Autor: Eli Vieira
Calma. Não estou convidando ninguém a ser egoísta. Muito pelo contrário – pretendo mostrar que ser individualista é bem melhor para quem se preocupa com o resto da Humanidade.
O que é este individualismo que não é um egoísmo? É uma postura comum de quem é humanista e secular.
Humanistas seculares estão preocupados em defender uma plenitude da vida humana construída sobre um chão sólido. O chão sólido é que a vida humana seja vista como é apresentada pela ciência, ou seja, solitária no contexto cósmico, finita e rara, produto de processos puramente naturais. A construção da plenitude é feita tanto com o incentivo ao melhor entendimento desse chão sólido, ou seja, com a indicação da ciência como o método mais apropriado de obter conhecimento, quanto com a proposição de valores éticos que dizem respeito à preservação da vida humana.
“Isso é uma prescrição, e não uma descrição da realidade”
Esta preservação e manutenção da qualidade da vida humana é pautada no indivíduo. Porque entendemos que não há sociedade saudável sem indivíduos saudáveis.
A última frase merece uma explicação especial. ‘Saúde’ do indivíduo significa:
- expressar livremente suas opiniões e impulsos estéticos e artísticos,
- atender a seus impulsos biológicos fundamentais, como os sexuais, quaisquer que sejam contanto que com parceiros capazes de responder por si (o que exclui crianças por exemplo),
- ter a oportunidade de livrar-se da dor física e psicológica, mesmo que signifique optar pela eutanásia ou pelo aborto (contanto que responsavelmente e na ausência de alternativas),
- ter acesso universal à apresentação imparcial do conhecimento,
entre outras coisas que se seguem logicamente dos valores fundamentais que adotamos.
Valorizar o indivíduo evita coisas como a opressão das minorias, as guerras, os privilégios a instituições ideológicas e religiosas (como a isenção de impostos escandalosa que é dada às religiões no Brasil), a homofobia, o racismo, o fascismo, e todas as formas de comportamento de rebanho que foram danosas à Humanidade em sua história milenar.
Note que isso é uma prescrição, e não uma descrição da realidade. (É como queremos que as coisas sejam, e não como as coisas são hoje.)
“Empatia é a chave para esta postura”
Para os humanistas seculares, nenhum indivíduo pode ser transformado em bode expiatório. A ideia cristã, por exemplo, de que seria admirável o inocente Jesus morrendo para pagar por erros cometidos por outras pessoas, é simplesmente absurda aos olhos do Humanismo Secular (HS).
Também é absurda para o HS a ideia de que um indivíduo pode sozinho saber mais que todo o resto da humanidade (como um Papa, um Aiatolá ou um Lama). Isso é contraditório com o chão firme das ciências humanas, que mostra as limitações da mente humana tanto em ética quanto em conhecimento.
No HS o indivíduo humano é ‘sagrado’ (defensável), mas não é ‘santo’ (dotado de atributos não demonstráveis). Empatia é a chave para esta postura.
Sendo humanista secular, você não será homofóbico, porque entende que a atração sexual por pessoas do mesmo sexo é algo inexorável e irresistível para o indivíduo homossexual (empatia).
“Conceitos frouxos como nação, raça, grupo de fé”
Você não apoiará as guerras, porque saberá do horror que significa a morte de um único soldado cheio de esperanças e vontades de viver, e saberá que apesar da vontade do grupo, muitos indivíduos terão objeção de consciência com relação a se doarem por causas abstratas (empatia). Tampouco um humanista secular deverá comemorar quando defensores de ideologias anti-humanistas são mortos em conflitos – sabemos da fragilidade da mente humana ignorante e sua extensa propensão a crenças simplórias e tribais, que não diminuem a raridade e a preciosidade de um indivíduo humano, ainda que fanático e nocivo (empatia).
As crenças ufanistas e nacionalistas que motivam muitas guerras vão de encontro à cosmovisão humanista quando fabricam conceitos frouxos como nação, raça, grupo de fé, e outros conceitos coletivos que não significam nada perto do sofrimento real e das aspirações básicas de um organismo humano individual. Ninguém deve morrer pela pátria, pátrias não têm outra substância que não sejam ideias, pátrias não sentem dor, não têm aspirações nem necessidade de prazer.
Individualistas podem se orgulhar por ter nascido em determinado lugar do planeta, por falar certa língua ou pertencer a certa etnia. Mas, acima de tudo, não deixarão que este orgulho fira outros indivíduos na forma de xenofobia, racismo e sexismo, porque quem fere o outro fere a si próprio. Quem desvaloriza indivíduos em nome de ideologias de rebanho está desvalorizando a si próprio (Podem incluir aqui as torcidas fanáticas do futebol!).
“Faz muito bem para você e para os outros”
Ordens só devem ser seguidas na medida em que promovem a dignidade dos indivíduos humanos. Nenhum humanista secular deve atentar contra indivíduos sob a alegação de que estava somente seguindo ordens (como fizeram vários empregados do regime nazista que diariamente jogavam judeus na câmara de gás, ou como fez o personagem fictício Abraão ao obedecer as ordens de Javé para sacrificar o próprio filho).
A ciência mostrou que nós, indivíduos, somos raros, finitos, e pequenos. Encontrar outro indivíduo neste planeta é, portanto, um evento mais precioso que observar a explosão de uma supernova. Se você é individualista, portanto, você valoriza o que é raro e precioso. Nas palavras de Carl Sagan para sua amada Ann Druyan, “diante da vastidão do espaço e da imensidão do tempo, é uma alegria para mim partilhar um planeta e uma época com você”.
Pense nisso da próxima vez em que estiver andando pelas ruas da sua cidade, atrasado para o trabalho ou para o estudo. Olhe em volta os múltiplos rostos humanos: sorrindo e chorando, preocupados e contentes, esperançosos e cheios de fé, incisivos e fanáticos, com mente aberta e tentando se proteger, com medo e com coragem, opressores e oprimidos. Faz muito bem para você e para os outros.

















