Código Florestal Brasileiro: o tiro sai pela culatra

Fonte: Folha de São Paulo, 5 de maio de 2010

Via: Ecoa

Autores: Thomas Lewinsohn, Jean P. Metzger, Carlos Joly e Ricardo Rodrigues

Editor: Pena Ajena

A pressão para atualizar o Código Florestal Brasileiro (CFB) aflorou nos últimos dois anos, fomentada especialmente por parlamentares ligados ao agronegócio. Tal como outros intentos governamentais que atritam com a área ambiental, imprime-se a esse projeto caráter de necessidade quase emergencial.

A pretendida reforma deveria remover o estrangulamento para a expansão de terras agrícolas, hoje supostamente bloqueada pela combinação de áreas de preservação permanente (APP) e reservas legais (RL). Só que esse bloqueio não existe.

A suposta escassez de terras agricultáveis não resiste a estudo mais criterioso, como o recentemente coordenado pelo professor Gerd Sparovek, da Escola Superior de Agricultura da USP (Esalq).

 

“As APP e RL serão colapsadas, reduzidas e drasticamente transformadas”

Realocando para cultivo agrícola terras com melhor aptidão, hoje ocupadas com pecuária de baixa produtividade, e aumentando a eficiência da pecuária nas demais, por meio de técnicas já bem conhecidas, a área cultivada no Brasil poderá ser quase dobrada, sem avançar um hectare sequer sobre a vegetação natural.

A reforma também pretende retirar da ilegalidade muitas propriedades que não mantêm as APP e RL estipuladas. Para isso, pensa-se em fundir as APP com as RL e flexibilizar o uso destas últimas.

No entanto, as APP e as RL são áreas que exercem papel complementar na conservação das paisagens rurais e não deveriam ser tratadas como equivalentes. Ademais, o uso de RL com espécies exóticas representa uma completa descaracterização dessas áreas.

Sob a desculpa de proteger as pequenas propriedades, as APP e RL serão colapsadas, reduzidas e drasticamente transformadas, levando a amplos desmatamentos e perda de áreas protegidas, que não se destinam apenas a conservar espécies e a promover o uso sustentável de recursos naturais.

 

“Os parlamentares decidiram quem são os cientistas que merecem atenção”

Elas asseguram uma gama de serviços ambientais indispensáveis à qualidade de vida humana e à própria qualidade e produtividade agrícola. Da proteção dessas áreas dependem a regulação de cursos de água, o controle da erosão, a polinização de diversas plantas cultivadas, o controle de pragas, o sequestro do carbono atmosférico e muitos serviços mais.

Qual a participação da comunidade científica competente na formulação dessas alterações? Quase nula. Há muitos grupos científicos pesquisando ativamente a conservação e restauração da biodiversidade e o desenvolvimento de metodologias que permitam a produção agrícola com a efetiva preservação do ambiente.

Nem os pesquisadores mais reconhecidos dessas áreas nem as sociedades científicas relevantes foram ouvidos. Os parlamentares decidiram quem são os cientistas que merecem atenção e desqualificaram ou ignoraram todos os demais.

 

“E quem duvida de que tal certificação será cada vez mais exigida?”

Passado quase meio século de intensas transformações, é necessário atualizar o CFB, facilitar a produção agrícola em pequenas propriedades, mas sem deixar de fortalecê-lo nos objetivos essenciais.

Se esses objetivos forem soterrados, haverá sérias consequências para o próprio agronegócio, porque não apenas se comprometerá os serviços ambientais, mas o mero cumprimento formal de legislação ambiental inócua não irá assegurar certificação ambiental respeitada.

E quem duvida de que tal certificação será cada vez mais exigida para comercializar qualquer commodity brasileira?

É hora de os agroparlamentares e demais envolvidos compreenderem que as demandas ambientais representam componentes indispensáveis da boa agricultura, bem como da melhor qualidade de vida.

 

Participe:

 

 

 

 

Leia também:

Relatório do Código Florestal teve consultoria ruralista 

Codigo Florestal Brasileiro. Conheça o estudo do professor da Esalq/USP Gerd Sparov

 

No Bule:

O excelente artigo do colaborador convidado Marcos Rosa: Uma análise sobre a sustentabilidade e sobre os interesses individuais e coletivos

Parte 1 e Parte 2

 

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postado por Bule Voador em Meio Ambiente
  • Ioldanach

    O novo Código Florestal vai garantir o desmatamento de 40 milhões de hectares que vão ser “anistiados” como crimes ambientais,outros 70 milhões deixarão de ser preservados por conta da diminuição da reserva legal da área degredada e cerca de 67 de milhões de hectares de área invadida em terras públicas vão continuar em mãos de grileiros

    Todos estes valores sobre o impacto ambiental do novo Código Florestal são do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia,porém,seja de onde for a fonte que pegue nenhum vai dar outro resultado do que este : o novo Código Florestal gera impactos pra lá de negativos no meio ambiente.

  • http://alexrnbr.wordpress.com Alex

    O Brasil tem que entender que o desenvolvimento e a preservação da natureza não devem ser inimigos. Não devem estar em lados opostos. Devem, sim, andar juntos. Um dos meus textos da próxima terça vai ‘falar’ um pouco sobre isso.

  • http://www.fboni.me Francisco Boni Neto

    Quando um comunista escreve sobre um novo código florestal anistiando latifundiários estupradores da natureza e mete argumentos retirados da bíblia…

    Sinceramente, eu quero mais é que se foda essa merda de país.

  • http://alexrnbr.wordpress.com Alex

    Francisco, fiquei curioso sobre sua citação referente a “argumentos retirados da bíblia”…

    Onde tem isso e como que alguém conseguiu fazer essa ginástica de utilizar a ‘briba’ até pra isso?????

  • Marcos Rosa

    Alex, segue o argumento utilizado pelo Aldo Rebelo:

    “E disse Deus ainda: Eis que vos tenho dado todas as ervas que dão semente e se acham na superfície de toda a terra e todas as árvores em que há fruto que dê semente; isso vos será para mantimento.”
    Gênesis

    É cada vez mais agressiva a corrente ambientalista que tende a responsabilizar moralmente o antropocentrismo como fonte primária e maligna dos desastres ambientais. Ao erigir o ser humano como o centro do universo, o antropocentrismo legitimaria toda a ação predatória contra a natureza. A tese carrega para o centro da polêmica até atores aparentemente alheios ao assunto: o Papa, em documento divulgado pouco antes da Conferência de Copenhague sobre o clima, reagiu duramente contra os adversários do antropocentrismo, afinal de contas, é a Bíblia o mais antigo e completo tratado de antropocentrismo, e Jesus, o Filho de Deus, não veio à terra em uma forma aleatória de vida, mas na figura de um homem.

    A crítica ao antropocentrismo nivela os seres vivos em direitos e protagonismo, desconhece o homem como o único ser vivo dotado de consciência e inteligência, capaz de interagir com a natureza e de transformá-la. O trabalho do homem, concebido primeiro em seu cérebro, ajudou a transformá-lo e a transformar o meio natural.
    …”

    A partir daqui, a IRONIA é minha: Não se preocupem… Deus criou a terra, às plantas e os animais para que o homem possa usufruir! Vamos deixar a ganância e a visão individualista de curto prazo dominar que no futuro Deus provê uma solução!!!!

    Eu, como todo brasileiro, também quero um boi domesticado… esse “animalzinho” de estimação tão querido pelos brasileiros e injustiçado por esses ambientalistas do mal, segundo a visão do nosso querido Aldo Rebelo!!