura do DNA). Já os defensores da segunda afirmação desconhecem o mecanismo da metodologia científica, que, por definição, não se preocupa com a atuação divina.

Muitas vezes algumas pessoas atacam as pesquisas científicas através do argumento financeiro. Não reconhecem, entretanto, que as verbas destinadas a esta atividade não são elevadas. O país que mais investe seu PIB em ciência é a Suécia, e o valor não chega a 4%, sendo que menos de 25% dessa quantia é custeada pelo governo; o restante é financiado por empresas privadas (1). No Brasil a situação é ainda mais dramática; em 2010 o nosso país investiu menos de 1,2% de seu PIB em ciência e tecnologia (2).

Uma interessante comparação pode ser feita com o investimento bélico. Por exemplo, na guerra do Iraque, os Estados Unidos tiveram um gasto mensal de mais de 11 bilhões de dólares (3); além disso, para conduzir a guerra, o mínimo estimado, em média, por mês, foi de 6 bilhões de dólares (4). O telescópio James Webb, sucessor do Hubble, foi estimado em 8,7 bilhões dólares (5). Em outras palavras, um mês de investimento em guerra é quase o suficiente para pagar um dos projetos científicos mais ambiciosos na história da astronomia. Sem entrar no mérito da agenda política dos governos, parece que a questão não é tanto o pouco dinheiro, mas sim como é realizada essa distribuição. O argumento, dito por muitos, que projetos como esse são um desperdício, uma vez que o mundo ainda tem severos problemas, como a fome, acaba perdendo forças. Nesse sentido, a guerra é um dos grandes agentes causadores da fome do planeta (6), e não o investimento em ciência e tecnologia. Ademais, atualmente o gasto global com despesas militares é 55 vezes maior que o gasto com as despesas dos programas espaciais de todos os países do mundo (7). Assim, nota-se que não estamos investindo quantias absurdas em desenvolvimento científico. Read more…

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Variabilidade genética, evolução humana e partos prematuros

Autor: Rodrigo Véras

A coordenação entre a maturação fetal e o tempo de nascimento é um processo crucial no desenvolvimento e reprodução dos mamíferos, e nós seres humanos não somos exceção – algo que pode ser ilustrado pelo impacto dos partos prematuros na saúde coletiva [1]. O nascimento prematuro, em nossa espécie, é a principal causa de morte e morbidade neonatal grave. A maioria dos nascimentos prematuros ocorrem através do início espontâneo do trabalho de parto sem causa conhecida e até hoje não há nenhuma estratégia de prevenção eficaz, com cerca de 10% dos nascimentos nos Estados Unidos, por exemplo, ocorrendo antes da 37a semana [1,2].

Várias pesquisas ao longo das últimas décadas mostram que tanto o genoma materno quanto o fetal influenciam a predisposição para o parto prematuro espontâneo (SPTB), como a constatação de que o parto prematuro anterior aumenta o risco em três vezes nas gestações subsequentes; mas nenhum gene responsável por tal susceptibilidade foi identificado até o momento [2].

Em uma perspectiva mais ampla, podemos rastrear algumas dessas causas no próprio processo de evolução humana, algo facilmente ilustrado pelas nossas diferenças em relação a outros primatas e mamíferos, que deixa claro que os seres humanos têm cabeças relativamente grandes, especialmente se comparados aos canais estreitos de nascimento. Por exemplo, apesar dos seres humanos terem, ao nascer, cérebros de tamanho equivalente em termos absolutos, do que os de outros primatas sem cauda (que, por sinal, têm também cérebros maiores que os demais mamíferos como um todo), quando consideramos (e controlamos para*) o tamanho corporal e a duração da gestação, os cérebros dos seres humanos, no momento do nascimento, são maiores do que todos os outros mamíferos e primatas não-humanos que, por sua vez, possuem gestações maiores em relação ao de outros mamíferos, incluindo os seres humanos [1,3]. A razão entre duração da gestação e o tamanho do cérebro neonatal para os seres humanos corresponde à apenas 69% da razão apresentada pelos gorilas e apenas 45% da mesma razão encontrada nos chimpanzés, enquanto a razão entre a duração da gestação e o tamanho corporal neonatal humana é 49% da razão apresentada nos gorilas e 50% da exibida pelos chimpanzés, como pode ser observado no gráfico ao lado [1]. Esses resultados são importantes por que, como Khan chama a atenção [3], quando são encontradas características que destoam das expectativas de uma filogenia, isso pode querer dizer que a seleção natural está em ação, na medida em que os caracteres da linhagem divergiram de seu padrão ancestral, o que por si só merece atenção. Read more…

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Um genoma da peste

Autor: Eli Vieira

Quando se fala em  peste negra, lembro aquela cena final do filme O Sétimo Selo (Ingmar Bergman, 1957) em que os personagens dançam de mãos dadas com a morte numa espécie de zombaria existencial, algo lírica, ao horror pela facilidade e volume com que vidas humanas eram sopradas na Idade Media europeia, espaço-tempo que ambienta o filme. Entre fogueiras santas e guerras, a natureza também não mostrava clemência, apresentando à humanidade a terrível peste negra (também conhecida como peste bubônica).

A praga, que ceifou a população da Europa em dezenas de milhões e a reduziu em 30-50% num período de cinco anos, atingiu seu pico de matança entre 1348 e 1350.

A culpada pela ciência como causa da pandemia tem sido há décadas a bactéria Yersinia pestis, inquilina das pulgas dos nossos inseparáveis roedores; e uma investigação tanto historiográfica quanto biomédica tem tentado nos levar àquela sabedoria de entender os monstros do passado para evitar seu reaparecimento no futuro.

Foi de restos das vítimas desse passado de 1348 a 1350 que cientistas do Canadá, Estados Unidos e Alemanha retiraram amostras mumificadas de Yersinia pestis para aplicar a ferramenta do momento: a análise de toda a sequência de DNA da bactéria. Os pesquisadores acabaram de publicar um artigo a respeito na revista científica Nature. As amostras foram retiradas de dentes de um cemitério para vítimas da peste negra, em East Smithfield (leste de Londres), que morreram em meados de 1348 e começo de 1349. Read more…

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Ciência e inferência. Parte II: Popper e a tese do holismo.

Autor: Rodrigo Véras

A tentativa de escapar do dilema Humeano perpetrada por Popper – ao encarar a inferência científica como um processo hipotético-dedutivo falsificacionista – parece não ter surtido o efeito esperado. Os críticos muito rapidamente perceberam que esta abordagem destoava de boa parte das práticas dos cientistas. As aspirações normativas do modelo Popperiano de oferecer um critério de demarcação capaz de diferenciar a ciência da pseudociência, de maneira clara e simples, também não prosperaram, ainda que a refutabilidade de uma hipótese possa ser um guia útil em muitas situações, como estratégia preliminar na prática demarcatória.

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Ciência e inferência. Parte I: A dúvida de Hume e a solução de Popper.

Autor: Rodrigo Véras

Ao imaginar um cientista, muitos ainda devem visualizar um indivíduo que coleta várias dados e faz muitas observações, às vezes ao longo de uma vida inteira, e a partir delas obtém leis gerais sobre algum fenômeno. No cerne desse procedimento está uma forma de inferência de extrema importância, a indução. De uma maneira bem simples, quase caricata, na indução se parte de observações ou casos isolados e se chega à generalizações. Dependemos, o tempo todo, em nosso dia a dia, deste tipo de raciocínio. Ao valermo-nos dele, empregando-o intuitivamente, acreditamos que algo que deu certo antes dará certo de novo, que o dia se seguirá à noite e que efeitos se seguirão às causas. Porém, pelo menos desde Hume, existem pensadores que acreditam que há algo de pernicioso em relação à indução. Algo de intrinsecamente irracional estaria oculto por trás desta inocente forma de inferência, e acabaria por contaminar todos nossos esforços em busca de conhecimento e nem mesmo as ciências estariam imunes. Read more…

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Entre a acomodação e a predição: Duas maneiras de se testarem hipóteses

Autor: Rodrigo Véras

Qualquer um interessado em saber se uma ideia está correta deveria, pelo menos, tentar confrontá-la com a realidade. Os cientistas empregam esta estratégia de maneira sistemática através de duas formas básicas:

  1. Deduzir consequências a partir das hipóteses, determinando possíveis resultados empíricos e, só então, procurando evidências através de observações ou experimentos;

  2. Comparar as consequências destas ideias com fatos já conhecidos – por exemplo resultados de investigações anteriores – e verificar sua adequação aos mesmos. Em muitos casos as hipóteses são constantemente ajustadas para dar conta de dados novos ou discrepantes.

Porém, este segundo modo é considerado inferior a primeira forma no que configura a chamada “tese da vantagem” (TdV). Mas o que exatamente tornaria a primeira abordagem preferível à segunda?

Peter Lipton (1954-2007) publicou na prestigiada revista Science, uma interessante reflexão sobre o assunto [1], ressaltando, entretanto, que “acomodação” e “previsão” não precisam excluir-se mutuamente. A maioria das grandes teorias bem sucedidas possuem elementos de ambas. Entretanto, pode ser muito difícil estabelecer argumentos satisfatórios que apóiem a visão de que predições seriam sempre preferíveis. Ainda assim, parece haver um acordo tácito que as predições são mais desejáveis e poderosas do que as acomodações. Veja o caso de Halley e a passagem do cometa que viria a levar seu nome [1]. Read more…

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Quem precisa de um “ajustador”?

Autor: Alex Rodrigues

Se pararmos um pouco para pensar, muitos de nós podem chegar à conclusão de que as leis da física e suas constantes parecem finamente ajustadas para que o Universo seja como é, e em especial para que nossa existência seja possível. Porém, como citou Carlos Orsi em um texto de 02/02/2011: “Não é o Universo que é ajustado para nós, nós é que somos ajustados para ele”).

Tendo em vista essa incrível excepcionalidade, muitos se voltam para a crença em um “Ajustador Fino” (“Fine Tuner”), que teria determinado todas as características do Universo, de forma a poder existir como existe e, além disso, permitir que em um planeta rochoso orbitando uma pequena estrela na periferia de uma Galáxia comum, a vida surgisse. O conhecido Dinesh D’Souza é um deles (veja no início deste vídeo, e claro veja também a resposta de Christopher Hitchens).

Mas será que as características únicas de nosso Universo são realmente tão excepcionais e necessárias para o surgimento da vida?

Estudos de Alejandro Jenkins e Gilad Perez [1] indicam que talvez não. Esses autores desenvolveram modelos de valores alternativos para algumas constantes físicas diferentes das nossas, os quais poderiam levar a universos com propriedades interessantes, inclusive a capacidade de sustentar a vida.

Tomemos como exemplo a força nuclear fraca. Essa força desempenhou em nosso Universo primordial um papel importantíssimo, pois ela é, dentre outras coisas, responsável por permitir as reações que transformam um nêutron em um próton e vice-versa. Essas reações servem de base para que a fusão nuclear ocorra nas estrelas (fusão de 4 prótons, ou núcleos de hidrogênio, com posterior transformação de 2 desses prótons em nêutrons, e conseqüente formação de Hélio-4 com liberação de energia), com a posterior síntese de outros elementos mais pesados no fim da vida estelar (e dispersão destes por meio de explosões de supernovas), e a possibilidade de existência de planetas rochosos orbitando estrelas médias a uma distância segura para o surgimento da vida. Read more…

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O que é e para que serve um experimento?

Autor: André Rabelo

Quando ouvimos as conclusões impressionantes que os cientistas são capazes de chegar a partir de suas pesquisas, podemos nos perguntar sobre como eles são capazes de descobrir tantas coisas a partir de tão pouco – como estudos aparentemente tão simples nos permitem chegar à conclusões tão precisas. É com grande frequência que o método experimental será apontado como um dos grandes pilares responsáveis pelo sucesso da ciência em compreender o universo. Apesar de não ser nem um método perfeito nem o único disponível para os cientistas, além de não conseguir nos dar todas as respostas e explicações que gostaríamos, sua utilidade e supremacia são de difícil contestação.

De forma simples, o método experimental consiste na modificação de uma variável (variável independente) e na averiguação do efeito que pode ser atribuido à essa modificação por meio de uma medida (variável dependente). Uma variável independente é qualquer coisa que possa ser variada em um estudo e que o pesquisador julgue ter relação causal sobre outra variável mensurada; uma causa é aquilo que se julga responsável por um efeito observado sobre outra variável; um efeito é a diferença entre o que aconteceu em um experimento e o que teria acontecido hipoteticamente caso a manipulação não tivesse sido feita [1].

SELO: a xícara no anel aromático, também conhecido como "Benzeno o Chá"Em grande parte dos fenômenos que os cientistas estudam, o número de causas envolvidas é muito grande, sendo raros os casos em que podemos falar “da causa” suprema de algo. Nesse sentido, muitas das relações causais discutidas e apresentadas por cientistas se referem à uma causalidade probabilística (tal variável aumenta a probabilidade de se observar tal efeito), e não à uma causalidade determinista (tal variável é necessária e suficiente para explicar tal efeito). É por isso que a previsibilidade é muito difícil em vários campos de pesquisa como a meteorologia, por exemplo.

Uma importante distinção a ser feita é entre descrições causais e explicações causais [1]: uma está relacionada à descrição das consequências que podemos atribuir às manipulações de variáveis, enquanto a outra está associada à explicação dos mecanismos e das condições nas quais uma relação causal se manterá. O método experimental é um dos mais úteis e mais valorizados na ciência pela sua capacidade de permitir a elaboração de descrições causais. Por outro lado, os experimentos em si muitas vezes não nos ajudam tanto na hora de desenvolvermos explicações causais. É ai que as teorias ganham tanta importância no empreendimento científico por permitirem a generalização dos resultados que obtemos em experimentos. Read more…

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Celulares e câncer – confrontando evidências com opiniões da OMS

Autor: Pedro Almeida

Afinal, telefones celulares causam câncer? Esta pergunta voltou aos holofotes como assunto controverso que sempre foi, quando a IARC (International Agency for Research on Cancer), parte da OMS, anunciou [1] que campos eletromagnéticos de radiofrequência passariam a constar no famigerado “Grupo 2B” da IARC, uma lista de agentes “possivelmente carcinogênicos para humanos” – uma compilação que, aliás, contém atualmente 266 outros itens [2] também possivelmente carcinogênicos – friso no “possivelmente”. SELO: a xícara no anel aromático, também conhecido como "Benzeno o Chá"

Esta notícia causou alarme, pois na tal lista do Grupo 2B constam agentes nada simpáticos, tais quais o clorofórmio, o já banido inseticida DDT, a mostarda de nitrogênio (similar ao gás mostarda, arma química poderosa) e o metal pesado chumbo. Só aí já dá pra sentir o drama do que significa constar nesta lista, não? Bem, na verdade não.

ResearchBlogging.orgOs supracitados agentes são ameaças à saúde humana não porque são comprovadamente causadores de câncer – clorofórmio e DDT são temidos por serem altamente tóxicos para humanos, enquanto mostardas de nitrogênio são citotóxicas e o chumbo é conhecido por causar problemas de desenvolvimento cerebral, especialmente em crianças.

Vale lembrar que a mesma lista do Grupo 2B inclui também como “agentes possivelmente carcinogênicos” o café, o uso perineal de talco, o risco ocupacional de ser um bombeiro e, pasmem… vegetais em conserva (picles) [2]. Na hora de alardear o risco de se usar telefone celular, bem, parece que a mídia prefere esquecer que o Grupo 2B contém estes itens e que o nome da própria lista é de agentes “possivelmente carcinogênicos” – novamente, friso no “possivelmente”.

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A Ciência do Erro e o Erro na Ciência

Autor: Rodrigo Véras

Se existe algo em que podemos realmente confiar é no fato de que nós, seres humanos, somos especialistas em nos enganar e cometer toda sorte de erros. Essa intuição básica que remonta pelo menos aos céticos antigos tem sido sistematicamente corroborada através de uma grande quantidade de estudos que mostram como nossas percepções, memória e julgamentos são pouco confiáveis. Muitas pesquisas em psicologia e neurociências têm ajudado a revelar estes vieses e tendências, além de revelar em que situações estamos mais propensos a errar. Trabalhos como os de Forer, capturados no dito de Barnum, “Para qualquer pessoa temos alguma coisa” sobre validação subjetiva, e as seminais contribuições de Amos Tversky e Daniel Kahneman [1] sobre heurísticas de decisão, a partir dos anos 70, tem nos ajudado a compreender melhor como erramos e por que erramos, o que nos permite criar maneiras mais eficientes de lidar com nossas limitações. Algumas das nossas limitações são que:

  • Subestimamos a probabilidade de certos eventos ;
  • Temos uma expectativa distorcida da aparência de sequências aleatórias , portanto, não as reconhecemos bem;
  • Somos enviesados em direção à confirmação do que já acreditamos;
  • Nossa memória é tremendamente falha;
  • Superestimamos frequentemente nossas próprias qualidades.

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Por que o Tempo Voa?

Autor: André Luzardo

Em discussões sobre a distinção entre ciência e pseudociência sou freqüentemente surpreendido pelo mesmo argumento: ciências sociais são fundamentalmente diferentes das outras ciências, fato que impossibilita o emprego de uma metodologia rigorosamente científica. Esse argumento é fruto da desinformação e, possivelmente, do pobre estado das ciências humanas no Brasil. Para tentar diminuir essa desinformação escolhi dedicar meu primeiro post no Periódico Bule para mostrar como fenômenos que a primeira vista parecem tão subjetivos revelam suas regras e leis quando investigados com o rigor da ciência. Um bom exemplo é minha própria área de pesquisa: percepção temporal.

A capacidade de discriminar eventos de diferentes durações é fundamental em diversas áreas da vida. Tanto em animais como em seres humanos, comportamentos dirigidos a objetivos, como a caça e a tomada de decisões dependem, em grande parte, da estimação correta do tempo na escala de segundos a minutos. Alguns vão ainda além e sugerem que a aprendizagem como um todo seria melhor explicada não em termos de associações estímulo-resposta mas simplesmente em termos da aprendizagem de intervalos temporais (Gallistel & Gibbon, 2000). Read more…

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Brancos acreditam ser mais vítimas de preconceito que negros. E nem é piada.

Autor: Eli Vieira

A ironia parece estar entranhada bem fundo na nossa natureza. Basta uma minoria se cansar de ser vilipendiada diariamente, que de repente é acusada de chafurdar em benesses e privilégios. E é aí que nasce a filosofia reacionária: a reação é, não por acaso, a bem conhecida reação infantil de acusar o outro de ser o que o acusador é. “É você o sanduíche de merda”, disse o sanduíche de merda do South Park.SELO: a xícara no anel aromático, também conhecido como "Benzeno o Chá"

Os psicólogos americanos Michael Norton e Samuel Sommers conduziram uma pesquisa com a intenção de avaliar como está o racismo nos EUA na era pós-Obama. Os Estados Unidos são uma sociedade altamente racializada, em que há políticas afirmativas há muito mais tempo do que no Brasil. Os pesquisadores pediram a cerca de 200 brancos e 200 negros para que dessem notas de 1 a 10 para a quantidade de preconceito que cada um dos dois grupos sofreram em cada década, de 1950 aos anos 2000. Read more…

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