Autora: Rayssa Gon
O dia 31 de outubro de 2010 deve ser lembrado como data histórica por todos os brasileiros. Nesse dia, através de uma eleição democrática, foi eleita a primeira mulher para o cargo mais alto na hierarquia poíitica do nosso país. Talvez, por não se tratar de um fato inédito – ver os exemplos da primeira ministra alemã, Angela Merkel, e da presidente argentina Cristina Kirchner – possa se perder um pouco a dimensão do que significa ter uma mulher como chefe de Estado. Principalmente num país como o nosso, patriarcal e de forte tradição cristã. Vivemos numa sociedade machista. A disparidade entre os salários de homens e mulheres ainda se mantem, mesmo com elas alcançando maior escolaridade. A violência contra a mulher é hoje considerada uma verdadeira epidemia e vitimiza milhares de cidadãs brasileiras.
Todas nós ainda carregamos, pelo simples fato sermos dotadas de uma vagina, o estigma de “filhas de Eva”. No mito cristão, a primeira mulher foi a responsável pela perdição de toda a humanidade. Por ter sido criada de uma parte “torta” e “deformada” de Adão, a costela, Eva e suas “filhas” seriam, assim, igualmente propensas ao erro, ao pecado, à malignidade. Além disso, a natureza feminina seria inclinada à ignorancia e falta de esclarecimento – afinal, acabou por cair na história da tal cobra – e , por isso, deveria se submeter ao homem, “cabeça da relação”.
Essa foi a base ideológica da perseguição às bruxas que poderia muito bem ser resumida (mas não absolutamente) a uma caça às mulheres.
Milhões de mulheres foram condenadas a queimar até a morte durante os séculos em que o Tribunal do Santo Ofício da Inquisição atuou. As acusações variavam mas grande parte dela estava relacionada a provocação de tempestades e geadas “inesperadas” , pestes, infertilidade de animais e impotência masculina. Acho importante, tendo em vista o tom cruzadístico que a campanha presidencial adquiriu depois do primeiro turno, ressaltar a principal acusação quer recaia sobre as bruxas:
Em O Martelo das feiticeiras, um capítulo inteiro explica “como as parteiras feiticeiras infligem os maiores males às crianças”: [...] Desde que a criança nasceu, se a mãe não é ela própria feiticeira, a parteira leva a criança para fora do quarto sob o pretexto de aquecê-la; depois, elevando-a nos braços, oferece-a ao príncipe dos demônios Lúcifer e a outros demônios; tudo isso na cozinha, em cima do fogo.¹
Consagração ao Cão era o mínimo esperado das “feiticeiras” pois muitas vezes elas eram também responsabilizadas por abortos, morte de recém nascidos, assassinatos de bebês e crianças com o objetivo de usa-las (ou alguma de suas partes) no preparo de poções e rituais.
Isso sem entrar na condição da mulher no mundo islâmico.
Se ainda, infelizmente, não temos autonomia suficiente sobre nossos próprios corpos (lembrando, claro, que a questão do aborto é mais abrangente) , pelo menos podemos no orgulhar de termos ultrapassado mais um preconceito e, com isso, alcançado a plena participação política após 78 anos da conquista do direito de voto feminino. A vitória de Dilma Rousseff deve encher de esperança e otimismo todos os brasileiros, homens e mulheres, que acreditam numa nação mais igualitária e democrática.
Dilma foi eleita por homens que tiveram coragem de superar a cultura machista na qual foram criados. Dilma não recebeu o voto de homens (e mulheres) que se recusaram a votar nela por divergência de pauta e não por ser mulher (quero crer que a maior parte deles). Dilma é a representante da filhas de Eva. Por fim, não posso deixar de pensar que a história às vezes nos dá certos presentes. No dia das Bruxas, uma mulher perseguida foi eleita presidente país. Dilma é a própria bruxa.
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*A imagem que ilustra o texto faz parte das estampas desenvolvidas pelo movimento Dilma é muitos, que também inspirou o título.
¹ História do Medo no Ocidente de Jean Delumeau.
















