Já que é assim …

Sou ateu, sou minoria, quero cotas!

 

Por Carlos Mauro Brasil Cherubini – em carta dirigida a O Globo

 

propaganda pró-ateísmo na Inglaterra: para quê?Aquele menino fez um gol e levantou sua camisa mesmo sabendo que iria tomar um cartão amarelo. Era a final do mundial interclubes.

O menino bonzinho, que segundo consta não sucumbiu às tentações da Humanidade, não sucumbiu às drogas, à bebida, às mulheres, foi escolhido o melhor do mundo em sua profissão, tem tido uma vida de príncipe e, quando largar o futebol, pretende ser pastor.

É uma bela vida. “Una bela persona”. Diria que é um anjo entre nós. Na sua camisa estava escrito em inglês: “I belong to Jesus”.

Eu me ofendi. E agora? Depois disso o que fazer? Eu sou ateu. Sem meias palavras, não creio nem minimamente na existência de algo divino que nos criou ou nos guia. Queria eu poder andar na rua com uma camisa escrita: “Eu não creio em Deus”.

 

Quero cotas

Não posso. Para falar a verdade, segundo uma pesquisa recentemente publicada neste jornal a partir deste texto, eu perdi a chance de ser presidente do meu país. Um ateu é mais discriminado do que um adorador do demônio, vocês acreditam? O FHC, desde seu primeiro mandato, acreditava não em Deus, mas que ser ateu é ser um paria.

Segundo a pesquisa, somente 13% pensariam em votar em um ateu para a Presidência. Sou branco, homem, heterossexual, classe média, católico meramente por batismo obrigatório, portanto, graças a Deus (literalmente), agora que me declarei ateu sou minoria. Decididamente minoria e decididamente discriminada.

Assim, quero cotas. Cotas nos cargos disponíveis no meu trabalho, cotas nas câmaras de vereadores, nas assembléias legislativas, nos concursos públicos. Aa mulheres as têm politicamente e estão à minha frente na preferência de voto para presidente por ser eu um ateu. Então, quero cotas, cotas e mais cotas.

 

Quero indenizações milionárias

Além disso, quero ter o direito de por na cadeia todos aqueles que me agredirem verbalmente por ser um ateu, que não me aceitarem. Pois que me discriminando estarão praticando um crime inafiançável como é inafiançável e horrendo o anti-semitismo ou qualquer outra forma de discriminação religiosa.

Ah, quero indenizações milionárias pela perseguição que tenho sofrido há anos pela sociedade, que me impôs meu batizado, o curso de noivo, o batizado de minha filha, os casamentos, as missas em que fui obrigado a ir, os chatos dos religiosos que me perseguem com suas ignorâncias científicas e suas certezas mitológicas, me tratando como se eu fosse um imbecil ou pior, um portador de uma doença contagiosa e mortífera.

 

Se adiantou para os outros casos, conosco – ateus – não deve ser diferente

O Estado que se diz laico tem que me pagar pelas bancadas religiosas que procura para fazer acordos demoníacos nas assembléias legislativas, pelos bispos e pastores do mensalão. Tem que me pagar pelas oportunidades de emprego que perdi por me dizer ateu. Neste caso, deveria me pagar em dobro porque produziu gerações e gerações ignorantes, quando não analfabetas, que não têm o menor apego ao conhecer, ao ler, negligenciando a educação do povo que, ignorante, precisa cada vez mais de heróis e deuses.

Deveria pedir um aposentadoria vitalícia do governo, isso sim, como receberam aqueles que durante o governo militar foram meramente perseguidos, não mortos ou torturados ou exilados, porque estes, diferente daqueles, merecem mais que indenização. Talvez com cotas ou indenização eu me sinta melhor e o governo também, afinal se adiantou para os outros casos, conosco – ateus – não deve ser diferente.

 

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  • ATEÍSTA Pedro Paulo Netto

    Deveria pedir um aposentadoria vitalícia do governo, isso sim, como receberam aqueles que durante o governo militar foram meramente perseguidos, não mortos ou torturados ou exilados, porque estes, diferente daqueles, merecem mais que indenização. Talvez com cotas ou indenização eu me sinta melhor e o governo também, afinal se adiantou para os outros casos, conosco – ateus – não deve ser diferente.
    E Queremos Agora! Porque nós Não gostamos de Panetones, Não temos Mensalão, Não fazemos Rachid, Não surramos nossas mulheres, não estupramos nossos filhos e mais do que Tudo: Queremos ter Orgulho deste País que não nos respeita mas quer que respeitemos a Maioria de sua população cordial, corrupta, criminosa e principalmente que sejulga melhor do que o restante do Mundo mas não passa de lastro inócuo.

  • Richard Van Dehrer

    Estado laico não existiu, não existe e nunca existirá, em lugar nenhum do mundo. A porcaria da religião está tão impregnada nos poros da sociedade que colocar um cadáver pregado numa cruz, mesmo que nunca tenha existido, é considerado normal e aceitável. O problema não é ser ateu, é revelar isso nos momentos errados e, no caso dos descendentes do Dawkins, “pregar” o ateísmo por aí como se fosse um evangélico fanático daqueles programas que passam de madrugada.

    Cotas, indenizações para minorias, tudo isso aumenta AINDA MAIS a discriminação, apesar de ser bem aceito pela sociedade, sob o pretexto de “proteger as minorias e redimir-nos por todos os males que lhes causamos blablablabla”. Eu chamo de “discriminação sustentável”.

  • Victor Hugo

    Rcihard

    Quais seriam, exatamente, os momentos errados para se “revelar” um ateu?

    Em relação aos “descendentes” (?!?) de Dawkins, pode até ser que existam aqueles que pregam como evangélicos, mas a maioria simplesmente exerce seu direito de não crer em deus e, eventualmente, tocar no assunto. O que há de errado nisso?

    Victor

  • Richard Van Dehrer

    Momentos onde isso não é relevante. Ter orgulho de ser ateu é tão estúpido quanto qualquer outro orgulho.

    Eu não disse que não é um direito. No papel, é, mas na prática você será discriminado como qualquer outra pessoa por qualquer outro motivo. Ser ateu não é pior do que ser negro, judeu ou usar óculos (sim, ainda existe preconceito contra isso). Qualquer coisa que te distinga na massa de idiotas te faz automaticamente uma minoria.

  • Richard Van Dehrer

    Em tempo: eu sou ateu. Não que isso importe.

  • Victor Hugo

    Richard

    Qualquer assunto é inoportuno, se colocado em momentos em que não são relevantes, seja culinária, religião, automobilismo ou ateísmo. Não é um problema de “ser ateu”, mas uma questão de não saber a hora certa de falar.

    Quanto à crítica àqueles que aprovam a postura de Dawkins e não se constrangem em assumir e discutir seu ateísmo, continuo achando exagerada e descabida.

    E, em tempo, também sou ateu, com muito orgulho.

    Victor

  • Daniel Ribeiro

    Certamente existem momentos em que não se deve tocar no assunto de ser ateu. Mas sempre que alguém, seja de qualquer religião, ou sem religião toca em assuntos relacionados a religião eu converso normalmente, ser ateu é algo natural pra mim, o ateísmo é natural. As religiões que são artificiais, elas foram criadas pelo homem e modificadas por ele, se qualquer pessoa me diz que sua fé é a pura verdade, espero que ela possa falar sobre isso abertamente e usando argumentos no mínimo razoáveis. Todos falam sobre política, sobre quais são seus programas de televisão preferidos, e quando o fazem, apresentam motivos pelos quais preferem isso ou aquilo, e com a religião não deve ser diferente. A postura de Richard Dawkins pode parecer agressiva, mas ela não é. Tudo o que ele faz é se expressar e não se deixar calar pelo “manto” de proteção que a religião conseguiu adquirir para si, fazendo com que suas crenças sejam inquestionáveis apenas por dizer coisas do tipo: “a religião é sagrada” “você não pode tocar nesse assunto pois é uma questão de fé” e etc. E a propósito, sem querer alimentar um assunto polêmico, mas nós não deveríamos ter cotas em nada, da mesma forma que todos, pois todos somos iguais, e nenhuma pessoa deve ter qualquer tipo de vantagem ou preferência em relação a outros. Nós ateus somos tão capazes quanto todos, e todos quanto nós.

  • Victor Hugo

    Daniel

    Se não ficou claro para você e para outros leitores, gostaria de dizer que a questão das cotas, no texto, é APENAS UMA IRONIA que o autor utiliza, como forma de levar ao extremo do rídículo a discriminação aos ateus.

    Novamente, gostaria de perguntar: você poderia me dizer quando é que “certamente existem momentos em que não se deve tocar no assunto de ser ateu”? Estou curiosíssimo.

    Victor

  • Daniel Ribeiro

    …, eu entendi que era uma ironia, apenas quis deixar claro minha posição em relação a isso(admito agora que li novamente meu post, que realmente, da forma que escrevi, parece que não entendi). E existem sim momentos em que é extremamente inconveniente tocar no assunto de ser ateu. Você é convidado para um comemoração de um aniversário na casa de uma pessoa que você pouco conhece, então o anfitrião é católico, e paraplégico, mas acredita fielmente que que deus é bom e já realizou milagres na vida dele, e enquanto ele esta contando das dificuldades que passou na vida você seria indiferente o suficiente a ponto de fazer a pergunta que não quer calar? “Se deus ama você e sempre te deseja o bem, por que motivo ele o faria passar por todas as dificuldades de ser paraplégico?” E certamente isso levaria a uma conversa de no mínimo 30min, e acho que a religião tem um efeito placebo benéfico em casos como esse. Acredito que esse seja um momento onde falar sobre ser ateu é inconveniente, mas também existem outros como quando alguém que você conhece perdeu um parente ou amigo, e eles dizem algo do tipo: “Mas tudo bem, pois acredito agora que ele está no céu com deus e quando morrer vou me encontrar com ele.” Caso deseje posso citar mais ocasiões, mas acredito que isso seja suficiente.

  • ATEÍSTA Pedro Paulo Netto

    Cotas, indenizações para minorias, tudo isso aumenta AINDA MAIS a discriminação, apesar de ser bem aceito pela sociedade, sob o pretexto de “proteger as minorias e redimir-nos por todos os males que lhes causamos blablablabla”. Eu chamo de “discriminação sustentável”.
    E eu prefiro que seja a DISCRIMINAÇÃO POSITIVA porque somos nós que Estudamos, nos Graduamos, Mestramos, Doutoramos e Pós-Doutoramos!
    Somos nós que Lutamos por um Mundo mais Consciente sem justificativas para o crescimento da Discriminação do Preconceito, Racismo, Sexismo e da Mediocridade Social!
    Toda hora é hora de falar o que Pensamos! Não sejamos inocentes! Devemos sempre Pensar e Discordar desta maioria iludida que nos ofende e se zanga como um bando de mulherzinhas quando acabamos com sua Ilusões.
    Acabou a guerra fria! Vamos acabar com estes Criminosos!
    E só para constar: Sou Ateísta, Darwinianao e Dawkiniano de Extrema -Esquerda!

  • Richard Van Dehrer

    Primeiramente, Victor, explique-me como é que se discute religião quando as pessoas a consideram indiscutível. Alguém aqui se tornou ateu por que outra pessoa questionou suas crenças, ou foi percebendo, sozinho, que toda aquela baboseira mitológica não fazia o menor sentido e não tinha o mínimo de respaldo na realidade? É impossível suscitar um debate que ninguém quer ou está preparado para ter. Não tenho problemas em dizer que sou ateu, e até andaria por aí com uma camisa “GOD IS A DAMN MOTHERFUCKER”, ou um equivalente em português (que boa idéia pra uma camisa, aproveitem).

    Segundamente, o problema com as cotas não é tanto a discriminação disfarçada, porque isso já não é nenhuma novidade, mas a aplicação errada. Em vez de incluir todo mundo desde o ensino básico, define-se um critério artificial (raça não existe POR FAVOR) na porta do ensino superior, que nem sequer é respeitado. Irmãos gêmeos já foram definidos como tendo “raças” diferentes, isso foi matéria de capa duma revistinha semanal que é publicada por aí.

    Terceiramente, todo mundo percebeu que a parada com as cotas foi ironia, mas quis expressar sua opinião sobre o assunto mesmo assim. [3]

    Quartamente, sorry pelo offtopic.

  • Victor Hugo

    Daniel

    Desculpe-me, mas os exemplos que você deu, não são exemplos úteis de ocasiões em que “certamente existem momentos em que não se deve tocar no assunto de ser ateu”.

    A exemplo do Richard, você deu apenas bons conselhos sobre saber ficar de boca fechada, independente do assunto ser ateísmo, futebol ou culinária.

    Chega a ser anedótico o seu exemplo do cadeirante, porque seria tão incoveniente falar sobre ateísmo quando convidá-lo para uma corrida matinal.

    Qualquer assunto, meu caro, tem seu momento certo. A diferença entre ateus e crentes talvez seja exatamente a falta de bom-senso dos crentes, que não sabem a hora de ficar calados.

    Portanto, não podemos comparar o pior dos crentes com o pior (?) dos ateus. Via de regra, o ateísmo não é uma ideologia que – a exemplo das religiões – traga em si mesmo a instrução: copie-me. O ateísmo é somente – e tão somente – a não crença em deus.

    Você pode até explicar os motivos que o levaram – ou levam – a não crer em deus. Você pode, inclusive, apontar os absurdos da fé, a hipocrisia e os crimes cometidos pelas religiões ou em nome de deus. Mas esse não é um imperativo do ateísmo, não constitui um cânon ateísta.

    Existem ateus que simplesmente não entram no mérito alheio de crer ou não crer em deus; assim como existem aqueles que professam em alto e bom tom a sua descrença.

    Existir o “momento certo” para fazê-lo ou deixar de fazê-lo não tem nada a ver com o ateísmo em si. A não ser naqueles casos em que se procuram justificativas para não sair do armário.

    Victor

  • http://twitter.com/Kollim Karina Kollim

    Tudo é questão de respeito e bom senso. É necessário que esses dois quesitos estejam presentes em ambas opções relativas a religião, independente de crenças (ou da falta delas).
    Respeito é a base de tudo, independente do assunto. É preciso tolerância com as diferenças de qualquer caráter.

    P.S: Sou agnóstica e meu comentário não foi nenhum tipo de crítica a nenhum dos comentários já postados.

    Abraços []