Dilma é Muitas

Autora: Rayssa Gon

O dia 31 de outubro de 2010 deve ser lembrado como data histórica por todos os brasileiros. Nesse dia, através de uma eleição democrática, foi eleita a primeira mulher para o cargo mais alto na hierarquia poíitica do nosso país. Talvez, por não se tratar de um fato inédito – ver os exemplos da primeira ministra alemã, Angela Merkel, e da presidente argentina Cristina Kirchner – possa se perder um pouco a dimensão do que significa ter uma mulher como chefe de Estado. Principalmente num país como o nosso, patriarcal e de forte tradição cristã. Vivemos numa sociedade machista. A disparidade entre os salários de homens e mulheres ainda se mantem, mesmo com elas alcançando maior escolaridade. A violência contra a mulher é hoje considerada uma verdadeira epidemia e vitimiza milhares de cidadãs brasileiras.

Todas nós ainda carregamos, pelo simples fato sermos dotadas de uma vagina, o estigma de “filhas de Eva”.  No mito cristão, a primeira mulher foi a responsável pela perdição de toda a humanidade. Por ter sido criada de uma parte “torta” e “deformada” de Adão, a costela, Eva e suas “filhas”  seriam, assim, igualmente propensas ao erro, ao pecado, à malignidade. Além disso,  a natureza feminina seria inclinada à ignorancia e falta de esclarecimento – afinal, acabou por cair na história da tal cobra – e , por isso, deveria se submeter ao homem, “cabeça da relação”.

Essa foi a base ideológica da perseguição às bruxas que poderia muito bem ser resumida (mas não absolutamente) a uma caça às mulheres.

Milhões de mulheres foram condenadas a queimar até a morte durante os séculos em que o Tribunal do Santo Ofício da Inquisição atuou. As acusações variavam mas grande parte dela estava relacionada a provocação de tempestades e geadas “inesperadas” , pestes, infertilidade de animais e impotência masculina. Acho importante, tendo em vista o tom cruzadístico que a campanha presidencial adquiriu depois do primeiro turno, ressaltar a principal acusação quer recaia sobre as bruxas:

Em O Martelo das feiticeiras, um capítulo inteiro explica “como as parteiras feiticeiras infligem os maiores males às crianças”: [...] Desde que a criança nasceu, se a mãe não é ela própria feiticeira, a parteira leva a criança para fora do quarto sob o pretexto de aquecê-la; depois, elevando-a nos braços, oferece-a ao príncipe dos demônios Lúcifer e a outros demônios; tudo isso na cozinha, em cima do fogo.¹

Consagração ao Cão era o mínimo esperado das “feiticeiras” pois muitas vezes elas eram também responsabilizadas por abortos, morte de recém nascidos, assassinatos de bebês e crianças com o objetivo de usa-las (ou alguma de suas partes) no preparo de poções e rituais.

Isso sem entrar na condição da mulher no mundo islâmico.

Se ainda, infelizmente, não temos autonomia suficiente sobre nossos próprios corpos (lembrando, claro, que a questão do aborto é mais abrangente) , pelo menos podemos no orgulhar de termos ultrapassado mais um preconceito e, com isso, alcançado a plena participação política após 78 anos da conquista do direito de voto feminino. A vitória de Dilma Rousseff deve encher de esperança e otimismo todos os brasileiros, homens e mulheres, que acreditam numa nação mais igualitária e democrática.

Dilma foi eleita por homens que tiveram coragem de superar a cultura machista na qual foram criados. Dilma não recebeu o voto de homens (e mulheres) que se recusaram a votar nela por divergência de pauta e não por ser mulher (quero crer que a maior parte deles). Dilma é a representante da filhas de Eva. Por fim, não posso deixar de pensar que a história às vezes nos dá certos presentes. No dia das Bruxas, uma mulher perseguida foi eleita presidente país. Dilma é a própria bruxa.

____________________________________________________

*A imagem que ilustra o texto faz parte das estampas desenvolvidas pelo movimento Dilma é muitos, que também inspirou o título.

¹ História do Medo no Ocidente de Jean Delumeau.

DeliciousOrkutTumblrGoogle ReaderGoogle+FacebookShare

Mais do Bule Voador

  1. Aborto, casamento gay e intolerância religiosa: convenientemente ausentes nos discursos dos presidenciáveis
  2. Que tal abortar a hipocrisia?
  3. Frei Betto datenou com os ateus e chamou tortura de “ateísmo militante”
  4. Eu sou Protestante
postado por Rayssa Gon em Brasil Mulher,Humanismo,Laicismo,Legalização do Aborto,Política,Rayssa Gon,Religião
  • http://quadradodosloucos.blogspot.com Bruno Cava

    Parabéns pelo texto, Rayssa.

    Quem está reclamando de “imparcialidade” e chamando a um “humanismo secular” supostamente apolítico, age que nem a Folha de São Paulo, que assume a pior parcialidade, que é tomar partido fingindo estar a serviço da Verdade e da Justiça — com maiúsculas, aí sim, conceitos transcendentes, logo religiosos.

    A Dilma não receberia metade das acusações e da boataria se fosse homem. A própria pecha de “duas caras”, “falsa” etc, cola muito mais em mulher do que em homem. A sociedade é machista até o osso e, nesse sentido, a eleição dela é, sim, um acontecimento histórico, como o é a eleição de um negro para a presidência dos Estados Unidos, ou então de Lula, um operário num país de oligarcas.

    Não quer dizer muito? quer sim! ainda mais se virmos que a candidatura de Dilma está associada ao PNDH-3, que prevê avançar sobre temas barrados pela religião, como direito das mulheres, dos gays, dos negros, a questão das células-tronco etc.

    O Serra capitaneou uma campanha de ódio, cujo fundamento foi a moral religiosa em todas as suas formas obscurantistas e antidemocráticas.

    Foi sem dúvida um dos melhores textos deste site, que soube articular história, epistemologia e política. E bem escrito.

  • Alessandra

    Preconceito existe, ok.

    O problema é quando ele parte das suas próprias supostas vítimas.

    Uma pessoa foi eleita e é tudo. Ou deveria ser.

    As características físicas da Presidente não importam, porque não afetam o desempenho dela no exercício do cargo.

  • Hikarudo

    Rayssa, como sempre otimos textos! é uma alegria ler-los
    Vc me deixou emocionado com essa visão.
    Me sinto muito orgulhoso por ter nascido de uma mulher;
    Sou muito Feliz por ter me casado ( e separado haha ) com uma mulher;
    Sou o homem muito mais Feliz por ter uma Filha ,que será uma bela mulher um dia!

    Oque dizer sobre a mulher Dilma?

    deixa a Historia contar…

    abrçs

  • Rufa

    chupa ICAR, chupa Assembleia de Deus etc etc etc

  • http://www.formspring.me/glauciopigati Gláucio Pigati

    Calma gente… Agora já acabou a eleição… Relaxem e voltem a serem pessoas normais e sensatas… rs
    .
    .
    .
    .
    .

    Eu votei na Dilma!

    :)

    como dizem no futebol, chupAAAAAAA cambada de conservadores! [2]

    huahuahuahuahua!

  • http://www.twitter.com/boni_bo Francisco Boni

    Como é gostoso vencer o Papa, todos os evangélicos alá Malafaia que pregam que gays deveriam ser presos por atentado violento ao pudor, ao Serra que prometeu vetar a PL 122 (já a Dilma foi apoiada por cristãos progressistas e, mesmo assim, driblou qualquer tentativa obscura de ser contra projetos do próprio PT http://yfrog.com/dym20j). Como é bom vencer as publicações que se auto-censuram, como Veja, Estadão, Folha. Como é bom vencer Ali Kamel e a Globo.

  • http://presencadapeste.blogspot.com rayssa gon

    Sim, Everton, adorei seu comentário.

    acho que deixei implicito (quase invisivel) no texto que a eleição de dilma é apenas mais um preconceito ultrapassado. não podemos crer que a conquista de uma sociedade realmente igualitaria esta acabada. seria como pensar que o racismo, nos EUA, deixou de existir no dia da eleição do Obama. Como bem lembrou o Homero :D

    eu adoro meu nome, mas esse “y” aí é meio “errado”. :D

  • http://presencadapeste.blogspot.com rayssa gon

    Se vivemos numa sociedade de fato não-racista ou não-machista, democrática de verdade, eu nem ligaria pro fato da Dilma ser uma mulher. Obama negro, então, tanto faz.

    mas não vivemos. e , sim, eu vejo essas eleições como conquistas a ser orgulhar. e muito. pois esta se percebendo, finalmente, que não importa a cor ou sexo da galerë.

  • http://presencadapeste.blogspot.com rayssa gon

    Bonniii!!!!!!

    É um site apartidário, mas não é um site apolítico. [2]

    o unico lugar onde é possivel ser “apolitico” é o orkut.

    e, nunca é demais repetir, votar em dilma não significa apoiar de forma irrestrita todos os pontos de sua campanha. nem pensar.

  • http://presencadapeste.blogspot.com rayssa gon

    Mario, eu tenho 22 anos. não vejo problema nenhum nisso.

    infantilidade não esta relacionada unicamente a data de nascimento, eu suponho.

  • http://ponteeuropa.blogspot.com/ Carlos Esperança

    Força, rayssa gon.

    A sua luta pela igualdade de género e contra o obscurantismo é um exemplo apreciado deste lado do Atlântico.

    Viva Dilma. Parabéns, Brasil.

  • Gerson B

    Se a Dilma tivesse sido eleita por mérito próprio, o texto teria sentido.

    Mas ela só chegou lá por imposição e com o apoio de um homem. A eleição dela (assim como a da Cristina Kirchner ou a da Rosinha Garotinho) não traz nada à causa das mulheres. Nem a da mulher do Roriz traria. Se não fosse pelo Lula nem candidata ela teria sido.

    Heloisa Helena, Benedita da Silva e Marina Silva sim, são mulheres que tem brilho e mérito próprio.

  • Everton

    Que tal criar um post com grandes mulheres que existiram(em) para nossa apreciação Rayssa?
    Hipátia de Alexandria e Marie Curie seriam uma boa pedida.

  • Abraão

    Rayssa, obrigado pelo teu texto.
    Sou português, ateu e moro em Portugal. Frequento o mesmo site que vc gosta de ler e de comentar. E quero dizer que já vivi no Brasil cerca de ano e meio.
    Eu votei Dilma (votaria se pudesse) pois os restantes candidatos não me agradavam. Um, pela esfera política que defende e representa e a OUTRA pela mesquinhez religiosa que propaga e representa. Ou melhor dizendo, quem acredita que deus pode e faz tudo não precisa de se candidatar. Mais uma vez o todo poderoso lhe demonstrou que as preces de nada servem.

  • Homero

    Everton: “Hipátia de Alexandria e Marie Curie seriam uma boa pedida.”

    São minhas heroinas, desde minha infância..:-) A história de Hipatia me deixou fascinado ainda muito novo, pré-adolescente, acho que fiquei até apaixonado por ela na época..:-)

    Homero

  • Everton

    Homero,

    Legal é saber que o responsável pela morte dela foi canonizado e virou santo: São Cirilo.
    Têm um filme que conta a história de Hipátia chamado Ágora. Ainda não vi porque não achei pra alugar e nem vender e, para alguns pode parecer bobeira, mas não baixo filmes e não compro DVD pirata. :/

  • Bosco

    Mário Cezar;

    Isso é muito meninil:
    “Acho isso absurdo, porque justamente por termos mais conhecimento do que as pessoas mais simples de nossa população…”

    Pelo que você colocou em diversas manifestações acima, não concordo que você tenha mais conhecimento do que as pessoas mais simples de nossa população. Seus cometários não evidenciam isso.

    E essas pessoas mais simples de nossa população, algumas votaram na Dilma, outras não votaram por motivos que só interessam a elas. É da democracia. Outras, enganadas por pessoas que pregam a “verdade” como o caminho da para a “salvação”, guiaram-nas para o voto Serrista, depois de ludibriadas por mentiras inventadas por seus guias espirituais (pastores e vigários), de que a Dilma é uma mulher ateia. E atéia, segundo informação de alguns pastores e párocos aos seus fiés quase analfabetos do sertão nordestino e periferias das capitais, infestadas de igrejas, é uma pessoa que só crêr no cão, e não crêr em Deus. Isso é real, eu testemunhei algumas pessoas simples enganadas por ministros de deus usando esse argumento.

    Ser ateu não nos faz alguem especial nem superior as pessoas mais simples da população que são crentes. Crêr ou não crêr, é apenas um detalhe na vida de um homem ou de uma mulher. Talvez seja até um começo de uma boa mudança de vida começar a não crêr. Mas o ceticismo não valerá nada se não for agregado a ele outros valores éticos, como por exemplo o respeito a vontade dos outros.

    Gerson B;

    “Mas ela só chegou lá por imposição e com o apoio de um homem”

    Foram muitos homems e muitas mulheres. Não acredito que as pessoas que frenquentam o bule, e outras que nem conhecem o bule, que tenham votado na Dilma, votaram pelos lindos olhos do Lula.

    Acredito que votaram pela continuidade de um projeto. Projeto este, que aos olhos dos eleitores é bem melhor que o projeto apresentado por Serra (ele apresentou um?).

    E também por acharem a Dilma melhor candidata e mais bem preparada que o Serra, aliás já é a terceira vêz que isso fica bem evidente na vontade do eleitorado brasileiro, nas eleições presidenciais em relação aos candidatos contra o projeto em execução.

    Os candidatos que você vem apoiando nas últimas tres eleições nunca tiveram um discusso convincente aos olhos do eleitor.

    Isso está cada vêz mais evidente a cada apuração de votos. E na bancada governista eleita em torno desse projeto de governo cujos principais opositores, foram apagados da cena política pela vontade do eleitor. Mesmo contando com aliados tão importantes e respeitaveis como Você, Mário, Pastor Malafaia, inúmeros bispos, cardeais, vigários e o inesperado reforço do Papa Bento xvi. Além dos principais veículos de comunicação do país (jornais, revistas e redes de TVs).

    Mas para vocês cabos eleitorais do Serra, evidência parece não ser algo tão relevante que se deva levar a sério.

  • Pena Ajena

    Vou repetir um comentário que fiz na thread do texto do Boni.

    *******

    Junior

    Vc escreveu: “O que volto a afirmar é que o Bule errou em defender a Dilma”.

    Esta é a grande questão, que deveria ser colocada em outros termos: “O Bule errou ao criticar a estratégia “republicana” da campanha de Serra?”

    Já comentei sobre isso, mas vou repetir este trecho:

    “O resumo da ópera é que, caso ainda fizesse parte do conselho editorial do Bule, levaria esta discussão ao grupo. Qual seja: o momento é o de permencermos apartidários ou defender a candidatura que possui maior afinidade com os objetivos do Bule/LiHS, em que pese as peripécias da realpolitik?”

    Eu não sei se o texto do Boni foi submetido ao Conselho de Mídia da LiHS ou se está na cota da liberdade do editor.

    Mas o que volto a enfatizar é se uma ONG Humanista e Secular deve adotar uma postura imparcial em momentos cruciais, nos quais a imparcialiade parece falar mais alto do que a tomada de posição.

    Apoiar uma candidatura é uma questão pontual, uma resposta ao momento político.

    Enquanto fui editor do Bule, sempre apontei as mazelas de regimes como Cuba e Irã, bem como a violência militar dos EUA contra civis afegãos e o cerco impiedoso de Israel aos palestinos.

    Embora entenda os objetivos estratégicos da política externa brasileira em criar um alinhamento sul-sul, nunca me agradou o exagero teatral do presidente Lula em se deixar fotografar – além do protocolo – em íntimos sorrisos com tiranos como Ahmadinejad e ditadores como Fidel e Raul Castro.

    Portanto, apoiar uma candidatura é marcar uma posição no terreno político e, não, assumir definitivo compromisso partidário.

    Da minha parte, acredito que o Bule/LiHs continuará defendendo a legalizaçao do aborto, a união civil homossexual e o respeito aos direitos humanos; em que pese a posição do futuro governo em relação a estes temas.

    Portanto, não acho que o Bule – ou o Boni – errou. O que houve foi um julgamento precipitado das intenções do artigo, uma leitura apressada (fora do contexto da história e das propostas da LiHS) e pouca reflexão sobre a importância do momento político.

    Abs

    PS: Não sou petista. Cheguei a usar uma avatar pró-Dilma no twitter, mas retirei após a Carta de Dilma. Passei a usar o avatar do #OrgulhoLaico. Fiz campanha para Dilma no twitter e votei nela (muito mais um voto anti-PSDB)

    Todavia, isto não significa que assinei um cheque em branco. Meu compromisso é com o Humanismo Secular. Da mesma forma que fui crítico em relação a vários aspectos do governo Lula (votei nele), sinto-me totalmente à vontade em criticar o futuro governo Dilma.

  • Paulo

    “Eu detesto o racismo, porque considero isso uma coisa bárbara, quer seja praticado por um homem branco, quer seja por um homem negro.” (Nelson Mandela)

    Realmente ficará marcada na história esta data. Mas ainda assim, ainda não consigo ver nada demais neste fato, assim como não consegui no caso Obama. Nem mesmo me empolguei no caso da Primeira Ministra atéia da Austrália… Talvez quando a maioria pensar como eu, estejamos livres de alguns preconceitos nocivos e infundados. Aliás, pra alguém achar que ter tido um presidente operário é grande coisa, este alguém não deve saber que o ditador italiano Mussolini também fora operário… Sem falar que ainda acho que se o Chefe da casa civil anterior, José Dirceu, não tivesse sido sacrificado no escândalo do mensalão, a Dilma não seria sequer cotada para participar das eleições.

    Apesar disso, lamento profundamente este fim de semana. Foi o dia em que o povo brasileiro deu carta branca à corrupção, ao esculacho dos processos democráticos pelo Lula, à tentativa de controle “social” da imprensa. E tudo pelo quê? Por um suposto crescimento, que na verdade foi um dos menores entre os países emergentes entre 2005 e 2009, por uma suposta erradicação da miséria, quando o próprio Lula chamava os programas sociais de “‘uma peça de troca’ em épocade eleição!”.

    Na verdade, tenho que confessar que fiz questão de tirar o título de eleitor para votar no Lula da primeira vez que ganhou. Ele prometia limpar a política no Brasil, fazer as reformas tão necessárias para o desenvolvimento do país. Mas o tempo veio, e sua bandeira ética se mostrou mais falsa que nota de três reais, mostrando que se tratava de mais um espertalhão obcecado por poder. Entendi que não existem salvadores e que o importante são as instituições. Hoje, órfão do Lula, sou da opinião de que devemos ser “contra” qualquer governo, sempre agindo como vigias. Não acho que fins justifiquem meios, não aceito desculpas estilo “mas o governo do fulano também roubou/governo do fulano roubou mais”. Este tipo de opinião é um câncer que deve ser combatido. Acredito que se mostrássemos nossa reprovação quanto aos escândalos deste governo, o próximo teria o cuidado de cometer menos escândalos. Se fizéssemos o mesmo nas próximas eleições, tenderíamos a diminuir a corrupção.

    Infelizmente, muitos não compartilham de minha descrença e tratam o Presidente como uma espécie de Messias, aumentando o caráter religioso (irracional) da política (inclusive alguns aqui do Bule, que ao menor sinal de crítica contra o Lula se transformam nas mais beatas religiosas defendendo seu pastor…).

    Por fim, chega a ser utópico pensarmos em posições imparciais (pra quem ainda não percebeu, sou anti-PT), e o Bule (ou seus colaboradores) tem o direito de apoiar quem quiser, no intuito de tentar defender seu ponto de vista, no caso o humanismo secular. Apenas acho que tem muito mais em jogo, e jamais apoiaria Lenin e Stalin apenas por serem ateus (não estou dizendo que é o caso do Bule). E entre Chavez, Castros, uma ex-guerrilheira (que lutou sim contra a ditadura, mas não a favor da democracia, mas sim por uma nova ditadura como a de Cuba) e algum outro mais retrógrado, ficarei sempre com o outro, enquanto o considerar menos nocivo. Afinal, melhor dar um passo para traz para depois poder seguir andando…

    Agora nos resta esperar que sua eleição realmente seja benéfica para o Estado laico e que ajude no andamento de questões mais polêmicas como aborto e casamento homossexual. O que desde já me consola, é saber que o Lula vai sair da política e que provavelmente sua sucessora não terá a mesma blindagem impenetrável.

    “Não há caminho fácil para a liberdade em lugar algum, e muitos de nós terão que passar através do vale da sombra da morte novamente e novamente antes de alcançarmos o topo da montanha dos nossos anseios.” (Nelson Mandela)

  • http://digitandodeesquerda.blogspot.com André T.

    “Talvez quando a maioria pensar como eu, estejamos livres de alguns preconceitos nocivos e infundados.”

    Nossa, com certeza quando o mundo for evoluído e pensar como você pensa, todas as coisas vão ser muito melhores. Quando eu era adolescente eu pensava assim também.

    “Aliás, pra alguém achar que ter tido um presidente operário é grande coisa, este alguém não deve saber que o ditador italiano Mussolini também fora operário…”

    O que tem a ver uma coisa com a outra? São momentos históricos diferentes e situações diferentes. ‘Legal o José ser vegetariano.’, ‘Como assim legal o José ser vegetariano? Pra dizer isso você com certeza não sabe que Hitler era vegetariano.’. Que bobagem. A intenção quando se fala da eleição democrática de um operário é a superação de uma visão que temos EM NOSSA ÉPOCA, em nossa história, não na Itália dos anos 30.

    “à tentativa de controle “social” da imprensa”

    Todas as grandes democracias européias têm orgãos equivalentes. Claro que a FSP não vai falar disso, não interessa pra ela. Mas vou achar cômico quando alguém tentar falar que a imprensa inglesa ou francesa são controladas pelo Estado.

    “Por um suposto crescimento, que na verdade foi um dos menores entre os países emergentes entre 2005 e 2009, por uma suposta erradicação da miséria, quando o próprio Lula chamava os programas sociais de “‘uma peça de troca’ em épocade eleição!”.”

    O crescimento foi realmente pequeno, mas também for falta de investimento em questões de infraestrutura (investimento esse que continua pequeno até hoje!). Quanto aos programas sociais, o importante é exigir contrapartida (colocar criança na escola, etc e tal, exatamente como se faz hoje). Como disse a Mônica Iozzi ontem, é fácil criticar o BF sem nunca ter tido dificuldade na vida, tomando vinho e assistindo Manhattan Connection.

    Além disso, existem estudos (inclusive publicados pela folha, que foi claramente serrista durante as eleições) que mostraram que o BF mudou a vida de comunidades inteiras, agitou a economia, promoveu empregos e tudo mais. Enfim, isso é uma discussão à parte.

    “Infelizmente, muitos não compartilham de minha descrença e tratam o Presidente como uma espécie de Messias, aumentando o caráter religioso (irracional) da política (inclusive alguns aqui do Bule, que ao menor sinal de crítica contra o Lula se transformam nas mais beatas religiosas defendendo seu pastor…)”

    Fazem com o Serra também, acredite. Esquecem do Paulo Preto (olhe quantos dígitos tem os desvios do PP (milhões). Compare com o caso da Erenice (milhares). Veja a cobertura que a grande imprensa deu a cada um dos casos e reflita um pouco. Pense na licitação que até a FSP sabe o resultado (e o Serra disse que não precisa investigar! Que isento, não? hahaha). Do Arruda (vote em um careca e leve dois, lembra disso?). Isso sem contar o primeiro mensalão, lá no governo no FH, feito pra passar uma lei que não podia ser aplicada mas foi, porque todo mundo queria.

    “(que lutou sim contra a ditadura, mas não a favor da democracia, mas sim por uma nova ditadura como a de Cuba)”

    Quantos anos ela tinha mesmo?

    Parece piada isso. O PSDB tem várias pessoas entre as lideranças que fizeram exatamente a mesma coisa, mas ninguém fala delas. O Aloysio Nunes é um, fazia parte de grupo de assalto e etc e tal, mas ninguém fala nada e finge que quando é com ele tudo bem.

    Isso sem contar o DEM, que está com o PSDB agora e que na época da ditadura… estava do outro lado. Parece piada MESMO. Não vote na guerrilheira, vote no partido dos torturadores.

  • http://presencadapeste.blogspot.com rayssa gon

    Marcelo:

    eu concordo plenamente com o seu comentário. só acrescento que caso algum membro do Bule ou de qualquer outro site coletivo que participo/comento se colocasse pró-serra eu até ficaria ‘satisfeita”.

    significaria que formamos um grupo coeso mas não absolutamente dependente. que conseguimos conviver, de fato, com as diferenças. longe de demonstrar falta de coerencia, um site ou uma equipe diversificada, legitima a imagem que queremos passar de tolerancia e dialogo.

  • Junior

    Esssa foi a resposta publicada por mim no thread do texto do Boni.

    *********************************************************************

    Sim concordo que somos humanistas seculares.

    Você diz:”Mas o que volto a enfatizar é se uma ONG Humanista e Secular deve adotar uma postura imparcial em momentos cruciais, nos quais a imparcialiade parece falar mais alto do que a tomada de posição.”
    Não estavamos defendendo um candidato humanista secular, nem as propostas dos candidatos foram abordadas a fundo(vide que não havia só Dilma, Serra e Marina. Tinham outros candidatos). Simplesmente fizemos campanha por afinidade e nada de discussão.

    Humanistas seculares ate onde eu sei não fazem parte desse ou daquele partido, ou estarei enganado? Se estiver então, sou um discidente, em epocas importantes como essa deveriamos ter a obrigação de mostrar com ceticismo, que esse governo não é o do tipo:”Nunca antes na historia desse país.”, como se estivessemos sido salvos de uma guerra civil. E que tambem não é o demônio como alguns gostam de pintar.

    Que sim os meritos do governo Lula não se devem só a ele, mas isso não quer dizer que ele foi apenas um similar de seu antecessor, ja que seu governo teve muitos meritos proprio. Ele tem seus créditos e tambem tem seus ônus. Isso é uma postura humanista secular, mostrar a luz do racionalismo cientifico, quais as ideias plausiveis e as utopicas, boas ou nefastas. Questionar o conservadorismo de Serra, não só religioso, mas politico, ele poderia apontar os defeitos desse governo que foi muitos, e ter proposto soluções.

    Eu entendo quando voce diz:”Eu não sei se o texto do Boni foi submetido ao Conselho de Mídia da LiHS ou se está na cota da liberdade do editor. ”
    E acho que se foi apenas o opnião do Boni deveria ter uma nota que afirmava que era sua posição não do Bule. E claro, ele fez uma observação a posteriori.

    “Da minha parte, acredito que o Bule/LiHs continuará defendendo a legalizaçao do aborto, a união civil homossexual e o respeito aos direitos humanos; em que pese a posição do futuro governo em relação a estes temas.”

    Pensei que esse sempre fosse nossa postura, estamos aqui para defender todos esses pontos e muitos mais, faltou equilibrio nos artigos publicado no Bule durante as eleições.

    Abraço

    **********************************************************************

    P.S.: Como ja dito por alguns aqui, Dilma foi eleita em grande parte por seu padrinho Lula, não por merito proprio. E sim temos mulheres que fizeram muito por esse mundo, tanto no campo social, economico, cientifico e tecnologica. Mulheres não são só para “parir” e ficar em casa cuidando do filhos e servindo ao marido.

    Tambem não acho que sejam seres misticos, como diriam alguns “deusa-mulher”. A eleição de Dilma mostra que as pessoas estão mais interessadas em seus umbigos(do tipo:”Eu acho o Lula um otimo presidente se ele ta com Dilma, eu tambem estou”), não representa um efetivo avanço nos direitos da mulher. Onde os eleitores votam em Dilma, mas continuam pelo Brasil a fora, surrando e humilhando-as… Tudo por se acharem seus donos.

    Temos que parar de ficar repetindo frases criadas por marketeiros como se realmente fossem a verdade(como em 2006 com o: “deixa o homem trabalhar.”). E pensar mais, a vitoria de Dilma não representa a vitoria das mulheres, mas representou a capacidade de Lula fazer seu sucessor.

    Abraço.

  • Caruê

    Gostaria de parabenizar a postura do Bule, os textos foram focados em relação ao Humanismo e a posição dos candidatos em relação a estes. Embora ambos os candidatos não tenham demonstrado plena sintonia com o humanismo secular, eu tinha esperanças que pelo menos Dilma tivesse tal postura, mas ela cedeu e fez aquela ridícula carta de compromisso. De certo modo comportei me como o Ajena depois do ocorrido, abandonei a ´´ militância “ mas mesmo assim votei nela.
    Em relação a ter uma presidente mulher, um negro ou um metalúrgico, não vejo diferenças na capacidade ou no modo de governo. O que realmente importa é a questão simbólica e a importância do exemplo. Tendo uma presidente mulher nossas meninas vão admira la e serem mais ativas politicamente e mais valorizadas.
    Tenho 21 anos e considero a idade absolutamente irrelevante em relação a consciência politica.

  • Adriana Chilante

    A Dilma e a sua trupe não apostaram muito na “Dilma mulher”. O que acho muito positivo, falando num enfoque humanista.
    Mas, desconfio que ela ser mulher contribui, com todo viés machista do Lula, para ser escolhida como alguém que vai “manter a cadeira quente” para ele.
    Outra observação: a Dilma não representa o ideal feminino (bela, frágil e submissa), talvez por isso, pela postura “masculina”(sem nenhuma conotação sexual, mas sim de gênero), tenha passado meio despercebida pelo macharedo reacionário.

  • Pena Ajena

    Até parece que o Bule tornou-se um pasquim pró-Lula ou pró-PT , que o Boni virou porta-voz do blog, e que dois ou três artigos críticos a Serra jogaram no lixo o trabalho de mais de um ano.

    Acredito que a crítica deveria ser feita em relação à conduta editorial, sem apelar à paixões particulares:

    1) Faltou uma discussão interna, em nível de Conselho de Mídia, para definir a linha editorial durante as eleições.

    As opções, a meu ver, seriam:

    - Neutralidade: não seriam publicadas matérias relativas à eleição.

    - Apoio a uma candidatura

    - Neutralidade do Bule e da LiHS, e editores liberados a expressarem suas posições políticas.

    2) Em seguida, uma explicação pública da opção escolhida.

    As críticas mais “contundentes” à postura do Bule demonstram apenas a triste racionalizaçao do sentimento de derrota nas urnas; a verbalização quase sem nexo do ódio de classe.

    É triste constatar, mas a revista Veja fez escola…

  • Caruê

    Adriana
    Eu diria que apostaram muito na Dilma mulher, no entanto não funcionou. Dentre as mulheres o Serra ganha a maioria dos votos.

    Por que alguém machista indicaria uma mulher como sucessora?

    Essa teoria conspiratória de manter a cadeira quente é tão factível quanto o terceiro mandato do Lula ou o calote da divida externa.

    Os atributos tipicamente femininos como a sensibilidade não são exclusividade das mulheres da mesma forma que os atributos tipicamente masculinos como a rigidez não são exclusividade dos homens. Ambos devem estar presentes em um presidente, seja homem ou seja mulher.

  • Bosco

    Resultado da eleição gera preconceitos contra nordestinos. Há quem peça a morte deles por afogamento.
    http://www.opovo.com.br/app/opovo/politica/2010/11/02/noticiapoliticajornal,2059187/ofensas-e-preconceito-nas-redes-sociais.shtml

  • Paulo

    “Nossa, com certeza quando o mundo for evoluído e pensar como você pensa, todas as coisas vão ser muito melhores.”

    Pode até ter te parecido um tanto arrogante, mas quando a maioria julgar uma pessoa não pela sua cor, sexo, opção sexual, orientação religiosa, etc., mas pela sua história, não será muito melhor?!? Da próxima vez, explicite melhor no que não concorda, ao invés de apenas ser irônico. (Ou seja irônico, mas diga no que não concorda…)

    “O que tem a ver uma coisa com a outra?”

    Tem a ver que muitos idiotas idolatram o Lula principalmente pela sua história, achando que por vir de baixo, vai ter sua idoneidade garantida. Nestes casos, não custa nada lembrar outros casos de “homens do povo” cujo poder subiu a cabeça…

    “Como disse a Mônica Iozzi ontem, é fácil criticar o BF sem nunca ter tido dificuldade na vida, tomando vinho e assistindo Manhattan Connection.”

    Bem, na verdade nem cheguei a criticar o BF… O que critiquei foi o fato de o PT sempre ser duas caras, uma hora acusando os outros daquilo que eles mesmos fazem, noutra fazendo aquilo mesmo que criticavam antes de ter o poder. Ontem era compra de voto, hoje é preocupação com os pobres…

    “Isso sem contar o primeiro mensalão, lá no governo no FH, feito pra passar uma lei que não podia ser aplicada mas foi, porque todo mundo queria.”

    Bem, foi exatamente isso que chamei de câncer no meu comentário anterior. FHC roubou, portanto este governo está liberado para roubar. Na MINHA opinião, tínhamos que deixar bem claro: NÃO, VOCÊS NÃO TÊM CARTA BRANCA PARA ROUBAR, POR ISSO PERDERAM SEU MANDATO. Mas enfim, a decepção da sociedade parce ser tão grande, que paralisou aqueles que não concordam com isso e vivem dizendo “mas são todos iguais”…

    “Parece piada MESMO. Não vote na guerrilheira, vote no partido dos torturadores.”

    O que parece piada é você querendo equiparar a ditadura militar com a ditadura de Cuba… Não que eu defenda alguma das duas, mas entre socialismo e capitalismo, com certeza fico com o último.

  • Bosco

    Gersom B;

    Setores conhecidos como agressores do meio ambiente doaram verbas a Marina para impedir uma vitoria de Dilma no primeiro turno:

    http://www1.folha.uol.com.br/poder/824295-vice-colocou-r-118-milhoes-na-campanha-de-marina.shtml

  • Junior

    @Bosco

    Simplesmente vergonhoso, pior mesmo é o pessoal agir dessa forma com outro brasileiro, deveriamos nos tratar como irmãos sobre uma mesma bandeira, um mesmo hino, um mesmo país. “Nordestino não é gente”… Sabe o que é pior saber que isso saiu de uma futura advogada. Me envergonha(e deixa com raiva) ver uma coisa dessas.

    Abraço

  • Everton

    Pois é Bosco… Isto vem de mentes doentes.
    Sou paulista e não compartilho desse sentimento/pensamento primal.

    Mas violência vem de qualquer lado, infelizmente:

    http://blog.opovo.com.br/ancoradouro/ameaca-de-morte-ao-serra-via-twitter/

  • Everton

    P.S.: Não sou PSDB e nem PT. O linl que coloquei é claramente PSDB. postei apena pra mostrar que a falta de capacidade cerebral vem de qualquer lado.
    Sou a favor da paz e só defendo as políticas de Carl Sagan, até um dia que eu perceba que elas sejam inúteis e causem mal a humanidade.

  • Alisson

    Esse Mário Cesar é claramente um militante do PSDB, pago pra isso, vejam o twitter dele. (procurem no google).

    É daquele tipo de gente que envergonha as nossas lutas, que mesmo diante de todos os fatos óbvios da campanha religiosa do candidato Serra, continua defendendo a bandeira, sabem porque? Porque ele tem medo de dizer: “Eu errei”, típico de pessoa orgulhosa.

    É o tipo de gente que nem faz diferença, estar dentro de uma igreja defendendo morte aos gays (Colocar Silas e dizer que vetaria PLC 122 é a mesma coisa) ou defendendo o “ateísmo”…

    Está aí um exemplo perfeito de fanatismo ateu…

    Ainda bem que eu defende o humanismo secular, e não o ateísmo, nesse momento teria vergonha disso.

    Amigo, não sei sobre sua vida, mas idade não é requisito de inteligência, tenho 45 anos mas desde os meus 15 tenho uma visão clara, e mudei de opiniões várias vezes durante esta vida. Mas você está tendo uma visão fechada, digna de adolescente que mora com os pais ainda, que são sustentados por eles, tem faculdade toda paga e etc… Se você tem essa idade mesmo, se esqueceu de crescer ou sair da realidade da vida com os pais…

    Abraços, e desejo luz pra você.

  • http://www.twitter.com/boni_bo Francisco Boni

    @Paulo

    Cara, acorda.

    Só pode ser sem noção quem defende a ditadura militar em detrimento de uma suposta ditadura comunista brasileira que não existiu. Confundir atualidades de terror e abuso desproporcional com potências que apenas podem vir-a-ser, podem justificar a ação de qualquer doente mental que invada a sua casa e estupre a sua família por causa de um ‘bem maior’ que ainda não aconteceu. É como justificar o nazismo por causa de livros anti-semitas que existiam desde a década de 20, que anunciavam uma suposta ameaça dos judeus.

    Meu pai foi fichado no DOPS e nunca foi marxista. Muitos estudantes desapareceram, jovens foram estupradas e torturadas com cabo de vassora no ânus e na vagina, tudo em nome do “bem maior” oficial e evitar que o ouro de Moscow vertesse aqui.

    Esqueceram do atentado do Rio-Centro? Quem forjou “ataques terroristas” com a máquina do terror estatal?

    O estado que rompe a ordem constitucional não merece respeito. Comunistas guerrilheiros eram combatidos desde a década de 30, para quem não sentou a bunda pra estudar. O golpe material de 64 e o golpe institucional de 68 com AI-5, que marcam o início da tortura e a censura em nome de um ‘bem maior’, foi uma desculpa para que sociopatas tomassem o poder. Se existiram sociopatas do lado da esquerda, isso pouco importa a partir do momento que se rompe a ordem constitucional. Qualquer legitimidade se perdeu ali.

    Como bem define esse texto (http://www.amalgama.blog.br/10/2010/dilma-define-a-democracia-como-ninguem/), durante o rompimento constitucional não há espaço para liberdade ou democracia. Todos regimes que romperam a ordem para instalação de uma ruptura dos espaços democráticos foram condenados pela história como verdadeiros monstros. Não se prefere uma ditadura militar em detrimento de uma suposta ditadura comunista que nunca existiu. E se por acaso emergisse para ser, ficaria marcada no mesmo lugar na história e estariamos agora falando dos doentes comunistas e não dos doentes mentais militares.

    O que está em jogo não é socialismo ou capitalismo, porque todos não existe NENHUM país 100% capitalista ou 100% socialista. Somos todos economias mistas. O que importa é que só pode estar confuso quem prefere a ditadura militar aqui no Brasil, ou quem está na Rússia agora e prefere a ditadura soviética que existiu entre 1922-1991. Não pensar assim é a mesma coisa que condenar os judeus que assassinaram gente do partido nazista na Kristallnacht, quando foram perseguidos. Quando há rompimento constitucional e perseguição, não existe desculpa, quebra-se qualquer legitimidade. A constituição é a única coisa que legitimiza as ações e nos separa dos animais. É por isso que os velhos militares estão presos no Uruguai, Argentina, Peru e até no Chile. Enquanto aqui no Brasil, eles vão na palestra do Reinaldo de Azevedo.

  • Gerson B

    [Bosco2 novembro 2010 às 16:21
    Gersom B;

    Setores conhecidos como agressores do meio ambiente doaram verbas a Marina para impedir uma vitoria de Dilma no primeiro turno:

    http://www1.folha.uol.com.br/poder/824295-vice-colocou-r-118-milhoes-na-campanha-de-marina.shtml ]

    Bosco, não entendi porque esse assunto apareceu dirigido a mim. Trabalhei no início do PV (já revelei isso aqui?), mas embora seja ideologicamente verde (não o tipo deles) só voto neles às vezes, e sei que não tem santinho lá. Sei alguns podrinhos internos tambem hehe.

    Mas o link que você colocou só traz as doações do candidado a vice dono da Natura. Não entendi daonde você tirou a ideia de que ele teria doado pra prejudicar a Dilma forçando um 2° turno. Me parece muito mais lógico que fosse pra eleger a Marina e ele junto. E “setores” está no plural. Cadê os outros? Não tá rolando um certo exagero na sua interpretação?

    E a Natura é agressora do meio ambiente? Não que eu ponha a mão no fogo, mas até por razões de marketing eles não tem atividade ambiental?

  • Everton

    Chega a ser engraçado, um lutando contra o outro por ideologias no mínimo discutíveis.
    Concordo, em partes, com o que o Boni escreveu mas não tenho certeza quando ele fala “A constituição é a única coisa que legitimiza as ações e nos separa dos animais”.

    Poderia explicar melhor isso Boni?

    P.S.: Não concordei com o texto do link apresentado por você. Não no sentido da defesa em si, mas o modo religioso que foi escrito. Já textos assim antes e não revelaram coisas boas no futuro.

  • http://www.twitter.com/boni_bo Francisco Boni

    @Everton
    “A constituição é a única coisa que legitimiza as ações e nos separa dos animais”.

    Poderia explicar melhor isso Boni?

    Amigo, vou repetir o que eu falei. Comunistas guerilheiros doentes mentais eram caçados desde a década de 30, dentro do Estado de Direito.

    O rompimento da ordem constitucional, um processo de fechamento que durou de 64 até 68, serviu para que os doentes mentais sociopatas tivessem o direito de realizar desaparecimento de corpos oficiais, estupros oficiais, tortura e todo tipo de absurdo em nome de um bem maior. Stalin mandava direto pros Gulags, em nome de um ‘bem maior’, para afastar o imperialismo capitalista que poderia vir-a-ser. Aqui no Brasil, você era fichado no DOPS. Se você precisava de um emprego, era necessário o “Atestado de Antecedentes Políticos e Sociais” ou “Atestado Ideológico”, que era fornecido pelo DOPS a quem não tinha ficha no órgão. Se você fosse valioso, você era oficialmente torturado em nome de um ‘bem maior’ para afastar a ameaça comunista que poderia vir-a-ser.

    Dentro do Estado de Direito, respeitando os limites constitucionais, você pode ser detido ou investigado. Quando há um rompimento disso, nada mais é legítimo ou válido. A verdade, tão cara até mesmo nos dias de hoje, é irrecuperável. Mas quem rompeu a ordem e aplicou o golpe é o carrasco da verdade. A história prova isso. Por isso o nome da cagada é golpe e não revolução. Muitos jovens, de orientação marxista, assustados por terem seu direito de livre expressão aviltado, se juntaram aos grupos de combate. Muitos deles sequer eram comunistas de décadas passadas.

    Um exemplo prático hipotético: seu irmão hipotético está metido com milícias paramilitares. O departamento de inteligência de polícia, após se deparar com a morte de alguns agentes, resolvem agir em nome de um ‘bem maior’, de modo oficial e dentro da lei, entrando na sua casa, ameaçando com a sua mãe hipotética com estupro e te levando para ser torturado para saber sobre o paradeiro do seu irmão hipotético. O seu pai perde o emprego, porque sua família foi marcada como subversiva.

    Entendeu a ironia? Esse é o fechamento do espaço democrático. Não a considero melhor e nem pior do que qualquer ditadura que existiu históricamente. Só acho um absurdo alguém achar um golpe de Estado melhor do que uma suposta ditadura comunista brasileira que sequer existiu. E se tal ditadura comunista tivesse existido, eu estaria aqui falando dos golpistas comunistas, que se materializaram e estaria vilipediando quem defendeu um golpe de Estado comunista.

    Já que você não leu o final do texto do link, aí vai, é uma extensão do que eu tentei te explicar da maneira mais direta e crua possível:

    Mas para explicar, primeiro preciso passar além da beleza do vídeo e chegar à parte mais importante do que há nele: a questão da democracia. Pois bem, a hoje candidata à presidência demonstra, nessa resposta exaltada e demolidora, um entendimento impecável daquilo que é o conceito de democracia. Ela coloca em pouquíssimas palavras sua ideia de democracia, e é uma descrição perfeita como jamais vi em qualquer político brasileiro. E isso, falando de improviso.
    Destaquei um trecho da fala dela, embora não seja onde está o principal. Mas é o único trecho onde consigo resumir bem o argumento acima. Ei-lo: “O que mata na ditadura é que não há espaço para a verdade porque não há espaço para a vida. Algumas verdades, até as mais banais, podem conduzir à morte.” O trecho tem o objetivo de sustentar algumas outras afirmações, como uma das primeiras: “Qualquer comparação entre a democracia e a ditadura só pode partir de quem não dá valor à democracia”, além de uma parte mais extensa em que ela explica ao senador que, estando numa democracia, ela tem a liberdade de comparecer à comissão de inquérito e dizer a verdade, enquanto ele tem a liberdade de fazer perguntas para estabelecer a verdade, porque ambos estão num plano de igualdade existente apenas numa democracia.
    Mas são três os conceitos capitais do trecho em questão que demonstram a compreensão claríssima e formidável que Dilma tem da democracia (e que eu gostaria de poder ver nos editoriais do jornal que chega aqui em casa, mas posso esperar sentado). O primeiro é o espaço, o segundo é a vida e o terceiro, que não está no trecho, mas aparece muitas vezes na fala de Dilma, é o corpo. (Dilma diz: “Feliz é o país que não tem heróis desse tipo. Resistir à tortura é muito difícil e a tentação de dizer a verdade é muito grande”.)
    O corpo é um conceito ligado à política desde sempre. Platão já fazia a analogia entre a cidade e o corpo; Agostinho, idem. Hobbes, nem se fala: está na capa de seu livro mais célebre, desenhada segundo suas próprias instruções. Deleuze e Guattari subvertem essa imagem quando falam do “Corpo sem Órgãos”, mas deixemos isso de lado. Existe uma contra-corrente também bastante antiga, que data do período helenístico, estoura com Spinoza e subsiste até hoje em autores como Claude Lefort e Giorgio Agamben. Para esses, a questão não é nem de estabelecer uma analogia entre a política e o funcionamento do corpo, nem de traduzir o corpo do soberano como uma espécie de representação da vida social. O ponto principal é enxergar na vida política um espaço (opa, voltarei a essa noção mais tarde) de determinação para os corpos. Ou seja, é na vida política que os corpos podem agir e, através da ação, determinar-se, encontrar seu lugar (opa, espaço de novo), seus modos possíveis de operar uns sobre os outros e sobre si próprio.
    Esses corpos, agindo, tornam-se pessoas no sentido pleno da palavra, isto é, cidadãs, sujeitos políticos. Ao agir, elas têm poder, elas têm potência, elas têm vida. Essa noção é capital. A questão da vida e da morte, como a do corpo, também fundamenta uma infinidade de teorias políticas. O medo da morte, da guerra de todos contra todos, está na origem de ideias como o contrato social (pelo menos entre os autores ingleses) e o monopólio estatal da violência legítima, de Weber. Através da política são decididas as condições para a morte (declaração de guerra e execução penal, por exemplo), e é estabelecido o espaço (droga, me adiantei com esse termo de novo) onde a vida pode se desenvolver. Figuras como o homo sacer (Agamben) e o bode expiatório encarnam essa dupla determinação da vida e da morte, simbolizando o processo decisório central da vida política de uma sociedade.
    É assim que se determina o espaço político e social. Com o espaço, determinam-se também todas as possibilidades, todas as concretudes, todas as verdades efetivas. Dilma tem toda a razão ao dizer que, sob tortura, numa ditadura, a verdadeira coragem e a verdadeira honra estão em conseguir mentir. Porque, como ela mesma coloca, o diálogo é entre o pescoço de um e a forca do outro. Em regimes outros que a democracia, o espaço disponível é um só, determinado por atores que, no mais das vezes, estão acima ou à parte da sociedade. É exatamente por esse motivo que, na analogia que esses regimes fazem com o corpo, todo o organismo representa a sociedade em geral, mas a cabeça corresponde ao soberano, seja ele real ou imaginário. Porque é o soberano que comanda o corpo, tendo até o poder de decepar alguns de seus membros.
    O que a democracia tem de diferente, Dilma resume muito bem: a democracia é aquilo que mantém os espaços abertos para o possível. Claude Lefort fala da democracia como um espaço vazio. Subscrevo. Na democracia pode haver diálogo, como coloca Dilma, porque as vias não estão determinadas, não há uma cabeça soberana decepando um membro e acariciando outro. A liberdade é a liberdade dos corpos, a verdade é a verdade da vida, o diálogo é o diálogo entre cidadãos, sujeitos políticos plenos. Para um autor como Spinoza, por exemplo, a democracia é o regime absoluto. Vale acrescentar que ela precede todos os outros, ou seja, qualquer outro regime é uma violência exercida justamente contra esse espaço aberto onde operam os corpos.
    É isso que o coitado do senador Agripino não consegue entender, enquanto Dilma o mói e descasca diante de seus pares e das câmeras. Ele não tem a menor ideia do que possa vir a ser uma democracia, ele que está acostumado a um mundo em que alguns mandam, outros obedecem; alguns podem matar, outros podem morrer se saírem da linha designada pelos primeiros. A verdadeira democracia é aquela em que todos podem, todos têm liberdade e têm meios para agir. Nada mais distante do mundo a que pertence José Agripino, daí sua cara de vazio diante da humilhação imposta pela ministra Dilma Rousseff.
    Andam dizendo que a última cartada para evitar a vitória de Dilma é a evocação de sua história como militante contra a tirania nos anos 70, quando ela tinha, veja no vídeo, entre 19 e 21 anos, e o senador Agripino tinha muito mais. País estranho. Este deveria ser um motivo para promover a eleição da ex-ministra, não para evitá-la. Como se vê pela naturalidade e a espontaneidade com que ela define a democracia e a diferencia da ditadura, a candidata aprendeu na pele, no corpo o sentido desse espaço público, vazio e aberto ao possível. Oxalá o país consiga aprender também, mas de uma maneira menos traumática.

  • Pena Ajena

    Puta que pariu, Boni!

    Eu queria ter um filho assim …

    \o/

  • Paulo

    FBN,

    “Cara, acorda.”

    Opa! Tô acordado… Mas quase cheguei a dormir lendo o texto que você linkou. Êita texto longo sô! Não tem um fluxograma aí? Sacanagem, é que sou meio burro em português e achei esse texto meio prolixo demais. =)

    “Só pode ser sem noção quem defende a ditadura militar em detrimento de uma suposta ditadura comunista brasileira que não existiu.”

    Então acho que sou o Joselito sem noção.

    “Confundir atualidades de terror e abuso desproporcional com potências que apenas podem vir-a-ser, podem justificar a ação de qualquer doente mental que invada a sua casa e estupre a sua família por causa de um ‘bem maior’ que ainda não aconteceu. É como justificar o nazismo por causa de livros anti-semitas que existiam desde a década de 20, que anunciavam uma suposta ameaça dos judeus.”

    Cara, até parece que estou tentando justificar a ditadura militar! Uma coisa é eu dizer que “era um tempo em que o mal vermelho assolava o mundo e uma ditadura de direita se fazia necessária”; e outra bem diferente é eu dizer que “uma vez instaurada uma ditadura de direita, capitalista, e havendo guerrilheiros tentando instaurar uma ditadura de esquerda, comunista/socialista, eu torceria para a primeira prevalecer.”

    “O estado que rompe a ordem constitucional não merece respeito.”

    Se você diz… Vou pensar aqui com meus botões se a luta contra uma ditadura justifica sequestros e assassinatos…

    “Se existiram sociopatas do lado da esquerda, isso pouco importa a partir do momento que se rompe a ordem constitucional.”

    Bem, pra mim importa caso um destes sociopatas se candidate para presidente do meu país… Talvez não importe pra você, que até já chegou a defender o desenvolvimento da bomba atômica pelo Irã em outra discussão aqui no Bule…

    “Não se prefere uma ditadura militar em detrimento de uma suposta ditadura comunista que nunca existiu.”

    Sinto muito pelo seu pai. Não me entenda mal, não estou aqui tentando justificar a ditadura imposta pelos militares, sequer cheguei a entrar demais neste assunto pra não tentar justificar o injustificável… Mas volto a repetir que entre uma ditadura capitalista e uma ditadura comunista/socialista, prefiro a primeira.

    “Como bem define esse texto [...] , durante o rompimento constitucional não há espaço para liberdade ou democracia.”

    Bem, desculpe mas não entendi direito o que isso tem a ver com o que digo… Em primeiro lugar, este Senador é um otário, onde já se vui tentar sugerir algo contra a honestidade de alguém pois este alguém mentiu sob tortura! Poderia muito bem ter passado sem essa. Em segundo, foi louvável a justificativa dela para ter mentido. Agora, onde foi que foram justificados assassinatos e sequestros? Segundo o que EU SEI, é com isso que ela estava envolvida, e pior ainda, não pela democracia, mas pela ditadura do proletariado, como a de Cuba.

    “Não se prefere uma ditadura militar em detrimento de uma suposta ditadura comunista que nunca existiu.”

    Eu prefiro! Em um caso hipotético no qual eu tivesse que escolher entre as duas para meu país, com certeza ficaria com a primeira.

    “O que está em jogo não é socialismo ou capitalismo, porque todos não existe NENHUM país 100% capitalista ou 100% socialista. Somos todos economias mistas.”

    Pode até ser (pode?) que a ex-URSS não fosse totalmente socialista, e que os EUA não fossem 100% capitalistas, mas segundo o que eu aprendi até hoje, isto não impede de classificarmos eles deste jeito. Agora, a Cuba dos anos 70/80 era capitalista era eu não sabia?

    “O que importa é que só pode estar confuso quem prefere a ditadura militar aqui no Brasil, ou quem está na Rússia agora e prefere a ditadura soviética que existiu entre 1922-1991.”

    Leia meu comentário novamente, nunca disse que gostaria que hoje ainda existisse a ditadura militar no Brasil (se não foi isso que quiz dizer, ignore esta parte).

    “Quando há rompimento constitucional e perseguição, não existe desculpa, quebra-se qualquer legitimidade. A constituição é a única coisa que legitimiza as ações e nos separa dos animais.”

    Novamente, não estou tentando justificar a ditadura militar…

    Repito que entre uma ditadura capitalista e uma social/comunista, sou muito mais a primeira, pois parto do princípio que “o capitalismo distribui desigualmente a riqueza enquanrto o socialismo/comunismo distribui igualmente a pobreza”. Um belo exemplo é a China com seu boom econômico após a abertura da economia, e onde “houve nos últimos anos um aumento significativo da qualidade de vida dos chineses.” Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Rep%C3%BAblica_Popular_da_China#Economia

    Novamente, gostaria de repetir que não tentei justificar a ditadura militar, mas não vejo mérito algum em guerrilheiros que sequestravam e assassinavam por uma ditadura ainda pior.

    Se quizer mesmo me fazer mudar de idéia, tem as seguintes opções:

    1. Me mostre que a Dilma lutava pela democracia e não pelo comunismo;

    2. Me mostre que ela nunca participou de grupos guerrilheiros que participaram de assassinatos e sequestros.

    Por fim, pode até ser que ela tenha mudado de idéia de lá pra cá. Gostaria muito que ela me fizesse engolir estas palavras e mostrasse um posicionamento totalmente diferente do posicionamento do Lula frente a ditaduras como Irã, Cuba e Venezuela (porque o Lula, esse eu tenho certeza que idolatra os Castros até hoje…). Aí sim eu começaria a rever meus conceitos com relação à Dilma.

  • http://www.twitter.com/boni_bo Francisco Boni

    @Paulo
    Talvez não importe pra você, que até já chegou a defender o desenvolvimento da bomba atômica pelo Irã em outra discussão aqui no Bule…

    Prove.

    @Paulo

    Você é refutado pelas suas próprias afirmações:
    http://img834.imageshack.us/img834/6899/bulevoadorblogarchivedi.jpg

    Entre uma ou outra, na sua concepção, a melhor seria a ditadura militar, o que a torna justificável perante a outra possibilidade que poderia vir-a-ser (ou não)

    Se você prefere e se você pudesse decidir em um caso hipotético, você ficaria com a ditadura capitalista em detrimento de uma ditadura comunista que poderia ou não se instalar. E dentro dessa idéia de possibilidade, os doentes da direita tiveram o prazer de desaparecer com corpos, de torturar, tudo pelo ‘bem maior’ contra o ‘mal invisível’, dentro do Estado de exceção. Vários oficiais adoraram essa idéia. Por isso Dilma disse no video: “…não é uma ditadura policialesca, mas é a tortura e a morte indiscriminada”. Quem errou primeiro? Quem quebrou a ordem constitucional? A resposta tá aí. Os doentes da esquerda eram combatidos desde a década de 30, de maneira legítima. Então a cagada total, que se chama ‘golpe’ – independente de quem pôde perpetrá-lo – legitimiza qualquer luta subsequente porque não há espaço para a verdade dentro da ditadura porque não há espaço para a vida. O monopólio da violência estatal só é legítimo dentro dos limites constitucionais. Esses limites são o que impede você de ser tratado como ser humano e não como animal, mesmo que você seja um criminoso infrator.

    Você poderia afirmar que, sendo tudo igual, o Brasil seria um país pior depois da ditadura comunista (se a mesma se instalasse). Mas antes de argumentar isso, você primeiro precisa provar a inevitabilidade do ouro de Moscow aqui, ou seja, da probabilidade de ditadura comunista. Houve várias tentativas de golpe militar contra JK porque ele era “comunista”. Depois, também com apoio americano, fizeram em cima do Goulart. Diante dessa situação de escolher entre uma ou outra, eu juro que tirava na moeda, porque, sendo tudo igual, não há como apostar em uma ou outra. É fato que um livre-mercado vibrante, com um estado centralizador dinâmico corrigindo as ineficiências do mercado, é o melhor sistema. Mas, como já disse, não há como apostar em uma ou outra, porque apesar da ditadura militar reservar o milagre econômico, foi também o período paradoxical em que houve um aumento enorme da desilgualdade social:

    Ocorreu, durante todo o período do “Milagre Brasileiro”, um dos maiores fluxos migratórios da história do país, com os trabalhadores rurais – que trabalhavam num regime arcaico e ineficiente, de baixa produtividade – sendo praticamente “expulsos” das propriedades rurais, onde viviam há gerações, em virtude da promulgação do Estatuto do Trabalhador Rural de 1963, alterado em 1973
    Parte dessa imensa massa migratória foi absorvida pela indústria, sobretudo, mas não só de construção civil, mas também pelas indústrias pesadas que não exigiam escolaridade, e até mesmo pelo comércio. Mas parte considerável desse enorme contingente migratório habitou as favelas no entorno das grandes cidades, onde sua situação econômica, que já era precária, piorou ainda mais em relação à baixa escolaridade média e à estrutura ineficiente (quando não total ausência) dos serviços públicos. Se viviam com renda quase nula nas fazendas, agora convivem nas favelas com a pouca renda e com uma série de novos encargos monetários a arcar, aos quais não estavam habituados: têm que pagar pelo aluguel, água, luz, gás, transporte coletivo, etc.

    Confirmando a premissa do parágrafo anterior, a miséria no Brasil também sofreu um bom incremento com as omissões da política de crescimento econômico adotada, segundo dados da Fundação Getúlio Vargas:
    A mortalidade infantil no estado mais rico da federação, São Paulo, teve um incremento da ordem de 10%.
    Registrou-se o aterrador número de 600 mil menores abandonados na Grande São Paulo.
    30 % dos municípios da federação não tinham abastecimento de água.
    O Brasil teve o 9º Produto Nacional Bruto do mundo, mas em desnutrição perdia apenas para Índia, Indonésia, Bangladesh, Paquistão e Filipinas. Um estudo do Banco Mundial, feito em 1976, mostrava que 70 milhões de brasileiros eram desnutridos ou subnutridos, cerca de 64,5% da população da época.

    http://pt.wikipedia.org/wiki/Milagre_brasileiro

    @Paulo
    não vejo mérito algum em guerrilheiros que sequestravam e assassinavam por uma ditadura ainda pior.

    Ninguém sabe quem realmente assassinou quem. O Estado Terrorista militar plantou ataques (Rio-Centro) e forjou mortes até de inocentes(Herzog). A partir disso que segue a idéia de que dentro do rompimento constitucional, tudo vale, porque a verdade se perde perante o monopólio ilegítimo e inconstitucional do regime.

    Portanto sabendo disso, pouco me importa o que o Estado Terrorista produzia sobre os Terroristas e seus atos ou não-atos. Se perde.

    @Paulo
    1. Me mostre que a Dilma lutava pela democracia e não pelo comunismo;

    2. Me mostre que ela nunca participou de grupos guerrilheiros que participaram de assassinatos e sequestros.

    Falácia do espantalho. Você distorce a minha posição – a ponto de imputar a mim afirmações não proferidas – para que ela possa ser atacada mais facilmente.

    Não disse que ela lutava pela democracia. Não sei exatamente pelo o que ela lutava. Mas sei que, pelo video, sei que ela entende de democracia. Inúmeros jovens fizeram parte de grupos guerilheiros. José Serra fundou a AP (Ação Popular) de orientação católica marxista. A AP foi acusada do atentado ocorrido em 25 de julho de 1966 no Aeroporto dos Guararapes em Recife que ocasionou na morte de duas pessoas e 15 feridos. Ou pelo menos é assim que a maquina estatal conta. Sendo assim, já que a verdade foi cooptada pelos golpistas, pouco importa o que aconteceu ou deixou de acontecer.

    Acho complicado que se mate. Mas acho normal que, quando peças de teatro são censuradas, jovens entrem para a administração e lógista de grupos clandestinos para mergulharem nas suas crenças, no que eles acreditam que é certo perante o cerceamento ilegítimo de suas liberdades perpetrado pelos golpistas. Dilma pode ter sido uma dessas jovens. O que vemos hoje é que mudou. E entende mais de capitalismo do que o Serra. E de dor de tortura, do mal da censura e de luta.

  • Paulo

    FBN,

    “Prove.”

    http://bulevoador.com.br/2010/06/04/por-que-o-ira-foge-do-controle/

    “Talvez o valor das armas nucleares não se traduz em como elas são usadas, mas como elas NÃO devem ser usadas.

    Se as armas nucleares desaparecem imediatamente, o arranjamento das forças geopolíticas se pareceria com europa da Primeira Guerra Mundial e as corridas imperialistas dos séculos passados.”

    Posso ter exagerado dizendo que você defendeu o desenvolvimento da bomba atômica pelo Irã, mas que sugeriu que seria benéfico, ah sugeriu!

    “Você é refutado pelas suas próprias afirmações”

    cassetada, achei que minha posição já tinha ficado bem clara nos vários comentários anteriores, por isso não tive o cuidado em escrever tudo de forma exata na passagem da figura… Mas vamos lá…

    1. Se estivesse em vigor uma ditadura capitalista e houvesse a ameaça de um golpe de uma ditadura comunista, torceria para a primeira prevalecer.

    2. Se estivesse em vigor uma ditadura comunista e houvesse a ameaça de um golpe de uma ditadura capitalista, torceria para a segunda.

    3. Óbvio que não havendo ditadura alguma, não admitira que fosse implantada qualquer ditadura.

    4. Daí digo que não defendo a ditadura militar, mas prefiro uma ditadura capitalista a uma comunista.

    Ficou claro agora? Pela enésima vez, não tentei justificar a ditadura militar! Pare de procurar pêlo em ovo!

    Sobre o milagre econômico: bem, você pode achar que tanto faz uma ditadura capitalista ou uma comunista. Eu já disse qual prefiro e porquê.

    “Ninguém sabe quem realmente assassinou quem.”

    Se vamos começar a tratar de teorias da conspiração, então já são ooooooooooooooutros quinhentos…

    “Falácia do espantalho. Você distorce a minha posição – a ponto de imputar a mim afirmações não proferidas – para que ela possa ser atacada mais facilmente.”

    Aueahueaheuaheae, juro que não quiz criar espantalhos! Na verdade foi uma tentativa HONESTA de abreviar a discussão, apontando pontos que me fariam mudar de idéia, ao invéz de ficarmos aqui discutindo por nada. Toda esta discussão começou com minha frase “[Dilma] que lutou sim contra a ditadura, mas não a favor da democracia, mas sim por uma nova ditadura como a de Cuba.”, e por eu tê-la chamado de guerrilheira. Bastava me mostrar que ela lutou pela democracia OU nunca chegou a apoiar sequestradores e assassinos, que eu pediria desculpas e iria rever meus conceitos, como já fiz antes. Maaaaaaaaaas, caso não tenha como mostrar pelo menos um destes dois pontos, isto não é problema meu. Apenas tentei mostrar claramente o caminha mais fácil pra me fazer mudar de idéia.

    “Sendo assim, já que a verdade foi cooptada pelos golpistas, pouco importa o que aconteceu ou deixou de acontecer.”

    Como assim pouco importa o que aconteceu ou o que deixou de acontecer? O mínimo que poderia dizer é que assassinatos e sequestros deveriam ser investigados! Engraçado, reclama que os militares não foram punidos, pra depois dizer que pouco importa se marxistas mataram ou torturaram? Sei que passadas várias décadas fica difícil de se investigar, mas daí esculachar e dizer que pouco importa se a PRESIDENTE do Brasil colaborou com sequestros e assassinatos na sua juventude já é sem noção!

    “Dilma pode ter sido uma dessas jovens. O que vemos hoje é que mudou.”

    O que leva ao meu último parágrafo do post anterior. Até gostaria de ver ela me fazendo engolir estas palavras dando um “pedala” no Coma-andante Castro…

  • Caruê

    Francisco Boni 100% apoiado.

  • http://www.twitter.com/boni_bo Francisco Boni

    @Paulo
    Posso ter exagerado dizendo que você defendeu o desenvolvimento da bomba atômica pelo Irã, mas que sugeriu que seria benéfico, ah sugeriu!

    É um fato matemático expresso pela teoria dos jogos: http://en.wikipedia.org/wiki/Deterrence_theory

    Eu não tenho opnião alguma sobre isso. Nenhum ser humano sabe o resultado das forças do oriente médio. Aqueles que tem informação mais apurada devem ter decidido por outra solução baseado no que realmente sabem sobre a capacidade nuclear do Irã.

    @Paulo
    Como assim pouco importa o que aconteceu ou o que deixou de acontecer? O mínimo que poderia dizer é que assassinatos e sequestros deveriam ser investigados! Engraçado, reclama que os militares não foram punidos, pra depois dizer que pouco importa se marxistas mataram ou torturaram? Sei que passadas várias décadas fica difícil de se investigar, mas daí esculachar e dizer que pouco importa se a PRESIDENTE do Brasil colaborou com sequestros e assassinatos na sua juventude já é sem noção!

    Cara, todos colaboraram com sequestros e assassinatos. Todos. Todas as pessoas colaboraram. O problema é que não se conhece a verdade de forma detalhada para se estabelecer um processo probabatório confiável em cima dos atores coadjuvantes.

    Se conhece a verdade nos limites instituicionais do golpe, ou seja, quem eram as principais figuram que fecharam a máquina do Estado. Por isso os militares velhos estão presos no Chile, Argentina, Uruguai. Aqui no Brasil eles vão de pijama pra palestra do Reinaldo de Azevedo. Quando eu reclamo dos militares, eu digo os generais que fizeram a merda toda. Não falo do cabo ou do estudante que arrastou alguém pro DOPS ou assaltou um banco.

    A verdade maior, suficiente, que se conhece sobre a ditadura é quem fechou o Estado para fazer dele seu parque de diversões. E as pessoas que fecharam foram tão burras, tão burras, que se estivessem em um país com uma configuração de poderes diferenciada, estariam na cadeia agora porque é isso que acontece na história. É isso que acontece nos tribunais de crime de guerra. São os grandes atores que rompem a ordem constitucional que são presos, não aqueles que são reféns disso, que são os oficiais militares. A verdade sobre o que oficiais militares fizeram, sobre o que nossa Presidente fez, ninguém conhece. Ninguém conhece porque o monopólio da violência estatal era ilegítimo e plantador de ações falsas para disseminar o medo e legitimar o próprio golpe. Por isso pouco importa o que está escrito nos arquivos da ditadura militar. Pouco importa da mesma maneira que pouco importaria o depoimento de um pai que estupra os próprios filhos. O Estado é ilegítimo e tudo que ele diz não é confiável.

  • Dedeco

    Ora os serristas estão repudiando a Dilma alegando que ela teria sequestrado e matado, até parece que ela não o fez, mas antes eu nunca tinha discutido isso, pois são tantas coisas envolvidas na problemática da Ditadura Militar. Entretanto, posso afirmar com toda a convicção que os ditadores fizeram tudo isso e muito mais, com o acobertamento, defesa “legal” e de outras formas não tão “legais” como assassinato de D.Lyda Monteiro na OAB RJ, assassinato e/ou mutilação do assessor do vereador Antonio Carlos(MDB RJ/MR-8), dentre outros. Por isso, o MP está acionando os torturadores para que sejam demitidos, paguem as indenizações que o governo vem efetuando e uma outra divida que agora esqueci, não sei se pelo avanço da idade.
    Pra quem está condenando a Dilma por pertencer a grupos de esquerda, o Serra também pertenceu, o Gabeira que agora tem estado com vocês, o Sirkis, o senador recém eleito por SP Aloisio Nunes.