11 de setembro de 2001, por Sam Harris

Fonte: SamHarris.org
Autor: Sam Harris*
Tradução: Alê GM

Nova York, antes do 11 de setembro de 2001.

Ontem minha filha perguntou, “De onde vem a gravidade?”. Ela tem dois anos e meio. Eu poderia dizer muitas coisas a respeito disso – das quais a maioria ela não poderia possivelmente entender – mas a resposta profunda e honesta é “Não sei”.

E se eu tivesse dito, “A gravidade vem de Deus”? Isso seria meramente sufocar sua inteligência – e ensinar a ela a sufoca-la. E se eu tivesse dito, “A gravidade é a maneira de Deus de arrastar as pessoas para o inferno, onde elas queimam no fogo. E você queima lá para sempre se duvidar da existência de Deus”? Nenhum cristão ou muçulmano pode oferecer uma razão convincente de por que eu não deveria dizer tal coisa – ou algo moralmente equivalente – e ainda assim isso não seria nada menos que o abuso emocional e intelectual de uma criança. De fato, eu já ouvi relatos de milhares de pessoas que foram oprimidas dessa forma, desde o momento em que podiam falar, pelo fanatismo e ignorância aterrorizantes de seus pais.

Dez anos se passaram desde que muitos de nós sentimos pela primeira vez a sacudida da história – quando o segundo avião colidiu com a Torre Sul do World Trade Center. Sabíamos a partir daquele momento que as coisas poderiam sair terrivelmente erradas em nosso mundo – não porque a vida seja injusta, ou o progresso moral impossível, mas porque falhamos, geração após geração, em abolir os delírios de nossos ancestrais ignorantes. As piores dessas ideias continuam prosperando – e são ainda transmitidas, em sua forma mais pura, às crianças.

Qual é o sentido da vida? Qual é nosso propósito na Terra? Estas são algumas das grandes falsas questões da religião. Não precisamos responde-las – pois elas são mal formuladas – mas podemos viver nossas respostas mesmo assim. No mínimo, devemos criar condições para o florescimento humano nesta vida – a única vida da qual podemos ter certeza. Isso significa que não deveríamos apavorar nossas crianças com pensamentos de inferno, ou envenena-las com ódio a infiéis. Não deveríamos ensinar a nossos filhos a considerarem as mulheres sua propriedade futura, ou convencer nossas filhas de que elas são propriedade até mesmo agora. E devemos nos recusar a dizer a nossas crianças que a história humana iniciou-se com mágica e terminará com mágica sangrenta – talvez em breve, em uma guerra gloriosa entre os justos e o resto. Uma pessoa tem que ser religiosa para falhar com os jovens tão abismalmente – para degenera-los com medo, preconceito e superstição mesmo enquanto suas mentes estão se desenvolvendo – e uma pessoa não pode ser seriamente um cristão, muçulmano ou judeu sem faze-lo em alguma medida.

Tais pecados contra a razão e a compaixão não representam a totalidade da religião, é claro – mas elas jazem em seu âmago. Quanto ao resto – caridade, comunidade, ritual, e a vida contemplativa – não precisamos de nada da fé para abraçar estes bens. E é uma das mentiras mais danosas da religião insistir que precisamos.

Pessoas de fé recuam de observações como estas. Eles reflexivamente apontam para todo o bem que foi feito em nome de Deus e para os milhões de homens e mulheres devotos, mesmo dentro de sociedades muçulmanas conservadoras, que não fazem mal a ninguém. E insistem que pessoas em todos os pontos do espectro da crença e da descrença cometem atrocidades de tempos em tempos. Isso tudo é verdade, claro, e verdadeiramente irrelevante. Os bosques da fé estão agora estão rodeados por uma floresta de non sequiturs.

Independente do que mais esteja errado com o nosso mundo, permanece um fato que alguns dos exemplos mais aterradores de conflito humano e estupidez seriam impensáveis sem religião. E as outras ideologias que inspiram pessoas a comportarem-se como monstros – Stalinismo, fascismo etc. – são perigosos precisamente porque assemelham-se tanto a religiões. Sacrifício pelo Estimado Líder, não importa o quão secular, é um ato de conformidade de culto e veneração. Sempre que uma obsessão humana é canalizada nessas formas, podemos ver a estrutura ancestral sobre a qual toda religião foi construída. Em nossa ignorância, medo e desejo por ordem, criamos os deuses. E a ignorância, medo, e desejo os mantêm conosco.

O que defensores da religião não podem dizer é afirmar que qualquer pessoa endoidou, ou que uma sociedade tenha falhado, porque tornaram-se demasiadamente razoáveis, intelectualmente honestas, ou indispostas a serem delegadas pelo dogmatismo de seus vizinhos. Essa atitude cética, nascida de partes iguais de cuidado e curiosidade, é tudo que os “ateus” recomendam – e é típica de praticamente toda busca intelectual fora da teologia. É apenas quando o assunto é Deus, que temos pessoas inteligentes ainda podendo imaginar que colhem os frutos da inteligência humana mesmo quando estão arando por sobre eles.

Dez anos passaram-se desde que um grupo de, em sua maioria, homens educados de classe média decidiu obliterar a si mesmos, junto com três mil inocentes, para ganhar acesso a um Paraíso imaginário. Esse problema sempre foi mais profundo do que a ameaça do terrorismo – e nossa interminável “guerra contra o terror” não é resposta a ele. Sim, precisamos destruir a al Qaeda. Mas a humanidade tem um projeto maior – tornar-se sã. Se o 11 de setembro de 2001 deveria ter nos ensinado alguma coisa, é que devemos encontrar consolação honesta em nossa capacidade para o amor, criatividade e compreensão. Isso continua sendo possível. É também necessário. E as alternativas são desoladoras.

*Sam Harris é Ph.D. em neurociência pela Universidade da Califórnia e B.A. em filosofia pela Universidade de Stanford; co-fundador e CEO do Project Reason; autor de bestsellers listados no New York Times, traduzidos para mais de 15 idiomas, O Fim da Fé, Carta a Uma Nação Cristã e Relevo Moral.

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postado por Alê GM em Alê GM,Bule Traduz,Política,Religião
  • http://ramanavimana.blogspot.com/ Almir Ferreira

    Pode parecer que, quando Sam Harris critica a religião ele esteja falando apenas do fundamentalismo islâmico, mas eu tenho absoluta convicção de que ele também está se referindo ao absolutismo cristão dos Estados Unidos, tão perigoso quanto o dos talibãs. Pra se ter uma ideia, hoje, na maior democracia do mundo, numa república fundada nos valores laicos, Barack Obama leu um trecho dos Salmos Bíblicos num evento público. Isso mostra que os Estados Unidos estão andando uns 200 anos para trás na história.

    Grande abraço,

    Almir Ferreira
    Rama na Vimana

  • http://index.opsblog.org/ daniel

    Obrigado pela tradução.

  • BrightCapiXaba Netto

    Os EEUU treinaram Osama para “lutar contra o comunismo ateu” que invadira o Afeganistão e depois deixaram o país a mercê dos Talibans e ainda esperavam que estes ficassem agradecidos.
    Se arrependeram amargamente.
    Os Fatos não mudam: O 11 de Setembro teve a Religião como Responsável.
    E o restante do Mundo quer insistir que não foi.

  • André SP
  • Décio

    “Se o 11 de setembro de 2001 deveria ter nos ensinado alguma coisa, é que devemos encontrar consolação honesta em nossa capacidade para o amor, criatividade e compreensão. Isso continua sendo possível. É também necessário. E AS ALTERNATIVAS SÃO DESOLADORAS.”

    O texto de Harris é bom, a última frase é ótima.

  • Gabriel

    Excelente texto!

  • mariana

    eu nem conseguia pronunciar a palavra gravidade aos 2 anos e meio de idade.

  • André SP

    Para vc ver Mariana,
    o que é a evolução. Qual quer dia os bebes vão nascer teclando.