Autor: Alessandro Vieira dos Reis*
Editora: Shirley Galdino
Há alguns meses me perguntaram via twitter o que eu achava do trabalho de uma psicologa chamada Marisa Lobo. Confessei nunca ter ouvido falar, e ela me foi apresentada pela seguinte descrição: “Ela usa da Psicologia Cristã e fala da cura de homossexuais”. Outro comentário me chamou a atenção: “Ela é uma versão feminina do pastor Silas Malafaia, que também é psicologo”. Curioso, fui checar do que se trata.
O conteúdo deste post é o resultado das minhas investigações sobre a obra de Marisa Lobo. No texto tratarei das bases teórico-metodológicas da chamada “Psicologia Cristã” e discutirei suas práticas, em especial quanto a ética e eficácia técnica da terapia para “cura da homossexualidade”. Nas considerações finais faço um alerta à comunidade científica relacionada à Psicologia no Brasil quanto à consolidação, por estas bandas, de uma nova modalidade de “Terapia Alternativa”.
Existe uma Psicologia Cristã?
Fiquei intrigado com a tal da Psicologia Cristã. Na minha graduação em Psicologia na UFSC cheguei a conhecer um grupo de cristãos evangélicos praticantes que se reunia uma vez por mês, numa espécie de sessão de terapia, para falar como manter a fé religiosa deles apesar do que aprendiam no curso de Psicologia. Através deles soube que nos EUA havia uma imensa demanda por aconselhamento pastoral, que pode ser descrito uma aplicação das práticas de Counseling em ambientes religiosos (especialmente igrejas evangélicas).
Tanto é que há naquele país pregadores famosos que falam a partir da Psicologia, como Roger Hurding, autor de “A Árvore da Cura” (Vida Nova,1995), que se trata de um manual de psicoterapia adaptada aos preceitos cristãos. O que muitas pessoas chamam de Psicologia Cristã não é um campo de conhecimentos distinto, bem delimitado, mas um conjunto difuso de aplicações dos conhecimentos da Psicologia em ambientes cristãos, filtrados por preceitos morais de uma comunidade específica.
Aliás o Brasil, sendo um país cada vez mais evangélico neopentecostal, possui uma grande e crescente demanda por serviços de psicoterapia e aconselhamento por e para membros de comunidades evangélicas. A psicologa cristã Marisa Lobo não é a única nesse mercado: é apenas a mais famosa, atualmente. E como veremos no final deste artigo, uma espécie de pioneira que tem tudo para ser amplamente imitada !
Psicoterapia para Curar Homossexualidade?
Quando lidamos com a colisão dessa assim chamada Psicologia Cristã (me parece que o mais correto seria falar em psicólogos cristãos), com movimentos sociais GLBT há uma série de assuntos que emerge rapidamente: a patologização, etiologia, tratamento e cura da homossexualidade. Colidem não apenas porque as relações entre mesmo sexo são tradadas ao mesmo tempo como psicopatologia e pecado espiritual, mas porque a instituição Igreja entra em confronto com a instituição Conselho Federal de Psicologia, cujas normativas profissionais estipulam que práticas homossexuais não são patológicas em si mesmas, não sendo cabível ao psicoterapeuta filiado ao Conselho igualar homossexualidade a transtorno psicológico.
Vejamos como se dá esse assunto, parte por parte, pelos assim chamados aqui “psicólogos cristãos”:
a) O interesse afetivo e sexual por pessoas do mesmo sexo é tratado como patologia por conta de preceitos bíblicos tais como este:
E, semelhantemente, também os homens, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para com os outros, homens com homens, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a recompensa que convinha ao seu erro. (Romanos 1:26-27)
Comportamentos homossexuais não são analisados contextualmente, mas taxados de anti-naturais e perversos em si mesmos. São entendidos como essencialmente pervertidos, e neste caso não se usa a perversão do linguajar psicanalítico, mas do bíblico, que equivale a diabólico.
b) A etiologia, que se trata do estudo das origens de uma doença, da homossexualidade costuma ser atribuída a famílias desestruturadas ou episódios traumáticos na infância, quando se trata de igrejas mais tradicionais, e a opressão espiritual demoníaca, em igrejas neopentecostais;
c) O tratamento costuma variar. Há desde campos e colégios internos onde o indivídio homossexual é isolado para ser ressociabilizado como hétero, passando por aconselhamento pastoral, até formas mais intensivas como a Reversion Therapy (Tratamentos bastante aversivos, que por vezes fazem uso de injeções de hormônios e até mesmo castração química);
d) Quanto a cura, partindo-se da ideia cristã da patologia (espiritual ou social), fala-se da conquista de duas possibilidades: o homossexual abandonar os hábitos que o prendiam nessa condição, adquirindo outros e tornando-se, presumivelmente, hetero por completo; o homossexual viver em celibato, tornando-se socialmente assexuado (modelo mais encontrado entre católicos tradicionais, mesmo entre seus sacerdotes com atração pelo mesmo sexo).

Ética e Eficácia da “Conversão” para a Heterossexualidade
O problema com a ideia da “cura” é que essa parte da premissa que a homossexualidade é um transtorno psiquiátrico, ou algum tipo de doença passível de ser isolada e tratada. O interesse sexual e afetivo por pessoas do mesmo sexo deixou de ser considerado patológico pela Medicina nos anos 1970. Em paralelo, pesquisas como a de Fritz Klein mostraram que a sexualidade não se reduz a sentir atração física, mas envolve afinidades afetivas, fantasias, hábitos sociais, estilo de vida etc., e que todos esses atributos são passíveis de constantes mudanças, adaptações. Ou seja, a sexualidade não é um item fácil de isolar, manipular e modificar, dada sua complexidade. Contudo, mudanças são possíveis e costumam ocorrer de forma espontânea. Em determinadas circunstâncias ou fases da vida desejos e comportamentos homossexuais podem ganhar força em pessoas que se dizem heteros. O inverso também é válido, isto é, pessoas que se julgam homossexuais serem surpreendidas por ímpetos heterossexuais.
O que as “terapias de conversão”, quase sempre promovidas por grupos religiosos, parecem conseguir em termos de “sucesso” é modificar aspectos públicos da sexualidade, como hábitos de vestir, identidade social, estilo de vida e afins, e incentivar o surgimento de fantasias, desejos e preferências emocionais por pessoas do sexo oposto. Isso, contudo, não parece eliminar completamente comportamentos relativos a homossexualidade (como sentir-se especialmente conectado afetiva e sexualmente a pessoas do mesmo sexo, ou com alguma frequência ter fantasias homoeróticas ou românticas com o mesmo sexo).
Sobre a efetividade da suposta “cura da homossexualidade”, vale a pena checar o célebre caso Kirk Murphy. Tratado pelo até hoje celebrado psicólogo cristão Dr. Rekers, que garantiu que o processo foi um grande sucesso, o rapaz nunca teve uma vida normal, segundo a própria família, vindo a se tornar um homem ansioso, inseguro e solitário. Kirk cometeu suicídio aos 38 anos. Para conhecer mais do caso, clique aqui.
A Psicologia Cristã de Marisa Lobo
Depois das considerações iniciais sobre a Psicologia Cristã e sobre o tratamento para homossexualidade promovido por essa, que nem chega a ser uma área da Psicologia propriamente dita, falarei agora sobre um exemplar específico dessa tendência. Falarei da Psicologia Cristã de Marisa Lobo, uma já famosa psicóloga tida por alguns como uma versão feminina do Pastor Silas Malafaia. Para isso consultei o site dela (http://www.psicologiacrista.com.br/), bem como diversos de seus artigos, notícias sobre a profissional, entrevistas.
Originalmente, Marisa Lobo parece ter feito carreira com o tratamento de drogadictos, ajudando-os a superar a mortal dependência de substâncias. Por esse trabalho ela foi bastante reconhecida e prestigiada por políticos, religiosos e outros líderes comunitários. Aliás, a psicóloga continua lidando com essa área, inclusive fazendo palestras regularmente em universidades sobre seu trabalho ajudando drogadictos. Sinceramente, essa parte do trabalho de Marisa Lobo até merece um elogio meu.
O que ocorre é que, em seguida começou a falar cada vez mais contra as práticas dos homossexuais e, num certo sentido, a tratá-los de forma equivalente a dependentes químicos: pessoas que precisam se libertar de maus hábitos e ser reinseridos na sociedade, em condições “normais”. Se bem que a própria Marisa Lobo afirma não fazer tratamento de homossexualidade em seu consultório, apesar dela mesma repetir que são casos patológicos que precisam de cura.
Depois de ler os textos presentes no site da psicóloga, o que mais me chamou a atenção inicialmente foi o que eu não encontrei lá. Eis minhas expectativas frustradas:
- Não há referências detalhadas a pesquisas científicas atuais sobre homossexualidade. Nem a favor e nem contra, ou mesmo neutras. Em uma de suas entrevistas Marisa faz breve menção a pesquisas, mas sem revelar quais são, suas referências, etc. Ela apenas diz vagamente: “Pesquisas dizem que…”, mas não costuma revelar quais pesquisas, feitas por quem, em que contexto, etc;
- Não há teorias filosóficas e/ou científicas sobre a personalidade, a motivação, a aprendizagem, os processos psíquicos, cognitivos, o comportamento, etc. Apesar desses assuntos serem pincelados, nenhuma explicação de como funcionam esses importantes princípios de toda Psicologia é exposta (O que deixa o site inteiro com um jeitão inconfundível de folk psychology);
- Não há materiais de outros psicólogos cristãos, como as sumidades dos EUA que também pregam os mesmos temas. Tudo parece ser pensado e escrito tão somente pela própria Marisa Lobo;
- Marisa se apresenta como psicóloga, mas não expõe seu número de registro no Conselho Regional de Psicologia. Presumo que pelas desavenças severas que ela tem com essa instituição, mas em todo caso o título profissional de psicologa está indelevelmente ligado a esse registro institucional;
Falemos agora do conteúdo do site dela.
Base Teórica
Em todo o site, encontrei apenas 3 referências a teóricos da Psicologia. Todos psicanalistas: Freud e Melanie Klein. Referências à Bíblia são inúmeras. Marisa Lobo faz uma Psicologia Cristã que pode ser descrita como pregação cristã com pitadinhas de psicanálise. As próprias citações de Freud e Klein não são literais, mas paráfrases vagas, do tipo “Freud certa vez disse mais ou menos assim…” (sem revelar em que livro está dito isso, e sem levar em conta desdobramentos do autor e seus seguidores sobre o assunto).
Todos os textos de Marisa Lobo deixam absolutamente claro que a base de sua Psicologia Cristã é mesmo a Bíblia, e não produção clássica ou atual da Psicologia. Uma certa mistura de bases teóricas parece ocorrer em seu artigo “Síndrome de Pinóquio”, onde a psicóloga oferece uma explicação que me soou bastante Comportamental ao hábito da mentira na criança (Misturando com preceitos bíblicos de como resolver o problema). Ou seja, de um lado Marisa cita Freud, por outro, aplica Skinner (de uma forma que me lembrou a Supernanny Cris Poli, que aliás também é uma cristã no mundo da Psicologia, se bem que esta não afirma fazer “Psicologia Cristã”.
Método
Não há muita descrição do método de Marisa Lobo para tratar homossexuais disponível na internet. Só ficamos sabendo que ela se especializou em Sexualidade, Dependência Química, Psicoterapia Breve e escreveu livros sobre educação infantil. Presume-se que o método de Marisa Lobo para tratamento de homossexualidade seja do tipo mais brando: sessões de aconselhamento. Também não ficamos sabendo ao certo se ela trata, pessoalmente, homossexuais ou apenas os encaminha para serem tratados em comunidades locais. Ela, contudo, afirma que não os trata pessoalmente, ao menos não no consultório.
Em seu site, Marisa cita como referência o “Método dos 12 Passos”, do Alcoólicos Anômicos [N. da E.: o Bule já publicou sobre a ineficácia do método do AA]. Isso reforça a sugestão dita anteriromente de que a psicóloga equipara homossexuais a drogadictos. Esse método, contudo, pouco tem de Ciência ou mesmo de Psicologia, uma vez que fundamenta-se em entregar o problema nas mãos de um deus pessoal. Autores como B. F. Skinner chegaram a escrever substitutos para os 12 passos. A tese principal de Marisa Lobo é que a sexualidade é escolha fruto do livre-arbítrio (que aliás, é um conceito teológico cristão e não científico). Por mais que vários determinantes nos levem a determinado desejo, a vivência da sexualidade no presente seria uma escolha pessoal, interior e completamente livre de cada um. Em algumas passagens ela diz que um homossexual pode escolher se tornar hétero. Mas em outras ela sugere que os não-héteros podem ou devem escolher abdicar da sexualidade, “sublimando” (termo psicanalítico) seus desejos através da fé em Jesus para que essa energia psíquica se converta em força para o trabalho, pra religião, pras artes etc. Ou seja, tornando-se pessoas assexuais.
Analisando a Obra de Marisa Lobo
Falando mais propriamente dos textos de Marisa Lobo, me chamou a atenção o estilo de intensa pregação religiosa. Com o título “Psicologia Pastoral” há um link em seu site que leva a diversos textos que são pura pregação bíblica. O próprio termo “psicologia pastoral” me pareceu um enigma.
Mesmo na sessão de Artigos, onde eu esperava encontrar publicações em Congressos e Revistas de Psicologia (até onde soube, pelo twitter dela, Marisa Lobo praticamente só vai em eventos evangélicos e publica em revistas cristãs), achei apenas ensaios repletos de citações da Bíblia. Em um deles, Marisa chama Jesus de “o divino psicólogo”. Em outro artigo, “A procura da verdade no processo terapêutico”, onde ela faz as únicas referências explícitas à Psicanálise no site, a conclusão parece associar a verdade curadora no processo terapêutico com a aceitação de Jesus como Senhor.
Além da crônica falta de referências e de argumentos que não sejam bíblicos, e do estilo de intensa pregação, seus textos parecem, ao menos para mim, um tanto confusos. Em diversas passagens vemos contradições lógicas. Por exemplo, em um artigo sobre como a Igreja deve tratar homossexuais, ela diz que Jesus não tolera quem não enxerga seus próprios erros, para em seguida, poucas linhas depois, dizer que Jesus tolera e ama a todos.
Claro que sempre é possível fazer diversas interpretações de um texto, mas as contradições e confusões persistem em diversos de seus escritos Especialmente no link “Psicologia Pastoral”, de onde destaco um trecho:
“A desgraça não acha, nem dá tempo para a graça. Isto é muito sem graça. Na verdade, não é possível achar graça na desgraça. Só os criadores da desgraça acham graça na desgraça”.
De fato, depois de ler Marisa Lobo é comum ficar com a impressão que diversos de seus textos deveriam ter passado por um revisor ortográfico e uma releitura seguida de edição.
Um texto de Marisa Lobo comentado
Resolvi analisar detalhadamente um texto de Marisa Lobo para expressar melhor o que quero dizer aqui sobre a qualidade da sua “Psicologia Cristã”. O objeto de estudo é um comentário que ela fez sobre a adoção crianças por um casais de mesmo sexo. Para ler o texto, publicado por um portal evangélico, clique aqui.
Antes de mais nada, algumas considerações estilísticas sobre o texto. São 638 palavras escritas em um único parágrafo, com sentenças de uma sintaxe confusa até por conta de uma pontuação falha. Isso sem falar nos erros de ortografia. A primeira frase do texto já possui um erro crasso: “Fico muito preocupada com crianças adotadas em idades inferiores há 6 anos…”
Fora esses problemas estruturais no texto, ele é todo cheio de raciocínios estranhos. Por exemplo, o que ela quis dizer com “os pais podem induzir na criança um comportamento homossexual sem que necessariamente a criança seja por estímulo oferecido causando assim um sofrimento grande em sua alma no futuro” (???). Para mim há uma falha que nem chega a ser teórica, mas simplesmente lógica, na construção da sentença.
Deixemos de lado esses aspectos sintáticos e falemos de semântica. O que significa esse texto de Marisa Lobo? Em resumo, ela diz que a criança poderá ser induzida a se tornar homossexual por pais homossexuais, e que isso lhe fará sofrer, pois o destino de homossexuais é sofrer (Sofrimento do qual ela seria poupada se tivesse pais héteros). Nota importante: me parece que a maior parte do sofrimento dos homossexuais não é intrínseco à sua sexualidade, mas decorrente de um ambiente social homofóbico e muito coercitivo. Esse detalhe, o da determinação social do sofrimento do homossexual, Marisa Lobo não explana.
Para sustentar a tese de que filhos adotivos de homossexuais se tornarão homossexuais, Marisa Lobo cita um pouco de Psicanálise: o Complexo de Édipo ainda está em formação até os 6 anos, idade em que “o sistema nervoso central ainda está em formação” (???), e que a “realidade psíquica” bem formada demanda um pai e uma mãe. Não sou psicanalista, mas me parece que formulações mais recentes e muito mais difundidas da Psicanálise, como a Lacaniana, superaram essa visão freudiana ortodoxa. Por outro lado há sim pesquisas não-psicanalíticas sobre o bem-estar de crianças adotadas por homossexuais. Pesquisas que Marisa Lobo parece ignorar (Se bem que ela nunca faz referências explícitas a pesquisas), e falam até do fato de que pais homossexuais, sejam gays ou lésbicas, tendem a ser mais atenciosos e dedicados aos filhos, uma vez que adoção tem um custo social tão grande que apenas os que realmente queriam ser pais conseguem o feito.
| A Defesa de Marisa Lobo |
Dia 9 de fevereiro Marisa Lobo foi convocada a se apresentar ao Conselho de Psicologia e prestar esclarecimentos sobre a acusação de que vende religião disfarçada de Psicologia. A própria Marisa Lobo comenta como foi o episódio neste link aqui. A base de sua defesa é que está apenas professando sua fé, sendo seu direito legal. Marisa Lobo alega que o Conselho exigiu que ela escolhesse entre sua religião e sua carreira como psicóloga (Me parece improvável que alguém tenha pedido para ela “negar a Jesus”, contudo).
Marisa Lobo não está apenas professando sua fé, como diz. Está fazendo uso de seu titulo de psicóloga para isso, ao ponto de defender que o que faz é “Psicologia Cristã”. Em outras palavras, disfarça uma ideologia religiosa de discurso científico. Esse é o ponto central da crítica (que ela entende como perseguição religiosa), à sua postura profissional. E mediante as regras (que Marisa Lobo conhece muito bem) do Código de Ética da profissão, fazer propaganda de si mesmo como “psicólogo cristão” é tão anti-ético quanto declarar-se “psicólogo petista”, “psicólogo kardecista”, “psicólogo liberal”, etc. Em resumo: a Psicologia não pode ser usada para legitimar e pretensamente endossar ideologias políticas, religiosas, filosóficas de seu profissional.
Considerações Finais
Como já pontuado anteriormente, vivemos hoje no Brasil um crescimento assombroso do cristianismo evangélico, em especial do neopentecostal. Nesse contexto, surge um mercado consumidor para um novo tipo de terapia alternativa, ao lado de tantas outras já existentes e igualmente não reconhecidas oficialmente por órgãos como o Conselho de Psicologia e o de Medicina: a psicoterapia cristã (cujo carro-chefe, atuamente, é a propaganda da pretensa “cura da homossexualidade”).
Como toda terapia alternativa, ao lado dos Florais de Bach, do Reiki, da Astrologia Clínica, etc, a Psicoterapia Cristã faz um pastiche teórico-metodológico da Psicologia com alguma espiritualidade mística e/ou religiosa. Como terapia alternativa explora o efeito placebo originário da fé do paciente. Pouquíssimo ou nada se baseia em Ciência. Seu diferencial diante das outras terapias alternativas é que a fé que neste caso é religiosa, reforçada por um aparato social poderoso (uma determinada comunidade cristã), e não uma fé mística individual (como é a das pessoas que crêem em Reiki ou cura por cristais).
Por conta desse mercado crescente, deduzo que será cada vez mais comum a presença de líderes religiosos em cursos de formação em psicoterapias breves, bem como a criação de cursos especialiados para membros dessa comunidade (como os já muito comuns, nos EUA, cursos de “aconselhamento pastoral”).
E eis aí um novo agente surgindo no cenário da Psicologia Brasileira, caros psicólogos e clientes de Psicologia. Em um Brasil que cada vez mais tem como grandes líderes pastores como Silas Malafaia (que também é psicólogo, notem!), Edir Macedo e Valdomiro Santiago, cada vez mais surgirá demanda e oferta de psicólogos cristãos. Marisa Lobo não é a primeira, mas é o protótipo e modelo teórico, metodológico e prático para muitos e muitas que estão por vir.
* Alessandro Vieira dos Reis é Analista do Comportamento e mantém o blog Olhar Beheca.
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