Ceticismo nas eleições

Autor: Fábio Portela

No meu primeiro artigo publicado no Bule Voador, toquei em um assunto que me parece cada vez mais pertinente nas últimas semanas: a necessidade de adotarmos uma postura política cética. A importância de desconfiar, sempre, dos nossos governantes ou de quem tem anseios por sê-lo. As eleições de 2010 deixam cada vez mais claro o quanto nossa política precisa de cidadãos céticos. Ceticismo, ceticismo, ceticismo; o ceticismo deveria ser uma instituição política prevista na Constituição e ensinada nas escolas e faculdades.

Como você sabe, a influência nefasta e “oculta” da TFP sobre o PSDB nos trouxe uma discussão estapafúrdia sobre o aborto. Estapafúrdia, não porque a discussão a respeito da legalização do aborto seja irrelevante, mas porque o Presidente não tem competência para dar qualquer contribuição sobre o tema. O Presidente não pode decidir nada a respeito do aborto. Não pode editar uma Medida Provisória reformando o Código Penal, uma vez que a Constituição proíbe a edição de Medida Provisória sobre direito penal. Se o Congresso Nacional decidir editar uma Emenda Constitucional incluindo o aborto como direito fundamental, o Presidente também não pode fazer nada, pois Emendas Constitucionais somente podem ser promulgadas pela Câmara dos Deputados e pelo Senado, sem a necessidade de sanção presidencial.

“Em nenhuma hipótese o Presidente da República tem qualquer poder para decidir, sozinho, o que quer que seja no que diz respeito ao aborto.”

O Presidente pode fazer apenas duas coisas quanto a esta questão. Ele pode vetar um projeto de lei que revogue o crime de aborto – e nesse caso não teria poder algum para decidir a questão, pois o veto deve ser julgado no Congresso, que pode inclusive derrubá-lo. Ou então, pode sancioná-lo – mas nesse caso, a responsabilidade não é somente do Presidente, uma vez que o projeto todo foi discutido pelo Poder Legislativo antes. Ou seja, em nenhuma hipótese o Presidente da República tem qualquer poder para decidir, sozinho, o que quer que seja no que diz respeito ao aborto. É claro que ele pode e deve exercer sua influência política nas discussões a respeito da questão, mas, sozinho, não pode fazer nada. Os outros candidatos que já foram eleitos e compõem o Congresso e o Senado têm muito mais poder que o Presidente, mas ninguém discutiu essa questão em suas campanhas.

No meu mundo ideal da política, os dois candidatos iriam a público dizer que, no passado, realmente defenderam o direito ao aborto: Serra quando era ministro da saúde, cargo do qual tanto se gaba, e Dilma, há poucos anos, quando decidiu, assim como Serra, tratar a questão como um problema de saúde pública. E depois de dizer isso, pediriam que se discutisse temas sobre os quais um Presidente pode realmente decidir.

Os dois já se posicionaram a favor de o aborto ser tratado como uma questão de saúde pública. Mas os “boatos” lançados sobre a questão, com a caracterização de Dilma como uma defensora do aborto e de Serra como o “paladino do direito à vida”, somente trazem como consequência o retrocesso. O aborto, assim como a questão do casamento entre homossexuais, vinham sendo discutidas por nossa sociedade e provavelmente teriam avanços importantes no próximo governo. Mas, da forma como a questão foi trazida à tona pelos boatos e pelo PSDB, com o objetivo de angariar votos do público religioso, provavelmente discutir essas questões durante os próximos 4 anos será um tabu. Ninguém terá coragem de assumir uma postura mais progressista se a escalada de intolerância realmente for um fator importante na eleição, como está sendo.

“Temos uma briga idiota a respeito da moralidade dos candidatos. Serra é do bem, e a Dilma é contra o mal.”

Fôssemos mais céticos, estaríamos perguntando se esta realmente é uma questão importante para a eleição. Poderíamos discutir projetos que o Presidente da República realmente pode ter um papel relevante e decisivo. Por enquanto, tivemos uma briga irrelevante e idiota a respeito da moralidade dos candidatos. Serra é do bem, e a Dilma é contra o mal. Se as coisas permanecerem do jeito que vão, independentemente de quem for eleito, os Ministérios serão ocupados pelos Ministros Superman, Batman, Mulher Maravilha e Lanterna Verde.

“Estamos perdendo a oportunidade que o segundo turno nos deu de discutirmos criticamente propostas factíveis, executáveis e compatíveis com as atribuições de um Presidente.”

Quem perde com isso é a democracia. Realmente acredito que o segundo turno foi uma grande oportunidade de discutirmos o Brasil. Mas já perdemos uma semana discutindo quem é contra o aborto, e quem perdeu foi o Brasil, porque assistimos a uma escalada de poder autoritária dos religiosos mais radicais e a um retrocesso na discussão sobre os direitos de homossexuais e das mulheres. Estamos perdendo a oportunidade que o segundo turno nos deu de discutirmos criticamente propostas factíveis, executáveis e compatíveis com as atribuições de um Presidente.

Falta ceticismo e sobram falácias. Dessa mistura, não se pode esperar muito.

* Quanto a mim, por enquanto vou mantendo o meu voto do primeiro turno. Branco cético. Por favor, não me acusem de lulismo ou serrismo. A propósito, esta opinião é pessoal, não refletindo de nenhuma maneira o pensamento do Bule Voador.

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postado por Fábio Portela em Fábio Portela,Política
  • Hudson Lacerda

    Pelo título e figura do texto, imaginei que fosse sobre a fé obrigatória nas urnas eletrônicas e na infalibilidade do TSE. Vejam:

    http://www.seculodiario.com.br/exibir_not.asp?id=6841
    http://www.viomundo.com.br/tv/urna-eletronica-caixa-preta.html
    http://www.votoseguro.org/

  • Gere

    Se o Serra é antiaborto não entendo como uma mulher ainda pode votar nele. Só mesmo sendo uma fanática religiosa.
    Depois não se queixem se forem oprimidas pela religião, como acontece nos países islâmicos.

  • Gere

    Panfletos contendo os seguintes dizeres foram distribuídos em igrejas evangélicas para influenciar os votos no 1º turno das eleições:

    Você sabia que na eleição de 2002 os evangélicos elegeram 73 deputados federais e que em 2006 foram eleitos apenas 22 deputados? Perderam 51 cadeiras no congresso nacional. Como conseqüência, vários projetos estão sendo desarquivados para prejudicar as igrejas. Confiram algumas dessas propostas que tramitam por aí:
    1. Projeto de lei 102/03
    Trata sobre poluição sonora, mas busca fechar as igrejas por problemas com o som.
    2. Projeto de lei 115/95
    Sobre o casamento gay. As igrejas que não realizarem casamento de homem com homem, mulher com mulher estarão fazendo discriminação e, portanto poderão ser multadas e os pastores processados. Este projeto prevê também que o dia do “orgulho gay” seja oficializado em todas as cidades brasileiras.
    3. Projeto de lei 122/06
    Considera crime inafiançável qualquer manifestação contrária aos homossexuais e suas práticas em qualquer local público, inclusive nas igrejas, com pena de 2 a 5 anos de cadeia para os pastores.
    4. Portaria do ministério da saúde que inclui no sistema único de saúde (SUS) as cirurgias de “mudança de sexo”, pagas com o dinheiro de todos nós contribuintes.
    5. Projeto pela legalização das drogas. Querem oficializar a liberação do uso da maconha, inclusive com o forte apoio do atual ministro do meio ambiente.
    6. A lei 10.257/01
    Já está em vigor em nível nacional. Agora, quando os municípios a adotarem em seus planos diretores, apenas serão construídas as igrejas que tiverem a aprovação dos vizinhos num raio de 500 metros.
    7. Na Bahia, o poder público autorizou a colocação de estátuas de orixás no Dique do Totoró, para que sejam realizadas oferendas aos deuses africanos. Animais mortos durante os rituais de sacrifício estão causando um desastre ambiental.
    8. Projeto cobrando imposto das igrejas. O seu dízimo, a sua oferta, a sua contribuição estará sujeito a cobrança de impostos.
    9. Reforma política. Querem aprovar a votação por lista para que os evangélicos fiquem fora dos processos eleitorais, não podendo mais ocupar cargos políticos.
    10. Projeto de lei 952/03
    Estabelece que sejam crimes os atos religiosos que possam ser considerados abusivos a boa fé das pessoas. Os pastores serão considerados “criminosos” por ensinarem sobre dízimos e ofertas.
    11. Projeto de lei 1.154/03
    Proíbe a veiculação de programas que o teor seja considerado “preconceito religioso”. Se aprovado será considerado crime pregar sobre idolatria, feitiçaria e rituais satânicos. A verdade sobre esses atos contrários à palavra de Yahweh não poderá ser mais mostrada.
    12. Proposta de alteração na constituição para proibir o culto fora dos templos (evangelismo de rua).
    13. Projeto de lei 299/99
    Se aprovado vai limitar os programas evangélicos no rádio e na televisão para apenas uma hora por dia. O restante da programação não poderá ter cunho religioso.
    14. Projeto de lei 6.398/05
    Apenas poderão fazer programas de rádio e televisão pessoas com formação superior em jornalismo. A maioria dos pastores não poderia atuar no rádio e na televisão.
    15. Acordo Brasil — Vaticano
    Permitirá ao Estado custear todas as despesas relativas à igreja católica, além de reservar terrenos para a referida instituição religiosa nos planos diretores das cidades.

  • http://confissoesd1nerd.blogspot.com Confissões de um Nerd

    Eu,particularmente não confio mais em ninguém,tá todo mundo beijando o pé dos crentes pra poder se eleger,isso é ridículo.

  • http://grandequestao.wordpress.com/ Dhiogo

    Tenho medo desta clara manifestação de força dos líderes religiosos, estão barganhando posições dos candidatos:

    http://blogs.abril.com.br/blogdojj/2010/07/dilma-faz-acordo-com-os-evangelicos.html

  • http://bardoateu.blogspot.com Wagner

    Fábio,
    Excelente texto. Gostaria de pedir a permissão de divulgar no Bar do Ateu, com os devidos créditos à seu nome e ao Bule, com link para cá.
    Abraço

  • Fábio Portela

    Caro Wagner,

    Fique a vontade. Deixando a referência ao site, ao nome do autor e com a url redirecionada pra cá, não há o menor problema.

  • angela fleury

    Fábio
    È com muito prazer que divulgo um texto com opinião brilhantemente colocada…E os nossos candidatos são camaleoes sim…….Voto porque quero exercer meu direito,mesmo que minha convicção não corra paralela ao meu candidato… Triste??? também acho mas ainda quero ter esperanças seja qual for o resultado….abraços

  • Rufa

    que saco esses evangélicos… tão com o poder na mão.

  • Pingback: Eduardo Kalinowski » A propósito: o presidente não decide nada sobre o aborto