Fonte: New York Times (2007)
Autor: Mark Oppenheimer
Introdução: Eli Vieira
Tradução: Alê GM
Morreu no último dia 8 o filósofo Antony G. N. Flew, e eu soube dessa triste notícia através de um blog cristão. Antony Flew, com seu trabalho filosófico acadêmico e técnico em filosofia da religião, alcançou fama internacional defendendo o ateísmo. A razão do interesse do blog cristão é que Flew, depois de velho, deixou de ser ateu e passou a defender a existência de “Deus”.
A notícia abaixo, traduzida por Alê GM (sem saber da morte de Flew), diretor de tradução da LiHS, recebeu o seguinte comentário de Richard Dawkins:
“Esta é uma das mais impressionantes peças do jornalismo investigativo que leio em muito tempo. Parabéns ao Mark Oppenheimer. A exploração cínica desse pobre homem é vergonhosa. Eu gostaria que houvesse alguma maneira de Varghese e os editores serem levados a tribunal. Pelo menos, todo esse episódio desagradável servirá como mais um exemplo revelador do desespero do lobby religioso – que estão dispostos a descer tão desprezivelmente baixo.”
É só mais barulho do supostamente barulhento Dawkins? Julgue por si mesmo e leia o texto do New York Times até o fim.
A Conversão de um Ateu
A não ser que você seja um filósofo profissional ou um ateu comprometido, você provavelmente nunca ouviu falar de Antony Flew. Com seus 84 anos e há muito aposentado, Flew vive com sua esposa em Reading, uma cidade de tamanho médio à margem do Tâmisa, uma hora a oeste de Londres. Durante uma longa carreira ocupou posições em uma série de universidades regionais decentes – Abardeen, Keele, Reading – e adquiriu uma forte reputação escrevendo sobre uma gama incomum de assuntos, de Hume à imortalidade a Darwin. Sua maior contribuição permanece sendo sua primeira, um curto artigo de 1950 chamado “Teologia e Falsificação”. Flew era um jovem precoce de 27 anos quando apresentou o artigo em uma reunião do Socratic Club, a sociedade de Oxford presidida por C. S. Lewis. Reimpresso em dúzias de antologias, “Teologia e Falsificação” se tornou um tratado heróico para ateus comprometidos. Em mil palavras magistralmente concisas, Flew defende que “Deus” é um conceito vago demais para ser significativo. Pois se a grandeza de Deus implica ser invisível, intangível e inescrutável, então ele não pode ser refutado – mas também não pode ser provado. Argumentos tão poderosos mas declarados de forma tão simples tornaram Flew popular no circuito de conversas do campus; vídeos de debates dos anos 70 mostram um homem desengonçado, seus cabelos pretos professoralmente desgranhados, dissecando crenças religiosas com um sotaque de escola pública inglesa perfeito para a sedução de ouvidos americanos. Antes da atual safra de autores-cruzados ateus – Richard Dawkins, Daniel Dennet, Christopher Hitchens – havia Antony Flew.
A fama de Flew está prestes a se espalhar para além de ateus e filósofos. HarperOne, uma editora da Harper Collins, lançou recentemente o “There is a God: How The World’s Most Notorious Atheist Changed His Mind” (Existe um Deus: Como o Ateu Mais Notório do Mundo Mudou de Idéia), um livro atribuído a Flew e a um co-autor, o apologista cristão Roy Abraham Varghese. “There is a God” é a odisseia de um intelectual escrito em linguagem simples para um público de massas. É a narrativa em primeira pessoa de um filho de pastor que, afastado no colégio Metodista, desafiou seu pai ao se tornar um ateu adolescente, mais tarde escreveu sobre ateísmo em Oxford, passou sua vida lutando pela descrença e então fez uma reviravolta na sua velhice, abraçando a verdade de um poder maior. O livro oferece descrições elegantes e ‘amigáveis ao usuário’ dos argumentos que persuadiram Flew, argumentos familiares a qualquer um que já ouviu a ‘prova científica de Deus’ dos cristãos evangélicos. Do argumento da “sintonia fina”, que diz que as leis da natureza são perfeitas demais para terem sido acidentes, até o argumento do “design inteligente”, que diz que a biologia humana não pode ser explicada pela evolução, até vários cálculos que pretendem mostrar que a probabilidade favorece um criador divido, “There Is a God” é talvez a cartilha mais acessível já escrita sobre a ciência (muitos diriam pseudociência) da crença religiosa.
A “conversão” de Flew, relatada pela primeira vez no fim de 2004, lançou-o em guerras culturais que ele evitou alegremente a vida toda. Apesar de Flew ainda rejeitar o Cristianismo, dizendo apenas que ele agora crê em “uma inteligência que explica tanto sua própria existência quanto a do mundo”, evangélicos estão compreensivelmente animados. Para eles, Flew tornou-se muito útil muito rapidamente. No fim de 2006, Flew estava entre os signatários de uma carta a Tony Blair pedindo para que o design inteligente fosse incluído no currículo britânico de ciências. A fama de Flew alcançou até as cidades pequenas da Pensilvânia, onde em 2005 o Juiz John E. Jones citou Flew em sua decisão histórica proibindo o ensino do design inteligente na cidade de Dover. Referindo-se a uma publicação do Conselho Escolar de Dover, Jones escreveu que ‘o jornal admite que o DI é religioso ao citar Anthony [sic] Flew, descrito como um ‘mundialmente famoso ateu que agora crê no design inteligente’”.
Mas a conversão de Flew é o que parece ser? Dependendo de para quem você pergunta, Antony Flew ou é um verdadeiro convertido cujas pesquisas intelectuais de toda a vida o levaram a Deus ou um erudito senescente possivelmente sendo explorado por seus associados. A versão escolhida vai depender de como você interpreta uma história que começou 20 anos atrás, quando alguns cristãos evangélicos encontraram um ateu que, eles pensavam, poderia ser persuadido a unir-se a eles. No cabo-de-guerra intelectual que se seguiu, o próprio Flew – a um continente de distância, sua memória falhando, sem uma conexão de internet – não tinha idéia de quão ferozmente estavam lutando por ele ou quantos de seus conhecidos estavam ligando ou escrevendo para ele só para fortalecer suas opiniões. Por um tempo Flew dificilmente falava com a mídia, deixando evangélicos e ateus trocarem interpretações de seus raros pronunciamentos oraculares. Seria ele agora um crente no design inteligente? No cristianismo? Em alguma vaga ‘força vital’ inteligente? Com a publicação de seu novo livro, Flew está novamente falando, e neste verão eu viajei à Inglaterra para conversar com ele. Mas como eu descobri, uma conversa com ele confunde mais do que esclarece. Com seus poderes em declínio, Antony Flew, um homem que devotou toda sua vida ao argumento racional, tornou-se um mero símbolo, um troféu em uma batalha travada por pessoas cujos interesses ele não entende completamente.
O DESCONCERTANTE ARTIGO apareceu no dia 9 de dezembro de 2004. “Um professor de filosofia britânico que foi um dos principais defensores do ateísmo por mais de meio século mudou de ideia”, escreveu Richard Ostling, da Associated Press. “Ele agora crê em Deus – mais ou menos – baseado em evidência científica e o diz em um vídeo liberado quinta-feira. Aos 81 anos, depois de décadas insistindo que a crença é um erro, Antony Flew concluiu que algum tipo de inteligência ou causa primeira deve ter criado o universo. Uma super-inteligência é a única boa explicação para a origem da vida e a complexidade da natureza, disse Flew em uma entrevista por telefone da Inglaterra”.
O “vídeo liberado quinta-feita” era “A Ciência Descobriu Deus?”, um DVD de uma conversa de maio de 2004, realizada em um estúdio de televisão na Universidade de Nova Iorque, entre Flew e dois populares defensores do teísmo, o físico e judeu ortodoxo Gerald Schroeder e o filósofo cristão John Haldane. Há grandes trechos de Schroeder, sentado atrás do que parece a mesa de um âncora, discursando para um Flew atento sobre questões como a improbabilidade de um número infinito de macacos datilografando aleatoriamente algum dia produzir um soneto Shakespeariano (Ele está refutando Stephen Hawking, que argumenta em “Uma Breve História do Tempo” que a natureza, dado tempo suficiente, pode realizar os feitos incríveis que pessoas crédulas atribuem a Deus). Schroeder também fala sobre a explosão de espécies animais no Cambriano, há centenas de milhões de anos, que ele diz ter acontecido muito repentinamente para não ter tido algum direcionamento sobrenatural. Haldane interrompe para argumentar que certas capacidades humanas, como linguagem e reprodução, podem ser explicadas apenas por uma inteligência superior. Enquanto isso, um narrador, falando conforme fotografias de Werner Heisenberg e Albert Einstein aparecem na tela e Vivaldi toca ao fundo, diz coisas como, “Muitos dos maiores cientistas de todos os tempos” acreditavam que “a inteligência do universo, suas leis, apontam a uma inteligência que não tem limitações”.
Quando finalmente Flew fala, sua dicção é hesitante, em forte contraste com Schroeder e Haldane, ambos homens mais jovens, enérgicos e seguros. Sob seus incitamentos, Flew admite que o Big Bang pode ter sido descrito no Gênesis; que a complexidade do DNA aponta fortemente a uma “inteligência”; e que a existência do mal não é um problema intransponível para a existência de Deus. Em suma, Flew retrata décadas de conclusões nas quais construiu sua carreira. Em certo ponto Haldane está notavelmente sorrindo, constrangido (ou contente) com a concordância de Flew. Depois de um breve discurso de Schroeder, defendendo que a origem da vida pode ser vista como uma forma de revelação, Flew diz, “eu não vejo nenhuma forma de responder a esse argumento no momento”.
O último segmento do DVD é um curto infomercial para “The Wonder of the World” (A Maravilha do Mundo), um livro de Roy Abraham Varghese, que, acontece, ajudou a pagar pela produção do DVD, e financiou as viagens dos participantes a Nova Iorque. Varghese é um consultor de négocios americano de 49 anos de descendência indiana, um praticante do rito oriental católico sírio-malancar e um cruzado incansável por (e financiador de) todos aqueles que acreditam que a pesquisa científica ajuda a verificar a existência de Deus. Através do Instituto de Pesquisa MetaCientífica, seu empreendimento de um homem só, ele patrocina conferências e debates, e foi em uma conferência em Dallas em 1985 que Varghese conheceu Flew.
“Estive envolvido com ele há 20 anos ou mais”, contou-me Varghese em agosto. Desde ter conhecido Flew, Varghese “o encontrou em Dallas diversas vezes”, falava com ele com frequência e periodicamente lhe mandava escritos sobre teísmo. Quando Varghese convocou a discussão da N.Y.U., ele disse que esperava que Schroeder e Haldane, ambos hábeis defensores da crença em Deus, pudessem carregar Flew adiante na direção que Varghese o estava guiando. “Eu sabia que ele estava naquele estado de espírito – de que não havia explicação naturalista para o mundo”, Varghese disse. “Mas, naquele evento, ele foi além, dizendo que a única explicação era de que havia um Deus”.
Foi Varghese quem enviou o DVD à mídia, pelo qual ele foi recompensado, no início de dezembro de 2004, com artigos do Ostling da Associated Press, e da Fox News, ABC News e uma série de redes religiosas de notícias. Em 16 de dezembro, Varghese contribuiu com um artigo de opinião ao “Dallas Morning News” que dizia, “semana passada, a Associated Press deu a notícia de que o mais famoso ateu do mundo acadêmico (…) agora aceita a existência de um Deus”. Varghese não mencionou que a Associated Press deu a notícia graças ao seu próprio comunicado à imprensa, que acompanhou o DVD (que ele ajudou a pagar) da conversa (pela qual ele pagou).
Varghese nao foi o único cristão a fazer amizade com Flew. “Somo amigos há 22 anos”, me contou Gary Habermas no fim de julho. Habermas, um professor da Liberty University, fundada por Jerry Falwell, conheceu Flew no bate-papo de Varghese, em Dallas, em 1985; mais tarde naquele ano ele convidou Flew à Liberty University para debater a Ressurreição, “Desde então Tony e eu dialogamos cinco vezes, três vezes sobre a Ressurreição”, disse Habermas, usando o apelido de Flew. “Eu não sei quantas cartas trocamos – dúzias. Eu não falo com Tony há uns dois meses, mas nos falamos a cada dois meses pelo telefone”. Habermas contou-me que em suas cartas Flew testava trocar as razões para a sua recém-descoberta crença em Deus, às vezes dizendo que acreditava no design inteligente, outras vezes dizendo que apenas a noção de Aristóteles de uma “causa primeira” era persuasiva. De fato, Flew nunca ofereceu uma explicação detalhada do que ele acredita, preferindo o uso de termos como “deísta Aristotélico” que conotam tanto um assentimento a uma inteligência superior quanto uma resistência à idéia de um deus pessoal.
Enquanto o perfil de Flew se elevava no mundo cristão, ele também era cortejado pela Universidade de Biola, a escola cristã conservadora perto de Los Angeles. No dia 11 de maio de 2006, a Biola premiou Flew com o segundo prêmio Phillip E. Johnson pela Liberdade e Verdade, intitulado em homenagem ao autor de “Darwin on Trial” (Darwin em Julgamento). Na cerimônia de Biola, Flew zombou da religião declarada do púplico e ostentou sua fidelidade ao deísmo: “O deus deísta, diferente do deus da revelação judia, Cristã ou, pelo amor de deus, islâmica, não está nem interessado e nem preocupado com crenças humanas ou comportamento humano”, contou ao pequeno público. Jim Underdown, que estava lá noticiando para um “think tank” de céticos, disse que estava surpreso que os cristãos quisessem Flew. Mas os cristãos, pelo visto, não estavam preocupados.
A NARRATIVA CONTADA pelos amigos cristãos de Flew – e em alguns do próprios pronunciamentos de Flew – tem uma certa coerência. Há mais ou menos 20 anos, dizem eles, intrigado pela ciência do Big Bang, Flew começou a prestar atenção, respeitosamente, a apologistas cristãos (e ao judeu Schroeder) que acreditam que a ciência agora apóia uma história de criação repentina que se assemelha àquela do Gênesis. Esses homens prometeram a Flew que novas pesquisas científicas, longe de serem inimigas da religião revelada, defendiam um Deus. E, na verdade, um número de estimados cientistas estavam, nos anos 80, falando sobre seus interesses em religião. Alguns, por exemplo, aceitavam a evolução como um fato mas se perguntavam se ela não poderia servir a um propósito divino, ou aceitavam o método científico mas tentavam aplicá-lo a questões teológicas. E muitos desses cientistas curiosos por Deus, como o matemático John Barrow, os físicos Paul Davies e John Polkinghorne e o químico Arthur Peacocke, eram ingleses (Polkinghorne e Peacocke foram ordenados na Igreja da Inglaterra). Este grupo desde então cresceu proeminentemente, e suas tentativas de criar uma ligação entre ciência e religião influenciaram muito os homens que, por sua vez, influenciaram Flew. Atento a homens ainda mais importantes, de Newton a Einstein, cujas palavras podem ser interpretadas para endossar a possibilidade de um criador divino, Flew ao menos se uniu à sua categoria. Flew sempre possuiu um incansável e até excêntrico intelecto, e isso era apenas mais uma reviravolta em sua carreira, ainda que surpreendente.
Ou talvez nem tão surpreendente, pois Flew nunca se considerou um ateu dogmático. Mesmo quando viajava pelo mundo argumentando contra a crença religiosa, ele nunca foi um polemista inflamado; filho de um pastor, ele não possuía nada da animosidade desconcertante que caracteriza muitos descrentes. Sempre respeitoso para com seus oponentes, ele exibia uma curiosidade incomum sobre suas crenças. O primeiro livro de Flew, em 1953, foi sobre a possibilidade (que ele por fim rejeitou) de fenômenos paranormais como percepção extrassensorial. Flew também possuía uma afinidade de longa data com política conservadora – ele foi assessor de Margaret Thatcher – que o tornou mais abordável que o normal para alguns cristãos. Sob a luz de seu conforto natal com pessoas religiosas e sua política favorável, a eventual aliança de Flew com cristãos não parece tão estranha.
Mas o que é uma narrativa coerente a partir de um ponto de vista é notavelmente incompleta a partir de outro. Pois, enquanto Habermas e Varghese, Schroeder e Haldane o estavam incitando-o em direção ao teísmo, um ateu dos EUA estava resistindo. Aqueles enviavam artigos a Flew – e este enviava artigos a Flew. Eles pensavam que estavam vencendo – mas ele também pensava.
Richard Carrier, um estudante de doutorado em história antiga, de 37 anos, é um tipo reconhecível para qualquer um que já tenha passado bastante tempo em um torneio de xadrez ou em uma convenção de ficção científica ou em uma conferência de céticos. Ele é jovem, do sexo masculino e brilhante, com um traço obsessivo admirável e um pouco debilitante. Enquanto não havia terminado sua dissertação, Carrier publicou por conta própria uma magnum opus de 444 páginas intitulada “Sense and Goodness Without God: A Defense of Metaphysical Naturalism” (Sentido e Bondade Sem Deus: Uma Defesa do Naturalismo Metafísico) (De acordo com sua descrição na Amazon.com, o livro oferece “uma visão de mundo completa … cobrindo todos os assuntos, de conhecimento a arte, de metafísica a moralidade, de teologia a política”). É colaborador da revista Skeptical Inquirer e ex-editor da comunidade online Secular Web. E em agosto de 2004 Carrier voltou seu formidável intelecto e senso de propósito na direção de Flew.
Carrier escreveu a Flew pela primeira vez em 2001, quando um boato antecipado e infundado dizia que Flew se tornara crente. Desta vez, entretanto, Carrier estava escutando ruídos mais altos: uma resenha positiva que Flew escrevera do livro de Varghese promovendo o teísmo; palavras amáveis que Flew supostamente disse sobre Gerald Schroeder; uma mensagem de e-mail do apologista cristão William Lane Craig, afirmando que Flew disse a terceiros que ele havia visto argumentos sólidos para a existência de Deus. Carrier ainda não sabia da reunião da N.Y.U. ou do DVD que estava por vir, mas ele já tinha motivos para preocupação. Em uma longa carta, Carrier pediu que Flew confirmasse ou negasse o que ele esperava que fossem calúnias ao bom nome de Flew, e forneceu um endereço eletrônico para o seu próprio artigo refutando Schroeder.
No dia 3 de setembro, em sua pequena e suficientemente legível letra de mão, Flew respondeu (Carrier postou pequenos excertos das cartas de Flew na internet, mas me enviou digitalizações da correspondência toda).
“Obrigado pela sua carta, que chegou a mim hoje,” escreveu Flew. “Eu por muito tempo estive inclinado a crer em um Deus aristotélico que não intervém no Universo (…) Eu ainda estou pensando nas implicações de, em particular, livros de Schroeder,” que Varghese lhe enviou. “Se eu algum dia me tornar competente o suficiente para ler alguma coisa da internet (…) estarei ansioso para ler suas objeções a Schroeder. Eu o conheci, e fiquei bastante impressionado”.
Carrier não estava satisfeito. Ele respondeu imediatamente, prestativamente anexando “muito material de leitura para o seu benefício”, incluindo seu artigo da web sobre Schroeder, um artigo mais acadêmico que escrevera para a publicação Biology & Philosophy (Biologia & Filosofia) e – a pièce de chutzpah - um questionário de quatro páginas para ser preenchido por Flew. As perguntas variavam do relevante, mesmo que farpadas (“Devemos crer em alegações abertas a avaliação científica que não são aceitas pela vasta maioria da comunidade científica?”) ao invasivo e um tanto quanto trivial (“Você já frequentou alguma reunião Quaker, e há algo na doutrina religiosa Quaker que você acha atraente?”).
No dia 19 de outubro, Flew enviou de volta o questionário completo. Em suas respostas, escreveu que concordava com Schroeder que o Gênesis antecipou descobertas científicas posteriores, mas mantinha seu desgosto pelo Deus do Velho Testamento, que faz “ameaças de tortura eterna”. Este Deus não deve, escreveu Flew, ser confundido com o “Deus não-interventor das pessoas chamadas deístas – tais quais Thomas Jefferson e Benjamin Franklin.
Carrier respondeu com uma carta de duas mil palavras que vai da solicitude (“Estou escrevendo desta vez para transmitir minha preocupação e a de inúmeros colegas”) à franqueza bruta (“Não há absolutamente nenhuma base científica para a sua posição”) ao respeito a si mesmo (“Eu também incluí um excerto do meu próximo livro resumindo a ciência corrente sobre esse assunto”). Acima de tudo, porém, o tom é de exasperação. Flew, ele vê, foi levado para jantar por esses teístas, foi alimentado com ciência questionável e a engoliu com prazer. Carrier está lutando na retaguarda, via correio comum, a um continente de distância.
“Mas para compreender isso,” Carrier alega, “você deve examinar a ciência mais atual sobre esse assunto, não o que teístas lhe dizem e não o que cientistas estavam dizendo há 20 anos. Tudo mudou. Não concorda que é sua responsabilidade intelectual atualizar-se quanto a isso, antes de fazer qualquer decisão em relação ao que acreditar? Nos preocupa que você possa estar se esquivando desta responsabilidade”.
Surpreendentemente, essa sova epistolar funcionou. Quando Flew escreveu de volta no dia 24 de dezembro, duas semanas depois da história da Associated Press, ele havia mudado de idéia. “Eu simplesmente acreditei, mas pelo visto erroneamente, que Schroeder – um homem que me disseram ter ensinado no M.I.T. e estava agora trabalhando no Weizmann Institute em Jerusalém – estaria atualizado. Claramente ele não estava.” Em pagamento pelos múltiplos anexos de Carrier, Flew enviou seu próprio anexo: um formulário de compra para um livro anti-União Europeia chamado “England Our England” (Inglaterra, Nossa Inglaterra).
Cartas posteriores causaram ainda mais recuo. Em sua carta de 2 de janeiro de 2005, Flew diz que se o “tão confiante polemista ateu Richard Dawkins” lhe disser que Schroeder está errado, ele admitirá que Schroeder está errado. Mas ele presume que Dawkins aceita os argumentos de Schroeder, já que Dawkins “não fez nenhuma referência ao seu artigo”. Isso é realmente estranho: Flew diz que acredita que, já que Dawkins deixou de citar o estudante de graduação Richard Carrier atacando Schroeder, então o conhecimento de Schroeder é provavelmente sólido. Em outras palavras, se Flew foi induzido ao erro, ele pode culpar Dawkins, que tem professorado em Oxford no “entendimento público da ciência” mas deixou de informar seu público de que Schroeder era um teimoso. De qualquer forma, Flew prometeu a Carrier que está preparado para rejeitar Schroeder. Flew uma vez acreditou que o Gênesis poderia ser cientificamente correto, mas “como não é, é isso. Lamento bastante”.
As reconsiderações de Flew não se ativeram a Schroeder. Mais ou menos ao mesmo tempo, segundo Paul Kurtz, cuja editora livre-pensadora, Prometheus Books, publicou diversos trabalhos de Flew, ele se mostrou em dúvida a respeito de Roy Varghese. “Ele nos contou estar arrependido de ter confiado em Roy”, me contou Kurtz. “Ele colocou sua confiança nele, pensou que ele era um cientista de ponta”. A apreensão de Flew também o levou a revisar um ensaio que estava escrevendo para Kurtz, uma introdução à nova edição de 2005 da Prometheus de seu livro de 1966 “God and Philosophy” (Deus e Filosofia). Em um esboço preliminar da introdução, que Flew compartilhou com Carrier, e Carrier comigo, Flew identifica a si mesmo como deísta, mas na versão publicada essa passagem foi excluída. Em sua carta a Carrier no dia 13 de fevereiro de 2005, Flew dá crédito ao americano por detê-lo na beira da crença: “Graças, acima de tudo, ao seu conselho, eu pude parar a prensa na Prometheus, e eles vão incorporar uma nova introdução radicalmente reescrita”.
Flew enviou mais três cartas a Carrier. Na primeira, datada de 19 de fevereiro, ele novamente agradece a Carrier por sua ajuda na introdução, então acrescenta, “Estou desde ontem decidido a não fazer mais nenhuma declaração sobre religião para publicação”. E na última, no dia 22 de junho, Flew retrata, de maneira bem pungente, elogios que fizera a um dos livros de Gary Habermas: “A declaração de que eu mais me arrependo de ter dito durante os últimos meses foi aquela a respeito do livro de Habermas sobre a suposta ressurreição de Jesus filho de José. Eu me esqueci completamente dos argumentos, para mim decisivos, de Hume contra toda evidência para o miraculoso. Um sinal de declínio físico”.
DOIS ANOS DEPOIS, as dúvidas de Flew desapareceram, e o filósofo tem uma fé revigorada em seu amigos teístas. Em seu novo livro ele cita livremente Schroeder, Haldane e Varghese. E o autor que dois anos atrás estava esquecendo seu Hume está, no volume que está por vir, aprofundado na leitura de muitos filósofos – John Leslie, John Foster, Thomas Tracy, Brian Leftow – raramente, se alguma vez, mencionados em suas cartas, artigos ou livros. É como se ele fosse um novo homem.
Em agosto, visitei Flew em Reading. Sua casa, esparsamente mobiliada, fica em um pequeno lote em uma rua movimentada, encostada nas casas vizinhas. Poderia pertencer a um escriturário aposentado do governo, ou a um militar de carreira que finalmente se restabeleceu em sua terra pátria. Por dentro, parece muito Inglesa, com as cores suaves e desbotadas de uma produção da BBC dos anos 70. A casa pode não ter uma conexão de internet, mas tem um gato muito amigável, que sentou-se a meu lado no sofá. Visitei em dois dias consecutivos, e em cada dia Annis, esposa de 55 anos de Flew, me serviu um copo d’água e me deixou na sala de estar para fazer a seu marido uma série de perguntas duras e de fato bem cruéis.
Em “There is a God“, Flew cita extensivamente uma conversa que teve com Leftow, um professor em Oxford. Então perguntei a Flew, “Você conhece Brian Leftow?”
“Não”, disse ele. “Acho que não”.
“Você conhece o trabalho do filósofo John Leslie?”. Leslie é discutido extensivamente no livro.
Flew fez uma pausa, parecendo incerto. “Acho que ele é muito bom”. Mas ele disse não se lembrar de detalhes do trabalho de Leslie.
“Você já se encontrou com o filósofo Paul Davies?”. Em seu livro, Flew diz que Paul Davies é “indiscutivelmente o mais influente expositor contemporâneo de ciência moderna”.
“Temo que este seja um espetáculo do meu esquecimento!”.
Ele disse isso com uma risada. Quando começamos a entrevista, ele me avisou, com alegre autodepreciação, que sofre de “afasia nominal”, ou a inabilidade de reproduzir nomes. Mas ele esqueceu mais do que nomes. Ele não se lembrou de ter conversado com Paul Kurtz sobre sua introdução a “God and Philosophy” há apenas dois anos. Havia palavras em seu livro, como “abiogênese”, que agora ele não conseguia definir. Quando perguntei sobre Gary Habermas, que me contou ser amigo de Flew há 22 anos e que trocaram “dúzias” de cartas, Flew disse, “Nos encontramos em um debate, eu acho”. Salientei que em seus trabalhos filosóficos anteriores ele argumentara que o mero conceito de Deus era incoerente, então se ele agora era ateu, ele deveria rejeitar grandes nacos de sua antiga filosofia. “Sim, talvez haja uma grande inconsistência aí”, disse ele, aparentemente grato pelo meu vislumbre. E ele parecia desinteressado no conteúdo de seu livro – ele passou muito mais tempo falando sobre os perigos da imigração Islâmica não controlada e sua adoção do partido anti-U.E. United Kingdom Independence Party (Partido da Independência do Reino Unido).
Como ele mesmo admitiu, ele não havia escrito este livro.
“Isso é na verdade feito do Roy”, disse ele, antes de eu nem mesmo ter pensado em uma maneira educada de perguntar. “Ele me mostrou, e eu disse tudo bem. Estou velho demais para esse tipo de trabalho!”.
Quando perguntei a Varghese, ele admitiu livremente que o livro era ideia dele e que ele havia feito toda a escrita original. Mas fez o livro parecer mais com um esforço conjunto – ligeiramente mais, de qualquer forma. “Tinha coisas que ele havia escrito antes, e algumas delas foram adaptadas para isso”, disse Varghese. “Tinha coisas que ele me escrevera por correspondência, e eu organizei muitas delas. E eu fiz entrevistas com ele. Então estes três elementos entraram. Ah, e eu o expus a certos autores e tirei as opiniões dele sobre eles. Realizamos isso juntos. E aí, para torná-lo mais acessível aos leitores, a HarperCollins tinha um autor mais popular para revisá-lo”.
Então até o escritor-fantasma tinha um escritor-fantasma: Bob Hostetler, um pastor evangélico e autor de Ohio, reescreveu várias passagens, especialmente na seção que narra a infância de Flew. Com três autores, quanto de Flew ficou no livro? “Ele revisou tudo, estava feliz com tudo”, disse Varghese.
Cynthia DiTiberio, a editora que havia adquirido o “There is a God” para a HarperOne, contou-me que o trabalho de Hostetler era limitado; ela o chamou de “um editor de cópias extensivas”. “Ele fez o tipo de coisa que eu teria feito se tivesse tido tempo”, disse DiTiberio, mas editores não fazem nenhuma edição no escritório; temos que fazer isso no nosso tempo livre”.
Eu então perguntei a DiTiberio se era ético publicar um número sob o nome de Flew que cita fontes que ele não conhece o suficiente para discutir. “Eu entendo sua dificuldade e confusão”, disse ela, mas disse que o livro era uma apresentação precisa das idéias de Flew. “Eu não acho que Tony nos teria permitido colocar qualquer coisa com a qual ele não se sentisse confortável ou não tivesse familiaridade”, disse ela. “Quero dizer, é difícil dizer a esta altura o quanto ele está envelhecendo. Em minhas comunicações com ele, há momentos em que você tem que repetir as coisas algumas vezes. Não tenho certeza do que seja isso. Eu gostaria de poder lhe dizer mais… Estávamos entravados pelo fato de ele estar mais velho, mas seria fazer um desserviço ao mundo não publicar este livro, independente de como tenha sido feito”.
MUITOS AUTORES NÃO ESCREVEM seus próprios livros. Alguns nem mesmo os lêem: fãs de esportes se lembrarão de quando o jogador de basquete Charles Barkley reclamou que ele havia sido erroneamente citado em sua própria autobiografia. Pode ser que há dois anos, quando Varghese começou o livro de Flew, Flew fosse um parceiro mais pleno no processo do que ele se lembra (a seção sobre a infância de Flew dificilmente teria sido escrita sem sua cooperação). E talvez ele estivesse lendo recentemente esses filósofos cujos nomes ele agora não reconhece. Dois anos atrás, ele pode ter tido uma conversa produtiva com Brian Leftow, um homem de quem ele não se lembra. Dois anos atrás, ele e Gary Habermas talvez tenham de fato sido bons amigos.
Mas parece um pouco mais provável que Flew, tendo sido acompanhado intelectualmente por Roy Varghese por mais de 20 anos, simplesmente confiava que ele fosse escrever algo responsável. Varghese havia lhe feito tantas gentilezas. Apresentou Flew a Gerald Schroeder e John Haldane, e, fiquei sabendo, viajou à Inglaterra para acompanhar Flew a encontros com Leftow e o filósofo cristão Richard Swinburne (embora quando Leftow e Swinburne aperecem no livro, as conversas são descritas como se Varghese não estivesse presente). Varghese também deu aventuras a Flew, levando-o a Dallas e Nova Iorque, colocando-o em um documentário em DVD, colocando seu nome nos jornais. Se às vezes Flew podia ser persuadido por uma carta ou um telefonema de um ateu americano de que Varghese e sua turma não eram as autoridades eminentes em ciência que eles fizeram parecer que fossem, ele ficava sempre feliz em mudar de ideia novamente. Estes cristãos eram gentis e atraentes, e sempre pareciam ter as pesquisas mais recentes.
Acreditar que Flew foi explorado não é concluir que seus exploradores agiram com malícia. Se Flew em sua senilidade foi um pouco ingênuo, Varghese tinha sua própria ingenuidade. Um autodidata sem credenciais acadêmicas, Varghese estava claramente empolgado por ser levado a sério por um filósofo treinado em Oxford; pode nunca ter-lhe ocorrido que uma mente tão instruída poderia estar em declínio. Habermas, também, fala de Flew com reverência genuína e parece se orgulhar da amizade.
Intelectuais, até mais do que o resto de nós, gostam de acreditar que chegam a conclusões unicamente através do estudo e da reflexão. Mas como o resto de nós, eles às vezes escolhem suas opiniões para se adequar aos seus amigos, em vez do contrário. O que significa que Flew provavelmente permanecerá um teísta, pois assim que os cristãos o atraíram para perto, os ateus o tiveram como perdido. “Ele já foi um grande filósofo”, disse Richard Dawkins, o biólogo de Oxford e autor de “Deus, um Delírio”, a uma platéia em Austin ano passado. “É muito triste”. Paul Kurtz, da Prometheus Books, diz achar que Flew está sendo explorado. “Estão usando-o”, diz Kurtz, referindo-se aos cristãos. “Eles estão preocupados com os ateus, e estão tentando encontrar um ateu para ficar do lado deles”.
Encontraram um, e com menos dificuldade do que os ateus teriam adivinhado. Desde o começo, o afeto dos crentes por Antony Flew não foi não-correspondido. Quando Flew conheceu cristãos que alegavam ter novas provas científicas da existência de Deus, ele rapidamente se tornou de novo o jovem estudante de graduação que embarcou em um estudo do paranormal quando todos os seus colegas estavam comprometidos com o racionalismo estrito. Ele pode, também, ter entrado em contado com a criança que fora criada no caloroso e fiel Metodismo de seus pais. Os colegas de Flew se perguntarão como poderia ele assinar uma petição ao primeiro ministro em favor do design inteligente, mas se torna mais compreensível se o signatário nunca tenha odiado a crença religiosa da maneira que muitos filósofos o fazem, e se ele nunca odiou pessoas religiosas, no mínimo. Em uma época em que a crença religiosa é mais polarizante do que já foi em anos, quando todos os crentes estão sendo culpados pelos piores excessos da religião, Antony Flew silenciosamente mudou de lado, apenas seguindo a evidência como lhe fora exposta, abençoadamente ignorante do que outros têm em jogo.




















