Karl Popper e a Filosofia da Ciência

Autor: Homero Ottoni 

Muitos dos conceitos que nós, seres humanos, criamos para melhor lidar com aspectos do nosso mundo precisam ser bem definidos, bem determinados, sob pena de tornar a comunicação mais difícil do que já é naturalmente.

Conceitos vagos ou imprecisos impedem que um debate racional se desenvolva e ele pode acabar em impasse, em que cada lado usa o mesmo termo de forma diferente, sem chance de se chegar a um acordo, compreensão do ponto de visto contrário ou entendimento sobre o que se debate.

O uso do termo “energia” é um exemplo clássico de mau uso de termos vagos e imprecisos, gerando todo tipo de confusão, mistificação e distorção que podemos imaginar. O conceito de “Ciência” também.

A Ciência é imensamente importante para nossa compreensão do mundo, e ao mesmo tempo profundamente mal compreendida por quem faz uso do termo. E há motivos para isso, pois não é um conceito simples ou fácil.

 

“Para conhecimento mais profundo da natureza do próprio saber, não há atalhos”

Toda uma área do conhecimento foi construída para tentar explicar e definir esse conceito-chave de nossa compreensão do mundo: a Filosofia da Ciência. E um dos mais influentes, importantes, capazes e interessantes pensadores a se debruçar sobre esse problema, definir o que é ciência, foi Karl Popper, um de meus heróis intelectuais, junto a Darwin e David Hume. E este artigo vai tentar explicar a visão básica deste pensador sobre a ciência e seus desdobramentos.

Infelizmente, não há uma forma simples ou curta de fazer isso. Embora seja importante tentar ser claro e simples ao se discutir qualquer problema, existem aqueles que são de natureza complexa e difícil, e precisam ser abordados de forma a refletir essa complexidade. Para conhecimento mais profundo da natureza do próprio saber, não há atalhos.

 

O que é Ciência

· Investigação racional ou estudo da natureza, direcionado à descoberta da verdade. Tal investigação é normalmente metódica, ou de acordo com o método científico – um processo de avaliar o conhecimento empírico;

· O corpo organizado de conhecimentos adquiridos por estudos e pesquisas.

Ciência tem diversas definições, mais ou menos amplas, para serem utilizadas conforme a necessidade ou ocasião. Pelo menos em conversas mais corriqueiras e para debates relacionados, mas acessórios. Quando se discute a ciência propriamente dita, é mais complicado. Uma definição que eu acho interessante para começar a entende-la é a que lida com o processo de produção da ciência: ciência é o conjunto de conhecimentos, confiáveis e coerentes, produzidos através do método científico.

Para quase todos os propósitos é uma definição suficiente, útil e válida. Mas é um tanto circular. O que é método científico? É um sistema usado pela ciência para testar o conhecimento, conclusões e alegações. Assim, ciência é algo que usa a ciência para ser produzido, e não esclarece muito, afinal.

 

Indução versus dedução

David Hume analisou o “problema da indução”, o conhecimento do mundo através da indução. Grosso modo (porque, tentar explicar David Hume levaria a outro artigo, mais alguns livros, palestras, talvez um curso intensivo de alguns anos, etc, etc..:-), considere que, depois de ver o Sol nascer todos os dias, por alguns anos, seria possível dizer que amanhã o Sol também nascerá. Ou depois de ver apenas cisnes brancos por muito tempo, concluíssemos que todos os cisnes são brancos. O passado seria um guia confiável para o futuro.

Esse seria um conhecimento válido, científico, obtido por indução. Mas Popper (como Hume e até Einstein) via muitas falhas nesse processo. Depois de analisar muitos corvos negros, por exemplo, e afirmar que todos os corvos são negros, bastaria encontrar um único corvo branco para que a afirmação se mostrasse incorreta. Não se tratava de um conhecimento, uma conclusão, confiável.

 

“A indução poderia até servir de base para o início da investigação”

No lugar da indução, a dedução seria a ferramenta para produzir ciência. Assim, elementos deveriam ser analisados em conjunto para se deduzir uma regra geral, uma lei ou um conhecimento, que deveria ser validada por verificação posterior.

É o mesmo processo que leva a investigação criminal a encontrar o criminoso. De forma simplificada (e bastante grosseira, pois temos muito ainda a cobrir nesse assunto), um indutivista encontraria o criminoso procurando por quem habitualmente comete este tipo de crime, e o dedutivista procuraria evidências que ligassem o criminoso ao local, vítima, arma ou situação do crime. Observe que a indução poderia até servir de base para o início da investigação (MO, ou modus operandi), mas não seria suficiente para uma conclusão confiável, científica.

O caso particular (juízo particular) não pode, a partir de um salto não embasado, justificar todos os casos (juízo universal).

 

Demarcação – Ciência versus pseudociência (física versus metafísica)

Popper considerava que mesmo a dedução não leva a certezas, mas apenas a possibilidades, probabilidades, aproximações da realidade ou verdade. Teorias científicas não seriam exatas, mas aproximadas. Todo o esforço, então, seria para se chegar cada vez mais próximo da realidade.

Ele pretendia um critério que demarcasse os campos, definisse limites, do que seria ciência e do que não seria ciência. Sendo toda teoria provisória, temporária (no sentido estrito de que pode ser melhorada ou ajustada), é preciso determinar quando a ciência termina e a pseudociência começa.

Chegamos ao conceito de falseabilidade. É um dos conceitos mais mal compreendidos na filosofia da ciência, e muitos parecem pensar que ser falseável equivale a ser falso, ou seja, que se trata da aceitação de que todo conhecimento científico é “falso” em alguma medida, e portanto, qualquer outro conhecimento tem a mesma validade (uma questão de escolha, como dizem alguns).

Todavia, algo pode ser falso ou não e – ao mesmo tempo – pode ser falseável ou não. São coisas distintas, bastante distintas. Alguns exemplos com outros termos: algo pode ser “vendável” mas não ter sido vendido, ainda. Ou seja, pode estar disponível para venda, mas ninguém o comprou. A água pode ser “potável”, mesmo que ninguém a tenha bebido. Um banco pode ser “vulnerável” a roubos, mesmo que ninguém o tenha roubado.

 

“Só é possível tentar “provar” que uma teoria é falsa, se existir uma forma de fazer isto”

Uma teoria deve ser falseável, mesmo que não seja falsa ou não tenha sido demonstrada falsa. É a possibilidade de ser, que torna uma teoria científica. E boa parte do esforço da pesquisa científica é justamente tentar falsear uma teoria. Quanto mais ela resiste, mais se torna confiável e provável de ser correta.

Toda teoria cientifica, em especial as mais revolucionárias, recebeu forte, fortíssima oposição, quando proposta inicialmente. Diversos pesquisadores fizeram o possível para demonstrar que eram incorretas, criando experimentos que demonstrassem que era falsa. Ao resistir a estas verdadeiras baterias de testes, a teoria não se “provou” definitivamente correta, mas aumentou sua confiabilidade, a probabilidade de ser correta.

Entretanto, só é possível tentar “provar” que uma teoria é falsa, se existir uma forma de fazer isto ou, em outras palavras, se a teoria for falseável, se existir alguma possibilidade de refutar esta teoria. Mesmo que ainda não seja tecnicamente possível fazê-lo, deve existir a possibilidade.

Quando Einstein propôs a teoria da relatividade em 1905, uma forma de testá-la seria medir a passagem da luz de uma estrela pelo campo gravitacional de uma outra estrela, o Sol, por exemplo. Naquele momento, isto ainda não era possível. Foi preciso esperar pelo eclipse de 1919 para que o teste fosse feito. Mesmo assim, a relatividade era científica, pois havia uma foram de falseá-la (se a observação durante o eclipse fosse outra, isso refutaria a teoria de Einstein).

 

“É possível falsear a Teoria da Evolução”

Para Popper, essa é a marca da ciência, o que fornece a demarcação entre ciência e pseudociência, entre física e metafísica: a falseabilidade.

Vejamos então algumas teorias científicas, como a Teoria Gravitacional. Matéria atrai matéria na relação direta das massas e no inverso do quadrado das distâncias. Há uma forma de falsear a teoria? Sim, encontrar qualquer corpo orbitando outro sem obedecer a essa razão, por exemplo. Um pesquisador poderia, para provar que a teoria é falsa, colocar um satélite em órbita que não se comportasse dessa forma. Ou descobrir um corpo celeste que não se comportasse dessa forma.

O fato de que nunca foi possível colocar um objeto em órbita que não obedecesse a essa regra, dá confiança à teoria. Mas ainda assim existe uma forma de provar que ela é falsa.

E a Teoria da Evolução? Também é possível provar que é falsa, também existem possibilidades que podem invalidar a teoria. O fato de que nunca se conseguiu uma refutação confere maior confiança à teoria, dá credibilidade a ela. Todavia, é possível falsear a Teoria da Evolução.

 

“Se meu mapa astral apresenta algo que parece correto a meu respeito, é um “acerto”

O famoso coelho cambriano, por exemplo, refutaria totalmente a Teoria da Evolução, como é formulada hoje. Não importa que jamais se tenha encontrado um fóssil na camada geológica “errada” (coelho no período cambriano). Basta saber que se ele fosse encontrado, falsearia a teoria. Existem várias formas de se demonstrar que a evolução é falsa. Teorias científicas são reais, verdadeiras, mas falseáveis. São teorias científicas, no sentido popperiano.

E pseudociências? Como se saem no teste de falseabilidade?

Não muito bem..:-)

A Astrologia, por exemplo. Não há nenhuma forma de falsear a hipótese “astros influenciam as vidas e o futuro das pessoas, a partir da data de seu nascimento”. A hipótese “astrologia” é construída à prova de refutação. Nenhum estudo ou experimento jamais logrou demonstrar que não é real, porque da forma como é construída a astrologia, não existe forma de fazer isso. A astrologia é infalseável.

Se meu mapa astral apresenta algo que parece correto a meu respeito, é um “acerto”. Se apresenta algo claramente errado, é influência de “outras variáveis”. Ou seja, não importa o que um mapa astral diga, nada pode ser apresentado como refutação. Não há nenhum mecanismo conhecido que possa, caso ocorra, refutar a astrologia.

 

“Pode parecer piada, mas é a forma como pseudociências são construídas”

Mesmo que um mapa astral cuidadosamente feito não apresente um único acerto, e apenas erros crassos, isso não falseia a teoria, pois é até mesmo “esperado” que ocorra, devido a forma como os proponentes apresentam esse “conhecimento”.

Algumas pseudociências até tentam ganhar o status de “científicas”, apresentando-se para testes de falseabilidade. Mas rapidamente desistem e voltam a situação infalseável. A homeopatia, ao ser testada em laboratório, e falhado, resolveu que seu “paradigma” é diferente, que ela não pode ser avaliada da mesma forma como o restante das teorias científicas, que sua aplicação é “holística”, que até as falhas são na verdade “evidências” de que ela é eficaz, mas diferente, e que não ter forma de ser demonstrada falsa é uma virtude, não uma falha da teoria. Há um relato do pesquisador Hyman em um estudo sobre homeopatia em que, depois de mais um teste feito, com rigoroso controle duplo-cego, o homeopata diz: “tá vendo, é por isso que nunca fazemos testes duplo-cegos, eles nunca funcionam”..:-)

Pode parecer piada, mas é a forma como pseudociências são construídas: à prova de refutação. O erro é sempre “dos outros”, jamais dela mesmo.

 

Hipóteses, teorias e fatos

Hipóteses científicas teorizam sobre fatos e necessitam ser corroboradas por experimentos. Experimentos testam as “previsões” e desdobramentos de uma hipótese. Se há um acumulo de previsões validadas; se o conjunto de evidências, dados, fatos, experimentos e previsões validades se acumula; se as tentativas de falsear a hipótese se acumulam, e falham sempre, a hipótese se torna uma teoria científica confiável. Não a verdade absoluta, e nem mesmo uma certeza, mas algo mais sutil, uma explicação confiável, até onde é possível ser confiável. Esse processo se chama “verificação”.

Quanto mais verificações, quanto mais elementos de convicção, mais sólida é uma teoria científica. E sempre falseável, ou seja, um único elemento contrário de prova e a teoria será refutada.

 

O Dragão na Garagem

O conhecido exemplo criado por Carla Sagan do dragão na garagem pode ajudar a entender o problema. Suponha que seu amigo mais próximo diga, “veja, eu tenho um dragão em minha garagem”. Você, como uma pessoa de mente aberta, e apreciador de dragões, fica animado, e diz “puxa, gostaria muito de ir a sua garagem ver isso de perto”.

Na garagem, ele abre a porta e você olha para dentro. Nada, não vê nada que não devesse existir em uma garagem, nenhum dragão. Você olha para o amigo com cara de espanto, e este diz, “pois é, ele é invisível”.

Tudo bem, um dragão invisível é mais legal ainda que um dragão normal (supondo que existam dragões normais, claro), e você se adianta para tocar o dragão com as mãos. Mas…

É um dragão intangível, diz o amigo.

Você então resolve jogar farinha no chão, para ver as pegadas dele, mas, “ele flutua”, diz o amigo. Você respira mais fundo, para sentir o cheiro do dragão, mas, “ele é inodoro”. Você resolve buscar um sensor de calor, para medir o fogo que sai das narinas, mas, “o fogo desse dragão é frio”. Você então sugere um espectrógrafo de massa, para medir a massa do dragão, mas, “ele é incorpóreo”.

 

“Não ser científico não significa, entretanto, que não algo não exista”

Para cada coisa que você sugere para detectar o dragão, seu amigo cria uma explicação sobre porque não vai ser possível. O dragão é infalseável!

Claro que nada disso prova que não existe um dragão invisível, inodoro, incorpóreo, intangível, que cospe fogo frio na garagem de seu amigo. Mas a condição de não existir nenhuma maneira de falsear a existência desse dragão torna-o não científico e indistinguível de “dragão nenhum”. Um dragão com essas características e nenhum dragão são a mesma coisa, para todos os efeitos práticos.

Não ser científico não significa, entretanto, que não algo não exista. Essa é uma acusação comum contra a ciência e contra cientistas: mas vocês pensam que porque a ciência não provou, então não existe, seus, seus, seus… “mentes fechadas”?

Não, a ciência não pensa dessa forma. Mas sem evidências, sem ser falseável, não é ciência, não é científico. A questão é que mesmo as pessoas que fazem essa acusação entendem que é mais seguro confiar em conhecimento científico que em outros tipos de conhecimento.

 

“Críticos da demarcação de Popper a utilizam alguma forma”

Estes são os critérios de demarcação de Popper. Existem críticas a ele, mas no momento é a melhor forma que dispomos para definir o alcance do termo “científico”. Mesmo críticos da demarcação de Popper a utilizam alguma forma, ou teriam de aceitar a astrologia, com todos seus “dados empíricos”, todos seus cálculos, toda sua parafernália verborrágica, como ciência.

Em resumo, a posição de Popper, a demarcação, defende que:

· Uma teoria que não pode ser refutada não deve ser considerada científica. A irrefutabilidade não é uma virtude, mas, sim, um defeito.

· Todo o teste ou experimento sobre uma teoria é uma tentativa para refutar esta teoria. Ser testável, nesse sentido, equivale a ser refutável.

· A descoberta de novos fatos, de acordo com as previsões de uma teoria, não a elegem a verdade última, apenas a corroboram. Quando é corroborada por um teste ou experimento, ou seja, quando uma observação cujo resultado poderia eventualmente refutar a teoria não se confirma, isto torna a teoria mais robusta e confiável, sem, no entanto, confirmá-la 100% ou torná-la uma verdade absoluta.

 

“Ao resistir a tentativas de refutação, uma teoria será sempre mais confiável”

E, para não restar engano, isso não significa que o que estiver fora dessa demarcação não existe ou não é verdadeiro. Significa apenas que não é científico. A metafísica pode ser verdadeira, real? Pode. Pode ser científica? Não, pois não é falseável.

Esse engano deriva do fato, evidente para todos, de que na prática, na vida real, é mais seguro escolher, fazer opções, definir caminhos e posições, baseado no conhecimento científico. É uma escolha que mesmo o mais metafísico dos indivíduos acaba fazendo, ao escolher ser operado de uma apendicite aguda (e receber antibióticos) do que ir ao xamã e esperar que processos metafísicos o curem. “Pode ser” que existam esses processos metafísicos de cura, e pode ser que sejam eficazes, mas temos “certeza” de que o cirurgião e a medicina moderna no hospital existem e são eficazes.

Ao resistir a tentativas de refutação, uma teoria será sempre mais confiável que outra que só possui defensores e apoiadores, mas não passou pelo teste de falseabilidade.

Este não é um assunto fácil, mas é um assunto fascinante. Para quem quiser saber mais, sugiro que comece pelos links abaixo, ou procure por Karl Popper, David Hume e o Problema da Incompletude na Internet e em livros. Vale o esforço, de verdade.

Wikipédia – Karl Popper

A Lógica da Pesquisa Científica – Karl Popper

Conjecturas e Refutações – Karl Popper

Karl´s Popper Philosophy of Science – Karl Popper

Wikipedia – David Hume

Tratado da Natureza Humana – David Hume

Investigação sobre o Entendimento Humano – David Hume

Da Imortalidade da Alma e Outros Textos Póstumos – David Hume

Wikipédia – Falseabilidade

 

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  • Tania

    Muito bom. Gostei tb de ver o link para o livro “conjecturas e refutações” do Popper. Procurei esses livro um tempão e ele se encontrava esgotado e fora de edição.

  • Carla Vargas

    Não é realmente um tema fácil pois aparecem os defensores de pseudociências que falam tanta asneira que poucos céticos perdem tempo respondendo e apontando os erros do defensor.
    Eles, os defensores, quando criticados entram em negação ou nem voltam pra ler, só vomitam palavras como um pregoeiro alucinado.

  • http://www.gregorygaboardi.blogspot.com Greg

    Vejo muitos problemas neste texto e sua abordagem não me agrada. Serei pontual:

    No trecho ‘O que é Ciência’ seria muito interessante que fossem citadas as fontes das definições de ciência, do modo que estão parece que elas foram tiradas da cartola. Logo depois uma das definições é classificada como ‘válida’. Um texto que preze tanto pelo rigor técnico e emprego correto dos termos (preocupação que foi afirmada no primeiro parágrafo) não pode se permitir este tipo de erro, predicar ‘válido’ de uma definição é como predicar ‘doce’ de um retângulo. Validade é propriedade de argumentos, não de definições; porém, isto pode ser desconsiderado na medida em que o texto está proposto como uma introdução, não como um trabalho estritamente rigoroso.

    Na parte entitulada ‘Indução versus dedução’ há outros dois problemas. O primeiro talvez seja um problema apenas para mim: pareceu extremamente pedante a passagem sobre o que seria necessário para que o pensamento de Hume fosse explicado. Se era para ser uma piada, então talvez meu senso de humor tenha pecado por falta de sensibilidade. O outro problema é que, conforme Hume aborda a questão da indução, não é o fato de que o conhecimento obtido por indução seja frágil que desqualifica a indução. Não é porque só ter visto cisnes brancos até hoje não garante que não possam ser encontrados cisnes de outra cor. Em outras palavras, não é a falta de garantias oferecidas pela indução que pode desqualificá-la como modo de obter conhecimentos, mas sim o fato de que a própria ideia de que pela indução se pode obter conhecimento que não encontra sustentação. Ela não se sustenta dedutivamente e buscar sustentação indutiva para a própria indução seria circular. É isto que Hume destaca, não o ponto trivial de que a indução pode falhar.

    É extremamente infeliz opor física com metafísica (como é feito no título de uma das seções). Este tipo de oposição estimula ainda mais o desentendimento (já muito comum) de que metafísica é algo como ‘além da física’ no sentido de ser relacionado com ideias sobrenaturais, superstições e pensamento anti-científico. Mais tarde comentarei minha crítica ao restante do texto.

  • Homero

    Olá Greg

    Vamos por partes, e digo de início que não será nada pessoal, suas críticas são bem-vindas e, em alguma medida, pertinentes. Mas discordo de alguns pontos e tentarei explicar porque, ok?

    Para começar, este é um texto curto, introdutório, e que tem por objetivo atingir leitores leigos ou que tem pouco contato com aspectos mais complexos da filosofia da ciência. Assim, tentei não sobrecarregar com citações e fontes, como seria um texto mais formal, mais técnico. Até porque um texto mais formal, mais técnico sobre algo tão amplo e complexo, não caberia em um artigo, ou mesmo em um livro (um texto no Bule com notas de rodapé e citações conforme as normas ABNT faria os leitores sairem correndo, eu acho..:-).

    Outro problema, que tentei evitar ou explicar, é que conceitos e definições tem sempre algo de subjetivo, e podem existir diversas definições válidas ou uteis. Eu escolhi as que me pareceram mais adequadas ao que pretendia abordar. Pode discordar delas, e pode apresentar outras que considere mais corretas, mas será sempre pessoal (assim como as eternas polêmicas no próprio mundo acadêmico sobre o que é ciência).

    Talvez seu rigor com os conceitos esteja impedindo que veja a função do meu texto, ser leve o suficiente para não assustar, e afastar, o leitor com menos informação ou interesse no assunto (e já fui criticado em outros textos por ser exageradamente rigoroso e formal com a abordagem..:-).

    Não é, repito, um trabalho formal, um “trabalho estritamente rigoroso”, mas uma primeira apresentação para os que nunca nem mesmo ouviram falar de Popper, ou da filosofia da Ciência.

    Greg: “pareceu extremamente pedante a passagem sobre o que seria necessário para que o pensamento de Hume fosse explicado. ”

    Bem, só posso pedir desculpas, e são sinceras. Não era minha intenção ser pedante, mas evitar um desvio do meu propósito, tentando explicar outras questões tão ou mais complexas que a que pretendia enfrentar, e tornar tudo mais confuso e difícil do que já é. Foi uma brincadeira, com a intenção honesta de evidênciar a dificuldade do assunto, a indução e a análise por Hume da mesma.

    Greg: “Em outras palavras, não é a falta de garantias oferecidas pela indução que pode desqualificá-la como modo de obter conhecimentos, mas sim o fato de que a própria ideia de que pela indução se pode obter conhecimento que não encontra sustentação.”

    Já tentou explicar isso em um artigo curto? Mesmo Hume, e os que vieram depois e abraçaram o assunto, escreveram livros e mais livros, apenas para apresentar o problema. Eu não esperaria fazer melhor que eles, o que eu espero é apenas despertar o interesse de quem lê para que procure por si mesmo ampliar o conhecimento do assunto. Tentar definir “a própria idéia” de indução já me levaria muito longe do propósito do artigo.

    Na verdade, foi justamente por isso que fiz a brincadeira, que não gostou, sobre não ser possível aqui explicar Hume e a indução neste artigo.

    Greg: “É extremamente infeliz opor física com metafísica ”

    Bem, até este ponto estávamos próximos, e até concordaria com suas posições, em termos. Mas neste caso, eu discordo bastante. Não há nada de errado em opor física e metafísica, e muitos, melhores e mais capazes que eu, já o fizeram.

    Em geral quem se opõe gosta da metafísica, acredita que seja algo real ou pertinente, e tenta defende-la do enfrentamento com a física. Como na famosa piada:

    “Um metafísico é um cego em um quarto escuro procurando por um gato preto que não está lá e um teólogo é o cara que pensa ter encontrado o gato”.

    Talvez metafísica seja “mais que isso”, e podemos ter interessantes e produtivas discussões a respeito, como tem tido muitos antes de nós, mas ela “também” é isso e também da sustentação a superstições, sobrenatural, pensamento anti-científico, etc. Talvez não seja culpa da metafísica, mas as coisas são assim.

    Existir só no mundo das idéias, é não existir no mundo real afinal.

    Greg, encare o texto com as restrições que ele tem, que eu sabia que teria, ao escrever. Um amigo sugeriu o tema, e eu fiquei bastante tempo pensado, como abordar um assunto dessa complexidade, um assunto que vem sendo debatido por todo pensador desde sempre, e que ainda provoca polêmicas e furor, em algumas linhas de um artigo curto, para leitores não especialistas.

    E quase desisti..:-) Mas resolvi “pincelar” algumas idéias, de forma que, quem se interessasse, seguisse adiante. Sua resposta, sua crítica, era esperada, e uma forma interessante e “válida” de seguir adiante com o tema.

    Se há falhas no texto, e devem haver, é minha culpa certamente, mas minha esperança é que de alguma forma o principal, a importância dessas questões, seja capaz de despertar o interesse de quem lê.

    Um abraço.

    Homero

  • Rodrigo

    Oi, Homero. Não pude resistir e resolvi entrar na discussão. Não sou filósofo, sou na verdade um biólogo metido a besta que adora a filosofia e tem lido muito sobre o assunto nos últimos 15 anos.

    O primeiro ponto é que metafísica em filosofia não é sinônimo de pseudociência ou anticiência. Esta acepção que a aproximam da superstição é apenas uma utilização informal do termo. Historicamente parte da antipatia pela metafísica é fruto do chamado positivismo lógico, dos filósofos do chamado círculo de Viena, que quiseram expurgar da filosofia tudo que não fosse lógico (verdades analíticas ou definicionais, por exemplo) ou verificável (no sentido de factual, de atestável com os sentidos). Porém esta tentativa fracassou (e este parece ser um dos poucos consensos na filosofia moderna), pois as tentativas de criar um critério de verificabilidade não ambíguo, que não fosse ou restritivo demais ou muito amplo, fracassaram. Além disso muitos tarde filósofos botaram em dúvida a possibilidade de fatos perceptivos puros (como Sellars) que pudessem fundamentar de forma não inferencial o conhecimento, e até mesmo a existência de verdades analíticas irrefutáveis, como fez Quine. Isso levou a filosofia de modo geral, inclusive a filosofia da ciência, a deixar de ver a metafísica com maus olhos, já que o projeto empiricista dos positivistas lógicos não conseguia prescindir de certas considerações teóricas que envolviam pressuposições metafísicas.

    Porém repito metafísica não é sinônimo de misticismo ou superstição em filosofia. É simplesmente a disciplina que faz perguntas como: “O que é o tempo?” “É o espaço uma coisa em si ou apenas relações entre coisas?” ou “Por que existe algo ao invés de nada?”, “Existem universais ou só particulares?”, “O que é a existência?” “O que continua em uma pessoa e que chamamos identidade?” “Existe o livre-arbítrio?”
    Todas essas perguntas (muitas delas associadas como questões ontológicas como as sobre a existência, tempo e espaço) são questões que os cientistas também buscam entender. A diferença é que os cientistas são mais restringidos pelos métodos científicos e procedimentos de investigação empírica que restringem o tipo de pergunta que pode ser feita. Diferente da empreitada filosófica que é muito menos restrita e mais livre para especular. Mesmo assim certas tradições filosóficas como a tradição anglo-americana de filosofia analítica são tremendamente dependentes da ciência. Filósofos como Quine afirmavam mesmo que a filosofia, principalmente a epistemologia, deveria tornar- se cada vez mais empíricas e semelhantes as ciências. Mesmo outros filósofos menos radicais em sua abordagem levam sempre em conta os dados científicos e as teorias mais robustas e mais refinadas da ciência. Esta proximidade às ciências é comum em filosofia da mente, e em campos como a filosofia da biologia e da física. Vários filósofos interessados em metafísica estudam as implicações da cosmologia e astrofísica moderna para compreensão do universo, assim como da mecânica quântica na compreensão da matéria e da existência como um todo. Existem sim abordagens metafísicas teístas e idealistas, mas o naturalismo e o fisicalismo são correntes muito fortes na metafísica moderna. Inclusive eu diria que a maioria dos filósofos modernos dentro da tradição analítica são naturalistas e muitos naturalistas fisicalistas (o termo mais atual para o materialismo). Outros é verdade defendem alguma forma de realismo interno ou anti-realismo de cunho naturalista, também compatível com as ciências e seu papel na compreensão do mundo. Na metafísica existe até uma forma de realismo que é chamada de realismo científico. Veja por exemplo os trabalhos de filósofos como David Papineau, http://www.kcl.ac.uk/ip/davidpapineau/Staff/Papineau/PhilNat2nded/PhNatIndexrevised.htm.

    Se quiser saber mais dê um pulinho no site “Crítica na rede”:

    http://criticanarede.com/metafisica.html

    Neste site tem muito material bom sobre filosofia moderna, lógica e argumentação.

    http://plato.stanford.edu/entries/metaphysics/

    A enciclopédia online de Stanford é outra boa pedida.

    Abraços,

    Rodrigo

  • http://www.gregorygaboardi.blogspot.com Gregory Gaboardi

    Homero,

    encerrarei minha crítica e então responderei tua réplica. Há apenas um último ponto que quero enfatizar: a falseabilidade da Teoria da Evolução. Sendo um texto sobre Popper (mesmo que introdutório), creio que seja essencial relatar o fato de que a relação entre Popper e o princípio da Seleção Natural foi instável, isto é, inicialmente Popper compreendeu o princípio da Seleção Natural como um programa metafísico de pesquisa (cabendo salientar que, para Popper, isto não é algo necessariamente negativo) e, posteriormente, Popper mudou de ideia (mesmo que sem ser drástico). Isto pode ser conferido no texto ‘Natural Selection and the Emergence of Mind’.

    As razões pelas quais Popper havia compreendido o princípio da Seleção Natural como um programa metafísico de pesquisa motivam (mesmo que com algumas variações) discussões bastante atuais (vide a discussão em torno do recente ‘What Darwin got wrong’ de Fodor e Piattelli-Palmarini).

    Encerrada a crítica, faço agora a tréplica. Sobre a proposta do texto, como eu havia dito: meu comentário sobre o rigor pode ser desconsiderado na medida em que o texto busca ser uma introdução e não uma apresentação técnica e rigorosa. Eu já havia feito a ressalva, porém, como você salientou este aspecto, repito: pode desconsiderar a crítica sobre o rigor (nestas circunstâncias), considere-a retirada. Sobre Hume, mantenho a crítica de que gostaria de ter visto o problema da indução abordado como eu mencionei (penso que seria a abordagem correta), não concordo que tornaria a leitura muito difícil ou enfadonha, no máximo seria necessário reservar uma postagem especial para Hume. Repare que na própria entrada por ‘David Hume’ na Wikipedia (que você inclusive recomenda), em inglês, o que estou alegando é dito sem ocupar muito espaço.

    Finalmente, sobre a questão da metafísica, realmente discordamos. Eu ainda comentaria na crítica (preferi reservar este comentário para a tréplica) o trecho em que você diz “É uma escolha que mesmo o mais metafísico dos indivíduos acaba fazendo, ao escolher ser operado de uma apendicite aguda (e receber antibióticos) do que ir ao xamã e esperar que processos metafísicos o curem.” Só posso lamentar por este emprego de metafísica, que me lembra (não se ofenda) o que autores de livros de auto-ajuda ou de misticismo fazem com a física quântica. De fato, o termo metafísica é usado em argumentações pseudo-científicas (e coisas semelhantes), mas um mal uso nunca deve servir como referencial, sobretudo para um texto filosófico sério; algo semelhante ao que seria empregar a concepção mística de Física Quântica em um texto sério de Física (uma vez que a Física Quântica está para a Física como a metafísica está para a Filosofia). Enfim, concordo plenamente com o comentário feito pelo Rodrigo.

    Obrigado pela paciência para responder e pela compreensão, abraço.

  • Homero

    Olá Rodrigo

    Acho excelente suas colocações, e sei que metafísica não é sinônimo de pseudo-ciências, claro. Mas, como você coloca, parte das pseudo-ciências usam a metafísica como base. Ou, como eu disse ao Greg, metafísica “também” é isso.

    Eu também me interesso por filosofia, e eu também não sou um especialista, filosofo ou qualquer coisa remotamente parecida (prefiro Dennet e Pinker a filósofos diversos). E meu interesse é parcial, como acho que o seu, naquilo que se refere a aspectos materiais do universo, concretos. Estou mais para Sokal que para Teilhard Chardin..:-)

    Como no caso da indução, se eu tentasse definir, explicar e posicionar os, muitos, aspectos do termo metafísica, daria outro artigo, outro livro, mais algumas palestras, etc (desculpe, Greg, não resisti a repetir a piada), e não era essa minha intenção. Reconheço que suas colocações são corretas e válidas, mas, veja, só para exemplificar isso, você escreveu quase um post, assim como o Greg, e ele ainda vai escrever mais, conforme prometeu.

    Assim, entenda meu artigo como uma breve “pincelada” em pontos complicados e extensos da questão, e o foco em apresentar (apresentar, muito superficialmente) Popper, o conceito de ciência, e a questão da falseabilidade do conhecimento científico.

    Se isso estiver razoavelmente presente em meu artigo, meu objetivo foi atingido. E penso que em alguma medida esteja, uma vez que tanto você quanto o Greg viram falhas mais nas questões acessórias, que abordei apenas de modo simplificado (e até simplista, reconheço, mas foi intencional), e não Popper propriamente e sua posição.

    Minha esperança, ao escrever um artigo curto sobre uma das mais polêmicas, complexas e interessantes questões filosóficas sobre a ciência, foi que o leitor se sentisse atraido, curioso, o suficiente para ler os links, procurar mais informação (inclusive nos comentários como o seu e do Greg) e até lesse os livros indicados.

    Mais que isso, eu não ousaria esperar em um artigo de, e para, leigos.

    Um abraço.

    Homero

  • Rodrigo

    Caro Homero, só pra deixar claro. Minha intenção não foi invalidar seu artigo ao criticar seus comentários sobre a metafísica. Louvo sua disponibilidade em explicar para leigos de forma menos técnica a posição de um dos mais importantes filósofos da ciência do século XX. Em geral gostei do artigo, ainda que eu ache que Popper seja uma tanto hipervalorizado pelos cientistas, além disso acho que o problema da demarcação não foi muito bem respondido por ele. Mesmo assim acho que ele deu contribuições neste sentido, enfatizando a importância das instâncias infirmatórias e a contínua necessidade de que teorias e hipóteses sejam criticáveis e evitem acumulação de manobras ad hoc para imunizá-las ao confronto empírico. Mas isso é uma outra história. Eu mesmo tenho um artigo (muito longo. O problema é meu mesmo em resumi-lo) engavetado sobre o problema da demarcação na questão biologia evolutiva vs criacionismo/Design Inteligente.

    Espero que ninguém veja meus comentários como uma tentativa de desqualificá-lo. Apenas acho que mesmo em uma artigo introdutório e que apenas “pincela” algumas questões sobre a filosofia da ciência moderna, como vc deixou claro, devemos ter cuidado em não perpetuar certos esteriótipos e mitos. Diferenciar o uso do termo na linguagem popular de seu uso técnico é algo importante. As pessoas que usam a palavra “Metafísica” neste sentido de místico e transcendente estão abusando e distorcendo o uso técnico do termo, da mesma forma que os criacionistas fazem ao falar de “ciência criacionista” ou atribuir ao Design Inteligente o estatus de teoria científica rival a teoria sintética, quando o DI é no máximo um péssimo argumento filosófico ou na melhor das hipóteses um argumento teológico ruim (não que eu acredite que existam bons argumentos teológicos. :) ). Cabe a todos nós, interessados, curiosos e aficionados pelas ciências e pela filosofia, tentar esclarecer estas diferenças e não deixar que este mitos se perpetuem. Realmente desculpe por insistir neste ponto que como vc mesmo falou é apenas uma pequena parte do seu artigo e não invalida o resto e seus pontos principais.
    Mesmo Popper não era avesso a metafísica como fica claro em um de seus comentários mais abusados (inclusive por criacionistas) e mais mal entendidos sobre biologia evolutiva, em que ele diz que a “Seleção natural” é um “programa metafísico de pesquisa”. Neste caso ao invés de tentar desqualificar a idéia de seleção natural ele simplesmente assumiu que ela fosse uma tautologia (o que ela não é caso seja definida de forma mais clara e não recorramos a lugares comuns como “sobrevivência do mais apto”), mas que mesmo assim poderia orientar a criação de hipóteses científicas falseáveis.
    O contexto em que ele fez esse comentário era exatamente o de dar um exemplo em que pressuposições metafísicas poderiam ser úteis e cientificamente produtivas, mesmo que não diretamente testáveis/falseáveis. Ele voltou atrás dessa posição. Até culpou alguns biólogos próximos a eles por simplesmente aceitar que a “seleção natural” fosse tautológica quando ela não era e empurrar isso sobre ele. Ele voltou atrás em pelo menos duas cartas uma para a revista New Scientist e outra para a Dialetica se não me engano. Mas o ponto aqui é que mesmo ele não tinha os pudores contra a metafísica que tinham certos filósofos da linguagem comum e positivistas lógicos. Os problemas de Popper eram com a Psicanálise Freudiana e teoria Marxista, seus exemplos preferidos de pseudociências.

    Sobre filósofos modernos eu também gosto do Dennet (a posição dele em filosofia da mente tem alguns ecos da minha própria. Na verdade eu deveria dizer o contrário. Hehehe!!), mas não curto muito o Pinker (que aliás não é filósofo. Se não me engano ele é um psicólogo cognitivo interessado em linguagem e psicologia evolutiva). O “Como a mente funciona” é um tanto decepcioante e o que pide ler do “Tábula rasa” é pior ainda.
    Tenho me aproximado do trabalho de filósofos que estudam a biologia evolutiva, como Elliot Sober, Richard Pennock, Robert Brandon, Samir Okasha, Sahorta Sarkar, Paul Godfried-Smith, Paul Griffths, David Hull e Philip Kitcher. Esses filósofos (alguns deles como Pennock e Brandon até trabalham em departamentos de biologia evolutiva e publicam junto com cientistas) dão contribuições excelentes a área. Sober, Kitcher e Pennock tem uma vasta experiência em destruir os argumentos criacionistas e dos adeptos do DI e o Sahorta Sarkar (http://uts.cc.utexas.edu/~philsci/sarkar/main.html) publicou um ótimo livro defendendo a biologia evolutiva chamado “Doubting Darwin?” (http://www.blackwellpublishing.com/publicphilosophy/sarkar/default.asp). Neste livro ele mesmo adota uma versão “deflacionada” de metafísica, como visão de mundo daquilo que é real e que é afetada pelo desenvolvimento científico.
    Eles não são tão conhecidos por aqui simplesmente por que não tem livros traduzidos para o Português e muitos de seus artigos aparecem em revistas de filosofia.

    Sobre o problema da indução vou deixar o Greg discorrer pois ele parece da área, mas só pra adiantar tal “problema” não me parece tão problemático assim. Cientistas e filósofos usam sim indução e outras estratégias inferenciais não-dedutivas (como a abdução, principalmente a chamada Inferência pela melhor explicação. Aliás o “Origem das espécies” de Darwin é um incrível exemplo de uso deste tipo de argumentação e estratégia inferencial) de forma útil. Estas formas de argumentar e inferir são heurísticas indispensáveis e o simples fato de não serem apoiadas dedutivamente, não as invalida uma vez que temos consciência de que somos falíveis e nossas pressuposições e conclusões não são absolutas. Esta humildade epsitêmica é muito mais importante do que buscar sempre validade dedutiva, mesmo por que a estratégia hipotética-dedutiva de Popper e a falsificação esbarram nos problemas levantados por Quine e Duhen. O Desidério Murcho, professor da UFOP, e uma dos maiores contribuintes do site crítica na rede que linkei antes tem vários posts e artigos sobre isso é só ir lá e escarafunchar nos artigos dele.

    Vc escreve de forma clara e leva os raciocínios aos poucos de forma eficiente, como se levasse seu público pela mão, o que é muito bom para as pessoas que não tem familiaridade com o assunto. É claro que erros e imprecisões vão sempre existir. Minha questão é realmente periférica, mas acho importante não cairmos em algumas tentações e perpetuar certos esteriótipos.

    Abraços e continue o bom trabalho, precisamos deste tipo de artigos e explicações,

    Rodrigo

  • Rodrigo

    Só vi a rélica e tréplica do Greg após postar a minha própria e acabamos convergindo para a instabilidade da relação do Popper com a seleção natural.

    Agora em um Off Topic daqueles, mas preciso comentar (depois tento fazer um gancho pra voltarmos a questão do Popper, e dos filósofos em geral, em relação a seleção natural). Bem lembrado pelo Greg foi a confusão causada pela publicação do novo livro do Fodor e Piattelli-Palmarini. Uns dois dias atrás assiti pela internet a discussão do Jerry Fodor (o autor principal do livro) e do Eliot Sober (http://bloggingheads.tv/diavlogs/26848) no Bloggingheads.

    Este diálogo mostra que mesmo filósofos podem ter dificuldades com certas idéias, principalmente quando se recusam a olhar para que os cientistas fazem. De um lado Fodor, um filósofo que se dedicou a filosofia da mente e as relações cognição e cérebro humano, e de outro Eliot Sober que se especializou em filosofia da biologia principalmente no principio de seleção natural e inferência evolutiva como um todo. Sober fica pasmo com a cabeça-dura do Fodor.

    Demora bastante ate que consigamos entender o que o Fodor está criticando em relação a teoria da seleção natural. Quando chega o final da discussão está o Sober cansado e frustrado. O que parece é que o Fodor tem uma compreensão bastante estreita daquilo que deveria ser uma teoria científica e de como só uma “lei de cobertura” invariável e universal seria a única alternativa aceitável para definir uma teoria. Parece que ele esqueceu ou não se interessou pelos últimos 40 anos de debates filosóficos e os últimos 30 anos de debates em filosofia da biologia. Pra ele como a adaptatividade vai sempre variar segundo o contexto e a situação ecológico-funcional, a seleção natural (que pra ele é só a definição e não todo o edifício de modelos matemáticos e estatísticos da biologia evolutiva) não pode ser baseada em uma lei geral e invariável para a adaptação e por isso nenhuma teoria científica da adapatção pode existir.

    O problema é que isso é assim só por que ele quer assim. Hehehe!! Deste jeito nenhum modelo científico mesmo os mais robustos e precisos da física atômica e astrofísica são científicos por causa da massa de informações adicionais e hipóteses auxiliares e conhecimento de condições iniciais necessárias para qualquer predição. O pior é que ele ignora a literatura biológica moderna, quase toda a literatura de filosofia da biologia pertinente e se mostra avesso a ouvir e discutir com os biólogos evolucionistas, mas mesmo assim diz que eles não sabem o que dizem. Este foi o maior exemplo de non sequitur que já vi. Vc vai acompanhando o raciocínio dele, vai acompanhando e sem mais nem menos ele conclui que não pode existir uma teoria da seleção natural.

    Pra entender melhor o problema acho que a melhor referência é o artigo do Robert Brandon sobre Seleção Natural na http://plato.stanford.edu/entries/natural-selection/. Ali fica bem claro como o principio de seleção natural é aplicado em biologia e como é usado como forma de explicação e nos teste de hipóteses. Brandon vai e segue o que os biólogos fazem, faz uma ótima limpesa conceitual e diz o que é e o que não é a seleção natural. Isso é o que um filósofo deveria faver. O fato deste principio precisar ser sempre adaptado ao contexto específico de estudo e que necessita de modelos auxiliares de genética e ecologia populacional é o que faz dele tão proditivo e são essas instâncias que são testáveis ou falseáveis, pra voltar ao ponto sobre Popper e a seleção natural (Note que essa é semelhante a posição de Popper e mostra como as vezes certas concepções filosóficas de ciências são simplesmente restritivas demais).

    A impressão que tenho é que gente como o Fodor queria que a seleção natural fosse uma espécie de caixinha preta em que vc coloca em uma lado os seres vivos envolvidos na interação ecológica e do outro lado da caixa sai a resposta e a respsota não pode variar pra nenhuma ser colocado na caixinha. É simplesmente ridículo. A seleção é um processo direcional (no sentido de não ser ao acaso), mas contingente, já que sempre que as relações ecológico-demográfico-funcionais entre os seres vivos ou as relações entre estes e seu meio se alterarem, alterasse também o que é selecioanado (Sem falar nos efeitos estocásticos da deriva genética e de restrições genéticas e embriológicas). Felizmente são poucos filósofos importantes como o Fodor que são cabeça dura o suficiente para não estudar biologia evolutiva antes de desenvolverem uma posição sobre o assunto. Felizmente o número de filósofos da biologia que entendem muito de genética de populações, ecologia, biogeografia, paleobiologia está aumentando cada vez mais e podem responder a confusão conceitual e estreitesa de perspectiva de gente como o Fodor. O pior é que o trabalho crítico dele em filosofia da mente é muito interessante.

    Abraços,

    Rodrigo

  • http://www.elivieira.com Eli Vieira

    Pessoal, querem debater à vontade, tendo seus comentários publicados em tempo real?

    Usem o espaço de debates do Clube do Bule:

    http://bulevoador.com.br/forum/debate/

  • Homero

    Greg e Rodrigo

    Eu gostei muito, muito mesmo, dos desdobramentos deste post. Foi muito interessante, muito esclarecedor, e ainda que eu tenha algumas discordâncias, em geral achei o resultado muito positivo (e me deram um bocado de novos enfoques para analisar e novos textos para procurar), e vai me deixar ocupado por um tempo. Isso é o que me motiva a escrever e compartilhar idéias.

    Mas, e é um mas muito restrito, espero que ambos percebam que, além de nós 3 envolvidos nos comentários, os leitores “normais” provavelmente estão assustados até agora, e fugiram correndo depois dos primeiros parágrafos dos comentários..:-)

    Que, alias, seriam excelente material em uma lista de filosofia avançada, mas que em relação ao objetivo do Bule e principalmente de meu post, fica exagerado. Para entender o que vocês argumentaram e apresentaram como base conceitual, seria preciso mais que um leitor eventual leigo.

    Minha esperança, como expliquei na resposta ao Rodrigo, era despertar o interesse de quem lê pela primeira vez essas questões, e faze-lo procurar por mais informação. Até por isso a linguagem deve ser simples, e os termos, se não forem fundamentais a idéia, devem refletir o uso comum.

    E este é o único ponto em que eu discordo mais intensamente de vocês, o termo metafísica, já consagrado como “também” se referindo ao sobrenatural. Não penso que foi mal colocado, apenas usado de forma mais ampla, lato senso. Sim, mecânica quantica também tem seu uso dessa forma, mas é um termo mais recente, ainda se mantém integro apesar do mal uso.

    Já metafísica está bem misturada a misticismos, sobrenatural, e mesmo charlatanismo. Infelizmente, poderíamos dizer.

    Enfim, fico muito grato pelo esforço em comentar em criticar, foi muito útil para mim. Podemos seguir o conselho do Eli e mudar a conversa para o forum, para não assustar o pessoal..:-)

    Um abraço.

    Homero

  • Rodrigo

    Valeu pela dica, Eli.

    Abraços,

    Rodrigo

  • Pena Ajena

    Greg, Rodrigo e Homero

    Mais do que uma sugestão, eu gostaria de fazer um convite para que este debate continue no Clube do Bule.

    A participação de vocês é muito importante para o blog, tanto pelo nível de cada um, quanto pela oportunidade de nos aprofundarmos em temas necessários, suscitados por um simples post.

    Sejam bem-vindos!

    Pena Ajena

  • Rodrigo

    Terei o maior prazer em fazer isso.

    abraços,

    Rodrigo