Vulnerável como um filósofo na savana: Plantinga tenta atacar ateísmo com evolução

Autor: Eli Vieira

O filósofo cristão Alvin Plantinga elaborou mais um argumento contra o naturalismo/materialismo ateu, porque parece que os anteriores não adiantaram. Ele alega que a teoria da evolução e o naturalismo são como “água e óleo”. Ele lembra, corretamente, que a maior parte dos cientistas atualmente é naturalista, inclusive os biólogos (“biólogos evolucionistas” é algo já meio pleonástico), mas parece que esses cientistas sofrem de algum mal cerebral terrível, por serem ao mesmo tempo evolucionistas e naturalistas, quando as duas posições são logicamente incompatíveis entre si, coisa que, obviamente, somente iluminados como Plantinga são capazes de enxergar.

Você pode ler tudo o que ele diz no blog Coletivo Ácido Cético. O filósofo parece imitar seu colega também cristão William Lane Craig, ao alegar que a maioria dos cientistas são irracionais. No caso de Craig, como mostrou o filósofo Michael Martin quase 15 anos atrás, a implicação lógica de sua epistemologia do Espírito Santo é que a maior parte da humanidade é irracional ao nível dos zumbis. Isso não impede, é claro, que Craig continue repetindo os mesmos argumentos até hoje. No caso de Plantinga, a implicação é que a maior parte dos cientistas é mais irracional que uma cobra comendo o próprio rabo.

O argumento de Plantinga pode ser resumido no exemplo que ele mesmo usou, do sapo que captura uma mosca. Em termos evolutivos, argumenta ele, é tão vantajoso evolutivamente (ou seja, adaptativo) que o sapo creia que a mosca seja mesmo uma mosca quanto que ele creia que a mosca é uma pílula capaz de transformá-lo num príncipe. O que interessa para a evolução é que o sapo que capturar a mosca terá vantagem em sobrevivência e reprodução. Se a seleção natural não enxerga a diferença entre crenças verdadeiras e falsas do sapo, também não enxerga a diferença entre crenças verdadeiras e falsas do nosso cérebro primata, tornando improvável que uma crença no naturalismo seja verdadeira, pois as nossas capacidades cerebrais teriam sido moldadas pela evolução de qualquer forma como estão, ainda que todas as nossas crenças fossem falsas (Plantinga até ensaia um cálculo de probabilidades, extremamente questionável, mas não vou me dar ao trabalho de atacar isso). Em poucas palavras, a evolução são sabe o que é a verdade, porque a verdade não interessa para as chances de sobrevivência e reprodução.

Para entender completamente a malandragem de Plantinga, alguns conceitos básicos em epistemologia são necessários. Não adianta atacar o filósofo por misturar crença com conhecimento: é tradição na filosofia ocidental tratar conhecimento como crença verdadeira e justificada, conceituação que foi dada ao conhecimento por Platão. Se a ciência leva ao conhecimento, isso significa em termos epistemológicos que a ciência tem uma forma especial de mostrar que as crenças científicas são justificadas e provadas verdadeiras de alguma forma.

Verdade e justificação são os dois pilares que fazem de uma crença em particular um conhecimento. Conhecimentos que usam um certo tipo de justificação são chamados de conhecimentos científicos, e o modo como esta justificação acontece é chamado de ciência. Muita gente alega que é um conjunto de regras pétreas, chamado “método científico”, o que garante a justificação e a verdade das crenças científicas – esta posição é uma posição ingênua, mas não é objetivo deste texto dizer o porquê. Para nossos propósitos, é suficiente lembrar que para saber como as crenças científicas podem ser ditas verdadeiras e justificadas, é necessária uma boa teoria filosófica para o que é verdade, e outra para o que é justificação.

Um foco maior foi dado pelos filósofos da ciência à teoria da justificação, tendo a teoria da verdade sido relegada a segundo plano por vários motivos, incluindo maior dificuldade. O famoso Karl Popper, por exemplo, criou um critério de demarcação baseado em refutações para justificar a confiabilidade da ciência.

Há diferentes teorias da verdade concorrentes na filosofia. As duas principais são a teoria correspondentista da verdade e a teoria coerentista da verdade. Grosso modo, a teoria correspondentista diz que será verdadeiro o que corresponder a certas dimensões fundamentais da experiência, como os dados experimentais ou informações sensoriais (um correspondentista famoso é Aristóteles, considerado o “primeiro cientista” por alguns); e a teoria coerentista diz que será verdadeiro o que for coerente com (ou seja, não contradizer) certas crenças fundamentais assumidas como verdadeiras.

Desnecessário dizer que cristãos como William Lane Craig e Alvin Plantinga são coerentistas, pois são dogmáticos e acham que a verdade fundamental está nas crenças contidas em parte ou em todo na Bíblia. Só será verdadeiro para eles o que for coerente com as crenças cristãs fundamentais.

Foi necessário explicar isso porque o texto de Plantinga atacando o naturalismo com base na teoria da evolução foi uma tentativa de disfarçar que Plantinga discorda do naturalismo em níveis fundamentais sobre o que é a verdade para começo de conversa. Não há dificuldade para o filósofo Daniel Dennett, por exemplo, em dizer que o ser humano evoluiu de modo a descobrir a verdade, porque a seleção natural favoreceu cérebros humanos que fossem capazes de abrigar crenças que correspondessem fielmente a um quadro de referência fundamental, que é o próprio ambiente que nos cerca e investigamos cientificamente hoje! Obviamente, este raciocínio de Dennett só faz sentido à luz de uma teoria correspondentista da verdade.

No meu blog pessoal Tetrapharmakos in Vitro, publiquei anos atrás uma cena de um documentário da BBC que mostra um caçador africano usando certos procedimentos para encontrar e abater um animal. Eu disse, numa introdução ao vídeo, que “um caçador na África, assim como um cientista” usa múltiplas hipóteses e descarta as que não funcionam pelo teste. O caçador é da tribo San, a técnica de “caça de persistência” que ele usa é considerada a mais antiga em caça, e coincidentemente esta tribo está entre as mais próximas do tronco de ascendência genética entre todos os humanos vivos. Confira a belíssima cena abaixo.

Entender corretamente minha interpretação da caça de persistência como um pensamento legitimamente científico tem duas utilidades.

A primeira é que refuta o argumento de Plantinga, na medida em que ajuda a reforçar a noção correspondentista da verdade, e a apontar que, se o povo San pode ser tomado como amostra da humanidade de milênios atrás (e em alguns sentidos pode), nós temos habilidades mentais naturais para distinguir entre hipóteses funcionais e não funcionais tendo em mente certos propósitos para os quais concebemos nossas teorias científicas (ou novas crenças). Com a palavra “funcional” e o verbo “funcionar”, estou fazendo referência à teoria da ciência de Thomas Kuhn, segundo o qual o progresso em ciência se dá pela resolução de problemas, e novas teorias devem solucionar todos os problemas solucionados por teorias antigas além de novos problemas que as últimas não resolviam. Sendo Thomas Kuhn um confesso anti-realista (vide posfácio à segunda edição de seu magnum opus), estou isento de acusações de estar apenas me aferrando ao naturalismo ou realismo científico, posições metafísicas às quais de fato me subscrevo.

A seleção natural favoreceu a sobrevivência e reprodução de mentes com melhor capacidade de descobrir a verdade, especialmente em situações em que a crença está diretamente ligada à sobrevivência, como a caça. Ainda que abandonemos a noção correspondentista da verdade, a noção coerentista serve para mostrar exatamente a mesma coisa: a seleção natural favorecerá mentes que tenham a necessidade da caça como crença fundamental, e que tenham instrumentos para gerar novas crenças coerentes com esta crença fundamental, mantendo intacta a linha da verdade quando saber a verdade é um pré-requisito para sobreviver e gerar mais filhos.

Em questões não tão acopladas à sobrevivência, como por exemplo elaborar teorias que valham para todos os contextos possíveis, de fato a evolução dotou mais pobremente nossas mentes e cérebros individualmente… e é por isso que existe tanta gente acreditando em absurdos, como por exemplo o absurdo cristianismo de Alvin Plantinga, que ele aparentemente é tão incapaz de sustentar argumentativamente que baseia seus textos direcionados ao grande público mais no ataque aos ateus do que na defesa de suas próprias crenças.

Outra razão pela qual o argumento de Plantinga é ingênuo é que os biólogos sabem muito bem, especialmente desde a crítica de Stephen Jay Gould e Richard Lewontin em 1979 (mas Darwin já sabia disso) que a seleção natural não é o único mecanismo da evolução, e achar que toda característica, inclusive da mente humana, deve ser uma adaptação é uma posição refutada chamada de “pan-adaptacionismo”. A capacidade de encontrar a verdade poderia muito bem ser fruto de processos naturais outros que não a seleção natural, como o são todos os comportamentos de origem puramente cultural.

Outra utilidade de entender a relação entre justificação científica e práticas funcionais como a caça é que se expõe o argumento de Plantinga pelo que ele é: uma defesa intransigente do coerentismo dogmático, mesclado a um apelo ao estilo “Deus das lacunas”, por estar fundamentado na presente grande ignorância da ciência sobre como o cérebro é capaz de produzir crenças (estando estabelecido, por outro lado, que embora os detalhes sejam largamente desconhecidos, não se pode disputar mais que o cérebro de fato é a ‘morada’ natural das crenças, e não espíritos fantasmagóricos indetectáveis que nada mais são que hipóteses pouco parcimoniosas).

O argumento “evolucionista” de Plantinga contra o ateísmo de posição metafísica naturalista (posição metafísica por vezes descrita como naturalismo, materialismo,  fisicalismo ou realismo) não sobrevive à luz da teoria correspondentista da verdade, que como o Bule Voador já informou é a mais popular entre filósofos. Não sobrevive à luz da filosofia da ciência, ainda que seja filosofia não-realista, como mostrei. E não sobrevive, acima de tudo, à luz de uma justa interpretação teológica da teoria da evolução, o que já fiz no texto “Opiniões, Mentes e Peixes“.

A vulnerabilidade do argumento de Plantinga ao conhecimento é até maior que a do próprio filósofo se ele tivesse que viver da caça no meio da savana africana.

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postado por Eli Vieira em Bule Acadêmico,Ciência,Crítica,Eli Vieira,Evolução,Filosofia,Mente/Cérebro,Reflexões,Secularismo
  • ejedelmal

    Mas para comprovar se uma crença é verdadeira ou não basta testá-la. Se a crença estiver incorreta, o animal é penalizado, o que fará perder a crença.

    Há de se notar também que o que é verdade agora pode não mais ser depois. O que parece um peixinho apetitoso pode muito bem ser a língua de um peixe caçador maior. A realidade objetiva vai além de um mero conceito de verdadeiro-falso. Aliás, como mostra a história, a realidade objetiva parece divertir-se deixando a ciência ligeiramente ocasionalmente defasada — talvez por isso não exista nada sagrado na ciência.

    Há de se fazer duas observações. Animais não tem esperança a fundo perdido: um cachorro tem esperança que o dono chegue logo para ter alimento, diversão e carinho, não por causa da vida eterna. E um cético não é um pessimista reducionista, ele padece do mesmo mal do cientista de querer comprovar uma teoria, é apenas um pouco mais criterioso. Assim sendo, o ceticismo não impediria a evolução, na verdade a apoiaria selecionando os indivíduos que sobrevivem à suas escolhas.

    Por fim, talvez por incapacidade minha, não consegui notar onde se encaixa a Ideia Absoluta de Hegel nessa história, já que o idealismo seria a forma de conseguir encaixar religião no argumento. Não vi a necessidade de nenhum ser superior.

  • Pena Ajena

    Belo texto, Eli. Parabéns. Gostaria de fazer algumas observações, se não se importa.

    1) Embora eu concorde com o argumento de que

    “Se a seleção natural não enxerga a diferença entre crenças verdadeiras e falsas do sapo, também não enxerga a diferença entre crenças verdadeiras e falsas do nosso cérebro primata, tornando improvável que uma crença no naturalismo seja verdadeira”

    é bom lembrar que o mesmo reciocínio deve valer para as crenças do próprio Plantinga.

    2) O vídeo da caça, a meu ver, mostra tão somente comportamento inteligente. Animais em caça também possuem táticas elaboradas, trabalhoem grupo, inteligência.

    3) Entendo que a questão fundamental remete-se à oposição entre Naturalismo e Sobrenaturalismo. Neste ponto, reconheço que ambas têm o mesmo valor ontológico e que assumem a condição de pressupostos dominantes, a nortearem nossas experiências cotidianas.

    4) O erro de Platinga, a meu ver, é considerar que Naturalismo e o Evolucionismo são incompatíveis. Isto levaria à conclusão de que Sobrenaturalismo e Evolucionismo também o são, pelos mesmo motivos. Talvez o objetivo seja este: atirar o Evolucionismo à um limbo metafísico.

    5) A considerar o mesmo reciocínio, o próprio Criacionismo ou o Design Inteligente sofreriam de mal semelhante: são produtos de um erro inato de julgamento sobre o que é verdadeiro ou não.

    6) Para o sossego de Platinga, resta o consolo de que Deus não é objeto de estudo da Ciência. As afirmações sobre a existência (ou não) de Deus, são inferências realizadas a partir do conhecimento científico.

    7) Tais inferências, embora assumam o valor de verdade justificada para nós, jamais abalarão a visão coerentistas dos crentes.

    8) E para o desassossego de Platinga, resta a informação de que Deus – como elemento explicativo da realidade – está sendo varrido para lacunas cada vez menores. Agora, deu de morar no rabo das bactérias.

    Forte abraço!

  • Henk van der Luit.

    This Alvin Plantinga is a typical product of Calvinistic indoctrination in the north of the Netherlands at the end of the ninteteenth century.
    The Calvinists, and even more the Mennonites where very well aware of the power of Darwins evolutionary theory, which became more and more popular within the not Roman Catholic part of Dutch rational population.
    The Calvinists very well aware of loosing quikly power in the near future and tried (and still try) to merge the evolutionary theory with Calvistic dogma. This of course to keep power and influence in the world upright as long as posible.
    The result of this merge can be called intelligent design.
    Every well thinking human being can understand that the product of rational thinking (The evolutionary theory) and irrational thinking. ( Calvinistic dogma) are not compatible.
    The disapearance of the phylosophy as emitted by an individual like Plantinga is just a matter of time.

  • Shartet A

    Sapos comem moscas porque todas outras variações de sapos que se alimentavam de pílulas mágicas morreram de fome. Só sapos que conseguem perceber o que é uma mosca sobreviveram.

    Entretanto há pessoas que acreditam que príncipes são resultado de sapos que comeram pílulas mágicas. Tais pessoas só sobrevivem graças à solidariedade alheia. Há um termo pra isso.

  • http://canecaorbital.blogspot.com Rodrigo Souza, a.k.a. Sargento

    Filosofia é a ciência que visa identificar visualmente folículos capilares em embriões de animais alados passariformes.

    Acho questionável se a proporção utilidade x inutilidade de todo o campo do conhecimento vale o tempo que se investe nela. Enfim…

  • http://hudsonlacerda.webs.com Hudson Lacerda

    O naturalismo é apenas uma crença, tal como deus?

    Naturalismo é excluir deuses a priori, como Plantinga afirma, ou é constatar que colocar deuses em hipóteses não ajuda em nada?

    O argumento do Plantinga só faz algum sentido se ele for criacionista, e talvez solipsista… Ele tem a máquina mágica de autenticar crenças? Como ele sabe se essa máquina funciona?

    Pois crenças sempre podem ser verdadeiras ou falsas, nunca há certeza absoluta ou garantia total — exceto na cabeça de quem se considera igual a um deus onisciente.

  • Pena Ajena

    Hudson

    Vou responder e se o Eli quiser, depois responde também.

    O Naturalismo é um princípio metafísico sobre o qual se assenta a ciência. Este princípio reza que tudo o que existe é natural, ou seja, está sujeito a causas e leis naturais.

    Divide-se em Naturalismo Ontológico, Epistemológico e Metodológico.

    Logo, o naturalismo exclui deuses a priori e por isso não os considera como hipótese explicativa da realidade.

    Um abraço

  • Avelino de Almeida Bego

    Interessante, e os animais que, por força da Seleção Natural, morreram por não se adaptarem à mesma?

    Não é uma questão de fé, de acreditar no sobrenatural.

  • http://livioribeiro@posterous.com Livio Ribeiro

    “Filosofia é a ciência que visa identificar visualmente folículos capilares em embriões de animais alados passariformes.”

    ganhei meu dia!

  • http://www.elivieira.com Eli Vieira

    Rodrigo,

    pela própria exposição do tipo de problema importante que só se trata com filosofia neste post, acho seu chiste incompreensível, a não ser que você não tenha lido o post. É uma opinião preconceituosa e desinformada sobre filosofia.

    Plantinga não deve ser tomado como exemplo de como se faz filosofia de qualidade.

  • Homero

    Plantinga é um tanto patético, para mim. Sua tentativa de fazer filosofia cristã esbarra em tantos problemas, que acho espantoso que tenha tanta visibilidade, algo que só pode ser explicado pela necessidade de crer, e pela atração que ler algo que nos “agrada” causa em nossas mentes.

    Algo como “ele diz que tenho razão em crer, então o que ele diz deve ser verdade, embora não faça sentido”. E como todo bom filósofo “religioso”, ele envolve sua verdade em tanto palavratório, tergiversação, e non sequiturs disfarçados, que as pessoas acabam não entendendo bem o núcleo e a estrutura da argumentação, e se focam nas “conclusões” que os agradam.

    Aqui tem um bom texto de análise das falhas dos argumentos dele:

    http://scienceblogs.com/evolutionblog/2007/03/plantinga_on_dawkins_part_one.php

    Se alguém se dispuser a traduzir seria interessante (estou sem nenhum tempo para isso, infelizmente).

    Acho que podemos resumir o argumento todo em “se não podemos explicar/provar algo, então ele existe”..:-)

    Homero

  • http://www.elivieira.com Eli Vieira

    Obrigado pelos apontamentos, Marcelo.

    Plantinga responde ao seu ponto 1 no texto dele, ele diz que a evolução foi a forma que Deus usou para nos criar, mas nos criou à sua imagem e semelhança, e é só em função disso, alega ele, que podemos ter certeza de que nossa mente é capaz de encontrar a verdade, qualquer que seja ela. Ele fala isso bem de passagem e é claro ignora completamente o monte de problemas que vêm daí – como garantir que a mente divina de fato encontra a verdade? Como garantir que não é um Gênio Maligno de Descartes? Plantinga, como eu disse, não faz o dever de casa de justificar propriamente o cristianismo e se atém a ficar atacando, como se tornar falsa a posição contrária transformasse a posição dele automaticamente na verdade. É por isso que eu resolvi expor exatamente que conceito de verdade ele está usando, e como é frágil dado que baseado em dogma. Para ver uma argumentação sobre dogmas recomendo o texto “O Dogma Antidogma” do Desidério Murcho, publicado aqui mesmo.

    2) “Comportamento inteligente” aceita coisas demais e certamente não descreve bem o que acontece no vídeo. Eu devia ter explicado um pouco mais. Esses caçadores fazem parte de uma tradição de pesquisa sobre meios eficientes de encontrar a caça. Eles têm várias teorias que os orientam de modo a inferir várias coisas sobre a caça, como sexo, porte, e até saúde, com base em evidências das pegadas. A cena mostra o caçador fazendo inferências sobre os mais prováveis caminhos que a caça poderia ter tomado com base em teorias sobre o comportamento dela à sombra ou ao sol. Nada disso pode ser feito por leões ou outros predadores da natureza, não com este grau de sofisticação, e é por isso que eu digo que esse caçador está fazendo ciência, especialmente quando perde a caça de vista e precisa reencontrá-la.

    3) Não sei o que exatamente você quer dizer com “valor ontológico”, mas se entendi bem, não aceito que sobrenaturalismo e naturalismo tenham o mesmo valor ontológico. O naturalismo é muito mais adequado às evidências, ao poder explicativo e preditivo geral de nossas teorias, portanto tem mais “valor ontológico” que o sobrenaturalismo. O sobrenaturalismo não foi discutido neste post nem no post do Plantinga. Ele bem rapidamente jogou esta petição de princípio de Deus nos fazer à sua imagem e semelhança, e não se dá ao trabalho de justificar nada.

    4) De certa forma o “evolucionismo” já está num limbo metafísico, no sentido de poder ser interpretado em termos realistas (naturalistas) ou não-realistas. Sobrenaturalismo pode ou não ser uma forma de não-realismo ou anti-realismo.

    5) Plantinga não defende criacionismo nem design inteligente. Ele tentou fazer um malabarismo lógico para tornar a evolução, que ele assume verdadeira, incompatível com o naturalismo.

    6) Deus pode ser objeto de estudo da ciência na medida em que hipóteses auxiliares testáveis, como orações intercessórias, são concebidas a favor dele. Naturalmente, todas estas falharam e foram refutadas por pesquisas e argumentos.

    7) Concordo contigo quanto à argumentação de Plantinga usar lacunas onde ele pode enfiar o deus dele. Mas as lacunas que ele usa são bem diferentes das usadas por criacionistas.

    Sobre as divisões do naturalismo, só naturalismo metodológico e naturalismo ontológico já satisfazem a questão, sendo o “epistemológico” apenas um desdobramento do primeiro ou do segundo ou dos dois. E pode ser dito que apenas o naturalismo ontológico é de fato uma posição metafísica – ontologia e metafísica podem ser usadas como sinônimos dependendo do caso.

    Abraço.

  • Pena Ajena

    Eli escreveu:

    “Não sei o que exatamente você quer dizer com “valor ontológico”, mas se entendi bem, não aceito que sobrenaturalismo e naturalismo tenham o mesmo valor ontológico. O naturalismo é muito mais adequado às evidências, ao poder explicativo e preditivo geral de nossas teorias, portanto tem mais “valor ontológico” que o sobrenaturalismo”

    Desculpe a utilização do termo fora do usual. Valor ontológico, aqui, é aquele empregado por Maturana e equivale a dizer que ambos (naturalismo e sobrenaturalismo) tem o mesmo valor de verdade. Ambos são princípios metafísicos e fazem afirmações sobre o mundo da experiência.

    Eu não diria que “o naturalismo é muito mais adequado às evidências, ao poder explicativo e preditivo geral de nossas teorias”. São as evidências, o poder explicativo e preditivo geral de nossas teorias que fortalecem o naturalismo, visto que o ponto de partida da ciência já é, ele mesmo, o naturalismo. Mas, ainda assim, o seu é juízo é de valor e trai aquela escolha anterior pelo naturalismo. Um sobrenaturalista poderia dizer o contrário e se justificar em experiências sobrenaturias e profecias que se realizaram.

    Quanto às divisões do Naturalismo Filosófico, entendo que não estão incorretas. As teorias metafisicas tratam da natureza da realidade e geralmente são divididas em ontologia, cosmologia e teologia
    .
    Embora possamos falar de um naturalismo cosmológico, o naturalismo ontológico já dá conta do recado, ao responder sobre “o que é o ser” “porque existe algo em vez do nada” “que tipos de ser existem” etc.

    O naturalismo epistemológico é de forte base metafísica, pois ao tratar dos limites do conhecimento humano, elege o mundo natural como limite.

    E, por fim, o naturalismo metodológico seria a posição metafísica mais fraca, embora dependente dela.

    Queria falar mais, todavia o espaço é pouco e o tema está bem amarrado.

    Um abraço

  • http://canecaorbital.blogspot.com Rodrigo Souza, a.k.a. Sargento

    “Rodrigo, pela própria exposição do tipo de problema importante que só se trata com filosofia neste post, acho seu chiste incompreensível, a não ser que você não tenha lido o post. É uma opinião preconceituosa e desinformada sobre filosofia. Plantinga não deve ser tomado como exemplo de como se faz filosofia de qualidade.”

    Está certíssimo, Eli. Minha opinião é desinformada e preconceituosa. É aquela opinião de quem vê de fora os questionamentos filosóficos. E sim, li o texto, bem como alguns outros livros da área.

    Um ponto que eu tenho contra a filosofia é que ela requer, de certa forma, um domínio sobre ferramentas argumentativas para ser transmitida, compreendida, questionada e avaliada. Ela parece sempre criptografada, selada, à prova d’água, imune a questionamentos que não partam de alguém que tenha algum nível mais elevado de compreensão do termo. Enfim.

  • Rodrigo*

    Vulnerável como um filósofo na savana: Ri litros com esse título, nossa genial. KKKKKKK

    Acho que na maioria dos animais e dos primatas, eles enxergaram a natureza de forma mais prática e simples possível, através da observação. Fato é que presas e predadores tem cheiro, produzem pegadas, fazem barulho e etc. Como no caso de macacos Rezo que avisam da chegada de predadores para outros animais. Uma simples associação de grito específico dos macacos com predadores.

    Imaginemos que um outro grupo desses animais tivessem uma crença errônea e associaram qualquer barulho dos macacos Rezo com predadores, eles iriam desperdiçar energia atoa, e ainda poderiam ir em direção ao predador, logo esse grupo teria mais chances de serem eliminados que grupos com crenças verdadeiras e práticas.

    Sobre o fato dos animais como primatas poderem especular sobre algo oculto, ou sobrenatural isso em nada ajudaria na prática e na sobrevivência, muito pelo contrário desperdiçariam energia atoa.
    Agora podemos especular pq a humanidade conseguiu sobreviver mesmo cultuando crenças erradas, pelo simples fato que nossa inteligência nos fez conseguir alimento em abundância e ferramentas que nos ajudam na sobrevivência e assim abrindo espaço para praticar crenças que não ajudam em nada na sobrevivência da espécie.

    A não ser é claro, na guerra, a pseudo imortalidade certamente da mais coragem a soldados. Não é atoa que Jeová é conhecido como senhor dos exércitos. A chance de vitória na batalha certamente no passado era muito mais influenciada pela coragem, sem temer a morte. Do que hoje pela tecnologia.

    “A fé é poderosa o suficiente para imunizar as pessoas contra todos os apelos de piedade, de perdão, de sentimentos decentes humanos. Ela até as imuniza contra o medo, se elas honestamente acreditarem que a morte de um mártir irá levá-las diretamente ao paraíso. Que arma! A fé religiosa merece um capítulo para si mesma nos anais da tecnologia de guerra em pé de igualdade com o arco-e-flecha, o cavalo de guerra, o tanque, e a bomba de hidrogênio.” Richard Dawkins, O Gene Egoísta”

  • http://avozdaespecie.wordpress.com/ Camilo Jr.


    Eli, ótimo texto!

    Há pouco tempo, numa contra-argumentação de um criacionista durante uma discussão, foi citada uma proposição de Plantinga (que já nem lembro qual foi). Como não havia lido nada dele, limitei-me a rebater as críticas criacionistas de meu interlocutor — e pelo visto fiz bem pois, como você salientou, Plantinga nem sequer defende o criacionismo.

    Seu texto de hoje foi muito esclarecedor tanto na síntese dessa tese (espiclondrífica) de Plantinga de que evolucionismo e naturalismo são mutuamente excludentes quanto na brilhante refutação apresentada. Aprendi muito!

    Um forte abraço!

  • http://www.gregorygaboardi.blogspot.com Gregory Gaboardi

    Eli

    Bom, vamos aos trabalhos. Acho que você identificou corretamente o cerne do problema: a noção de verdade pressuposta por Plantinga. Toda a argumentação dele depende do que entendemos por “verdade” e de como nos relacionamos com tal coisa.

    Para refutá-lo (não analisei cuidadosamente o argumento dele mas suponho que seja válido) teríamos de mostrar que algum comportamento adaptativo é adaptativo por produzir crenças verdadeiras. Em outras palavras: “alcançar a verdade é adaptativo” é o enunciado que deve ser estabelecido. Não é um enunciado científico (“verdade” não é um conceito científico), é algo como um híbrido filosófico-científico que exige uma teoria da verdade relacionada com noções biológicas como “adaptativo”.

    Era neste ponto que gostaria de chegar: teorias da verdade. A ressalva que faria em teu texto é tua caracterização delas. As teorias correspondencistas clássicas (do atomismo lógico de Russell, por exemplo) não colocam a verdade como resultado de uma relação entre proposições e “dimensões fundamentais da experiência” (ou qualquer coisa parecida), mas como resultado da relação entre proposições e fatos (que são entidades objetivas e não necessariamente sensíveis). Esta é uma ressalva importante porque tua formulação da teoria correspondencista retira o que é fundamental dela: o realismo.

    A caracterização do coerentismo também não é adequada. Segundo o coerentismo o que torna uma proposição verdadeira (repare-se que isso é muito diferente de justificar a crença na veracidade de uma proposição) é a coerência da proposição com as demais proposições existentes. A mera consistência lógica (ausência de contradições) não é condição forte o bastante para o que os coerentistas entendem por “coerência”, eles geralmente defendem algo mais substancial (ainda que envolva a consistência). O que quero enfatizar com isto é que para um coerentista não existem “crenças fundamentais”, a relação de coerência nega uma hierarquia entre a veracidade das proposições.

    O coerentismo é plenamente compatível com a ideia de que alcançar a verdade é adaptativo, é até mais intuitivo que o correspondencismo nesse sentido. Se a verdade é a coerência, então basta dizer que é adaptativo aprimorar a capacidade de detectar coerência entre um número cada vez maior e mais complexo de crenças, de modo que a evolução nos equiparia com uma capacidade sempre aproximativa. Claro, existem problemas (como o caráter idealista do coerentismo), mas prima facie não há qualquer conflito entre o coerentismo e a ideia de que alcançar a verdade é adaptativo. Além disso, também não há um compromisso essencial entre o naturalismo e o teorias correspondencistas.

    Ademais eu só faria algumas ressalvas conceituais e técnicas. Por exemplo, não coloca naturalismo, materialismo, fisicismo e realismo como se fossem a mesma coisa: além de você não precisar dizer isso, só causa confusão (porque não são tudo a mesma coisa e isso não é preciosismo). Outra parte desnecessária pra tua argumentação é a colocação sobre a popularidade do correspondencismo (soa como um ad populum).

    Enfim, tenho que ler mais cuidadosamente toda tua argumentação. Creio que concordo com a conclusão, só tenho que ver se concordo com o argumento.

    Abraço.

  • http://www.gregorygaboardi.blogspot.com Gregory Gaboardi

    Rodrigo Souza

    Qual área do conhecimento não exige esse domínio de ferramentas argumentativas? Quando se discute rigorosamente um texto científico da física, por exemplo, conhecimento de linguagem matemática é fundamental. Neste sentido as exigências da filosofia são até bem menores que as da física (e de muitas outras áreas da ciência): basta ler com atenção e ajuda bastante saber um pouco de lógica. Em toda filosofia séria os conceitos que são utilizados são definidos em termos de conceitos mais simples, regredindo ao ponto em que basta conhecer termos comuns das linguagens naturais.

    Essa criptografia não é essencial na filosofia (embora esteja gratuitamente presente na filosofia de má qualidade), e onde quer que ela ocorra, se dá do mesmo modo que em qualquer outro campo do saber (pelas mesmas boas razões). Vale lembrar que até o caso do Plantinga eu não consideraria um caso de filosofia de má qualidade, muito pelo contrário.

  • http://canecaorbital.blogspot.com Rodrigo Souza, a.k.a. Sargento

    Notei que essa é sua zona de conforto, Gregory. E nunca gostamos de que nossa área seja questionada (sei disso pois a minha é escrotizada até o limite), mas convenhamos: já reparou que é praticamente impossível falar sobre qualquer tópico filosófico sem ser extenso e muitas vezes prolixo?

    “Enfim, tenho que ler mais cuidadosamente toda tua argumentação. Creio que concordo com a conclusão, só tenho que ver se concordo com o argumento.”

    E você pegou leve…

  • http://canecaorbital.blogspot.com Rodrigo Souza, a.k.a. Sargento

    Nâo podia deixar passar essa…
    http://www.youtube.com/watch?v=ig7hCH-Oqzk

    : )

  • http://elivieira.com Eli Vieira

    Greg,
    só tenho a agradecer pela sua crítica, para poder refinar minhas ideias.
    Aguardo ansiosamente sua análise completa.
    Grande abraço!

  • Nelson Góes

    Excelente Eli, é claro e evidente que estamos sendo enganados o tempo todo, mas temos meios racionais para medir quais atitudes e comportamentos podem ser benéficos para nós.

    Um teísta deve entender que colocar um deus na equação é redundante, já que ele criou tudo. Qual a diferença entre dizer que deus mandou a chuva e deus criou o universo? Dá na mesma.

    Não acredito numa criação, mas acredito por exemplo na possibilidade de estar interagindo com uma estrutura atemporal. Seria eu um naturalista aos olhos de Platininga?

    Sargento, uma das coisas que mais me incomoda em alguns que são considerados filósófos é que desenvolvem a idéia de modo que ela mesma cai junto com os argumentos apresentado. Isso eu sei fazer.

  • Eli

    Obrigado, Nelson!