Carl Sagan Fala Sobre Aborto

Fonte: Trecho do livro Os Dragões do Éden – Especulações sobre a evolução da inteligência humana. Trecho retirado de um texto do Blog Index

(…) Em um extremo [do debate sobre o aborto] está a posição de que a mulher tem um direito inato de “controle sobre o próprio corpo”, que inclui, nos é dito, causar a morte de um feto a partir de uma variedade de argumentos, incluindo aversão psicológica e incapacidade econômica para criar uma criança. No outro extremo está a existência do “direito à vida”, a afirmação de que mesmo a matança de um zigoto, um óvulo fertilizado antes da primeira divisão embrionária, é um assassinato, porque o zigoto tem o “potencial” para se tornar um ser humano. (…)

Não há duvida de que abortos legalizados evitam a tragédia e o açougue que são os abortos ilegais e incompetentes de “fundo de quintal”, e que em uma civilização cuja continuidade está ameaçada pelo espectro do crescimento populacional incontrolado, abortos médicos amplamente disponíveis podem servir a uma importante necessidade social. Mas o infanticídio resolveria ambos os problemas e tem sido empregado amplamente por muitas comunidades humanas, incluindo segmentos da civilização clássica grega, que é tão constantemente lembrada como a antecedente cultural de nossa própria civilização. E o infanticídio é amplamente praticado hoje em dia: há muitas partes do mundo em que um em cada quatro bebês recém-nascidos não sobrevive ao primeiro ano de vida. Ainda assim, por nossas leis e morais, infanticídio é um assassinato além de qualquer argumento. Como um bebê prematuramente nascido no sétimo mês de gravidez não é significantemente diferente de um feto in utero no sétimo mês, deve-se seguir, me parece, que o aborto, pelo menos no último trimestre, é algo muito próximo de assassinato. A objeção de que o feto no terceiro trimestre ainda não está respirando parece falaciosa: é permitido cometer infanticídio após o nascimento se o cordão umbilical ainda não tiver sido cortado, ou se o bebê ainda não tiver tomado ar pela primeira vez? (…)

No lado oposto da discussão, o termo “direito à vida” é um excelente exemplo de “buzz word”, elaborado para inflamar ao invés de iluminar. Não há hoje na Terra direito à vida em qualquer sociedade , e nem houve em qualquer tempo passado (com umas poucas e raras exceções, como o jainismo na Índia). Nós criamos animais em fazendas para matá-los; destruímos florestas; poluímos rios e lagos até que nenhum peixe possa viver no local; caçamos cervos e alces por esporte, leopardos por sua pele, e baleias para ração de cachorros (…). Todas essas bestas e vegetais são tão vivas quanto nós. O que é protegido em muitas sociedades humanas não é vida, mas vida humana. E mesmo com essa proteção, travamos guerras “modernas” contra populações civis, com número de mortos tão grande que (a maioria de nós) temos medo de pensar seriamente sobre essa questão. (…)

Da mesma forma, o argumento sobre o “potencial” para se tornar humano me parece particularmente fraco. Qualquer óvulo ou esperma humano, sob circunstâncias apropriadas, tem o potencial para se tornar um ser humano. Ainda assim, a masturbação masculina e emissões noturnas são geralmente considerados atos naturais, e não causas para indiciamentos por assassinato. Em uma única ejaculação há esperma o bastante para a geração de centenas de milhões de seres humanos. Ademais, é possível que em um futuro não muito distante possamos clonar um ser humano inteiro a partir de uma única célula, retirada essencialmente de qualquer parte do corpo do doador. Se é assim, cada célula do meu corpo tem potencial para se tornar um ser humano, se preservada apropriadamente até o período em que uma tecnologia de clonagem prática esteja disponível. Estarei cometendo assassinato em massa se alfinetar meu dedo e perder uma gota de sangue?

Essas questões são claramente complexas. A solução deve envolver um entendimento entre um número de valores estimados mas conflitantes. A questão-chave prática é determinar quando um feto se torna humano. Isso, por sua vez, depende do que entendemos por humano. Certamente não é ter uma forma humana, porque um artefato de materiais orgânicos que se assemelhe a um ser humano mas construído para ser um artefato, certamente não seria considerado um ser humano. Da mesma forma, um ser extraterrestre inteligente que não parecesse com um ser humano, mas que tivesse conquistas éticas, intelectuais e artísticas maiores que as nossas próprias, certamente deveria se encaixar em nossas proibições contra assassinatos. Não é como parecemos o que especifica nossa humanidade, mas o que somos. A razão pela qual proibimos a matança de seres humanos deve ser por conta de alguma qualidade que os seres humanos possuem, uma qualidade que nós especialmente prezemos, que poucos ou nenhum outro organismo na Terra possua. Essa não pode ser a capacidade de sentir dor ou emoções profundas, porque isso certamente se estende a muitos dos animais que matamos gratuitamente.

Essa qualidade humana essencial, acredito, apenas pode ser a nossa inteligência. Se assim é, a santidade particular da vida humana pode ser identificada com o desenvolvimento e funcionamento do neocórtex. Não podemos exigir seu desenvolvimento completo, porque isso não ocorre até muitos anos após o nascimento. Mas talvez possamos estabelecer a transição para a humanidade no período em que as atividades no neocórtex começam, conforme determinado pelo eletroencefalograma do feto. Algumas conclusões sobre quando o cérebro assume um caráter distintamente humano emergem de simples observações embriológicas. Muito pouco tem sido feito nesse campo até o momento, e me parece que tais investigações devem assumir um papel preponderante na busca por um compromisso aceitável no debate sobre o aborto. Indubitavelmente haveriam variações de feto para feto em relação ao período inicial dos primeiros sinais do EEG neocortical, e deveria-se chegar conservadoramente a uma definição legal do começo de uma vida caracteristicamente humana – ou seja, tendendo para o feto mais jovem a exibir tal atividade. Talvez a transição ficaria pelo final do primeiro trimestre ou próxima do começo do segundo trimestre de gravidez. (Falando aqui sobre o que, numa sociedade racional, deveria ser proibido por lei: qualquer pessoa que sinta que o aborto de um feto mais jovem seja assassinato não ficaria sob qualquer obrigação legal para executar ou aceitar tal aborto.)

Mas uma aplicação consistente dessas ideias deve evitar o chauvinismo humano. Se exitem outros organismos que compartilham a inteligência de seres humanos em útero mas completamente desenvolvidos, deveríamos pelo menos oferecê-los a mesma proteção contra assassinato que estamos dispostos a estender a seres humanos no final de sua existência uterina. Como a evidência da inteligência em golfinhos, baleias e símios é agora no mínimo moderadamente convincente, qualquer postura moral consistente em relação ao aborto deveria, eu penso, incluir firmes restrições contra pelo menos a matança gratuita desses animais. (…)

DeliciousOrkutTumblrGoogle ReaderGoogle+FacebookShare

Mais do Bule Voador

  1. Nosso lugar no Cosmos – Carl Sagan, Richard Dawkins, Jastrow & Kaku
  2. Drauzio Varella fala sobre respeito aos ateus e sobre excomunhão da igreja.
  3. Bertrand Russell fala sobre religião (1959)
  4. A hipocrisia sobre o aborto no Brasil e a morte de Neide Mota
postado por Bule Voador em Ativismo,Brasil Mulher,Legalização do Aborto
  • ATEÍSTA Pedro Paulo Netto

    “Não há duvida de que abortos legalizados evitam a tragédia e o açougue que são os abortos ilegais e incompetentes de “fundo de quintal”, e que em uma civilização cuja continuidade está ameaçada pelo espectro do crescimento populacional incontrolado, abortos médicos amplamente disponíveis podem servir a uma importante necessidade social. ”
    Brasil: Diminuição da Criminalidade, da Impunidade, Corrupção, Atraso Sócio-Científico-Tecnológico, Mudança de Mentalidades, Igualdade e Equiparação Sexo-Econômica e Principalmente uma Nação que nos orgulharia enquanto Cidadãos porque estes lugar continua sendo um Circo sem graça alguma.

  • n7kc

    Na expressão “direito à vida” – vida (no caso, vida humana) tem a mesma conotação de alma para a maiora dos humanos.

    A maioria dos humanos acredita que existe alma, mas o que cria esta poderosa idéia?

    O tecido nervoso, é claro.

    Mas o que é alma?

    Algo inerente ao ser, algo eterno, puro…

    Quando surge a alma?

    Se é uma característica fundamental do ser só pode ser atribuida ao momento de origem do ser.

    Quando?

    Não dá para tentar explicações mais complexas, tais como quando o sistema nervoso atinge um grau de complexidade suficiente (talvez por alguma ação divina) ou quando surge a noção de si mesmo. Basta lembrar a própria palavra relacionada a união dos gametas: Concepção.

    O próprio nome já sugere o que se passa na mente humana ao imaginar este fenômeno. Quando nos tornamos um único corpo, surge a entidade única inerente ao ser. Não parece até uma simples aplicação da Espada de Occam? Esquecendo, é claro, que o conceito de alma não é.

    Portanto, a noção de alma (uma vida humana em particular) é muito mais importante para a maioria dos humanos que qualquer tragédia que poderia ser evitada pelo controle populacional.

    Considerando esta visão de mundo – alusões à vida dos outros animais ou mesmo a analogia com uma célula que poderia ser clonada… tudo isso não tem qualquer influência sobre a posição dos partidários do “Direito à Vida”.

  • Herbert Monteiro

    Pensamento límpido e direto como tem que ser nesse tipo de assunto, valeu Carl!

  • Boni

    Alma é um conceito metafísico que não tem NENHUM VALOR CIENTÍFICO, não existe uma só evidência concreta sobre como algo imaterial possa causar um evento físico material. Não existe evidências disso, não há evidências para alma.

  • Gerson B

    Há uma falha no raciocínio do Sagan: um espermatozoide ou óvulo não se tornam um ser humano sozinhos. E uma célula da pele não se transforma num ser humano naturalmente. Um feto sadio sim.

  • http://1.bp.blogspot.com/_itnji9T45XQ/SR22-582F_I/AAAAAAAAAz8/bxDT_1csgdI/s400/partir-a-rir.header.smilingpig.jpg Verdugo

    Gerson B

    Em relação a analogia da célula da pele. Esta diferença de natural e artificial é arbitrária – me lembra de uma frase do John Gray:

    “Se formos substituídos por máquinas, isso constituirá uma mudança evolutiva em nada diferente daquela em que bactérias se combinaram para criar nossos primeiros ancestrais.”

    Parafraseando:

    Se alguma forma de reprodução induzida pelos humanos se tornar a forma “padrão” e com tempo tornar tão automática a ponto de ficar indiferenciada de um processo natural – neste caso humanos surgindo de células de pele – qual seria a diferença disto para um processo natural?

    Seria nossas celulas que dependem da energia produzida por bactérias simbióticas (mitocôndrias) – bactérias “já assimiladas” – mais artificiais? Teríamos menos valor de seres que não possuem mitocôndrias (mais naturais)?

    Em relação ao espermatozoide, se o argumento é que um feto – que ainda não possui tecido nervoso – deve ser preservado pelo potencial que possui de vir a ser humano – então o mesmo vale para o espermatozóide – senão, vejamos:

    Um bebê não seria um meio humano uma vez que um humano completo necessitaria uma outra parte: a cultura. Um bêbe não forma um ser humano sozinho? O bêbe (como espermatozoide) necessitaria encontrar o “óvulo cultural” para gerar um ser humano completo?

    Poderíamos matar uma criança recém nascida por que ainda não assimilou a cultura e não pode ser considerada um ser humano? (acho que muitas culturas humanas adotaram ou adotam esta visão: infanticídio não é crime)

    Acho que estes absurdos servem para colocar a questão de que o argumento de potencial para o desenvolvimento não é pertinente.

    Mais um:

    Uma flor que produz o “Amoreci Azul” precisa de um inseto para a polinização, terá ela menos valor e poderá ser arrancada antes de virar fruto (para enfeitar e perfumar nossas casas) enquanto uma flor que é polinizada pelo vento deve ser mais respeitada, uma vez que todo potencial para virar fruto já está nela?

  • Caruê

    Verdugo
    Carl Sagan: Essa qualidade humana essencial, acredito, apenas pode ser a nossa inteligência. Se assim é, a santidade particular da vida humana pode ser identificada com o desenvolvimento e funcionamento do neocórtex. Não podemos exigir seu desenvolvimento completo, porque isso não ocorre até muitos anos após o nascimento. Mas talvez possamos estabelecer a transição para a humanidade no período em que as atividades no neocórtex começam, conforme determinado pelo eletroencefalograma do feto.
    Ele tenta definir a característica humana morfologicamente e não culturalmente.
    Estamos falando de aborto de fetos que ainda não possuem um sistema nervoso completo. A questão é quão incompleto deve ser para não ser humano, Visto que matamos animais que tem muito mais atributos ´´humanos“ como sentir dor, empatia e ate cultura do que um feto de 3 semanas.
    Textos do Carl Sagan são sempre brilhantes.

    By Eu: Prefiro ver um feto que não tem o tamanho de um grão de feijão sair pela urina, do que ver um bebe formado na lixeira.

  • Nona

    Educacao sexual nas escolas ja!!!!!!
    0 FETO pode receber 50 tipos de tratamento medico quando esta no utero, logo se ele recebe tratamento medico ELE e paciente, e paciente tem direito a vida…
    Aborto e assassinato!!!!!!
    Nao e questao de preferir um aborto do que um bebe na lixeira. Hoje ja existem muitos metodos contraceptivos. O governo brasileiro chega ao absurdo de destribuir camisinha de graca. Se nao tem condicoes de compara camisinha nao faca sexo. Se nao pode comprar comida de cachorro nao se meta a adquirir um cachorro; se nao tem dinheiro para comprar gazolina nao compre um carro. As pessoas tem que tornar um pouco responsaveis pos suas vidas, inclusive suas vidas sexuais.

  • Caruê

    (0 FETO pode receber 50 tipos de tratamento medico quando esta no utero, logo se ele recebe tratamento medico ELE e paciente, e paciente tem direito a vida…)
    A questão é se o feto é humano ou não, qualquer animal pode receber algum tratamento quando feto isso não nos diferencia de uma vaca.
    Cometemos milhares de assassinatos todos os dias, basta ir a um matadouro. Um feto humano ate algumas semanas é indistinguível de um feto de uma vaca, ele não possui consciência e dependendo da idade é incapaz de sentir dor.
    O aborto é o ultimo recurso, é usado quando a cagada foi feita. E ele vai ser feito querendo ou não, eu prefiro que seja o mais rápido possível e em clínicas capacitadas e você?

  • Nona

    Carue
    Eu RESPEITO tanto a vida que sou VEGETARIANA RADICAL!! Entao eu NAO assassino nem animal, imagina ser humano!!
    Com todo respeio a opinioes diferentes da minha, mas para mim aborto e assassinato de vaca ou pessoas, de galinha, de cachorro, de pato… e tudo vida
    O ser humano e dotado de inteligencia e deve usar a inteligencia tambem e principalmente na hora do sexo. As cagadas a que voce se referiu ( em geral nao uso esta palavra) deve ser evitada. Quem decidi e faz escolhas na sua vida? Seu cerebro ou seu extinto sexual? Ate uma crianca medianamente informada ja ouviu falar de metodos contraceptivos.
    Desculpa- me por nao acentuar seu nome, teclado americano nao tem acentos. Bom dia para voce e dias repleto de vida!!